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Tal pai, tal filha

Sempre culpei meu péssimo senso de direção ao meu cérebro feminino. Depois, passei a colocar também meu destrambelhamento na jogada. Já me perdi inúmeras vezes, não só dentro de uma cidade, mas também (pasme) dentro de uma casa. Não sei ler mapas, não consigo seguir coordenadas e nem fornecer informações a motoristas perdidos.
- Moça, você pode me dar uma informa...
- Não sou daqui – digo sempre, mesmo que esteja na esquina do meu prédio.
Ontem descobri que meu problema em me situar e me deslocar é puramente genético.
Quatro dias antes do feriado, meu pai me avisou de que não era preciso comprar passagem para viajar até o reduto da família. Como ele estaria viajando e justamente um dia antes do feriado passaria pela cidade onde moro, poderia me dar uma carona. “Assim, você se safa de gastar com a passagem e de perder o ônibus”, falou, em tom de brincadeira. But, como a Lei de Murphy rege a minha vida, isso não é, absolutamente, garantia de uma viagem tranquila.
Dirigir na cidade onde moro é um tormento para meu pai. Culpa das ruas, das placas (ou falta de), das preferenciais alternadas... “Se você conseguir tirar carteira lá, vai dirigir até no Iraque!”, ele vive me dizendo. Por isso, fiquei em cólicas ao imaginar meu pai tentando me encontrar. Como ele detesta dirigir à noite, achamos por bem viajar o mais cedo possível. Dessa forma, ele me pegaria direto no trabalho, para onde eu já levaria minha mala logo cedo. De lá, partiríamos.
Mobilizei todo mundo para me ajudar a explicar a meu pai como ele faria para chegar direitinho ao jornal, sem se perder. Um feito, digamos, difícil.
No horário combinado, esperei e nada. Na certa, havia se perdido. Mas minha mãe, que havia ficado em casa, avisou que ele estava congestionado na estrada e que iria demorar. Como não queria ficar mofando na rua, porque o jornal já tinha fechado, peguei a malinha e decidi ir para casa. “Quando ele chegar, eu tento explicar onde fica minha casa”, pensei, já me contorcendo ao imaginar o transtorno que isso ia dar.
Perdi o ônibus (é uma maldição, eu perco todos) no ponto ao lado do trabalho e decidi ir a pé até o terminal. É claro que, no caminho, três ônibus passaram. Cheguei ao terminal esbaforida e peguei o ônibus para minha casa no pulo do gato. Fiquei tão feliz que o motorista abriu a porta que saltei para dentro – pela porta da frente. “Você não pagou?”, perguntou o motorista. Como minha resposta, envergonhada, foi afirmativa, ele mandou descer e entrar pela parte de trás, onde dezenas de sardinhas espremidas em uma lata de conserva botavam os olhos sobre mim parecendo me recriminar: “Além de fazer o ônibus parar, a retardada entra pelo lado errado”.
Cheguei em casa e recebi a ligação da minha mãe. “Escuta, teu pai tá possesso lá no jornal. Pega um táxi e vai para lá”. “Mãe, acabei de chegar em casa. Eu ligo para ele e explico como ele faz para chegar aqui”. “Tatiana, você conhece a peça. Ele disse que tá parado em frente ao letreiro do jornal. Não contraria”.
Não contrariei. Chamei o taxista amigo meu (que já havia me levado ao trabalho – por causa da mala – naquele mesmo dia cedo). “Uma longa história, seu Portela. Toca para o jornal”.
Meu pai nem tava possesso, era mentira da minha mãe. Mas tínhamos ainda um longo desafio: sair da cidade. Havia dito ao taxista, ainda no carro, que meu pai era um pouco perdido e que quase não me visitava. “O senhor explica para ele como faz para pegar a estrada?” Mas seu Portela fez melhor. Como ia buscar um cliente em um bairro perto da rodovia, pediu para que nós o seguíssemos. “É muito fácil. Quando eu der sinal que vou para a direita, vocês contornam a rotatória e pegam à esquerda”, disse. Colocar direita e esquerda em uma mesma informação e pedir que eu entenda já é um pouco demais para mim. Mas meu pai fez que entendeu, então seguimos em frente. Dez minutos depois, o taxista deu sinal para a direita, mas não entrou. Meu pai enxergou uma rotatória e bradou: é aqui. Entramos à esquerda e cinco minutos depois percebi a cagada. “Pai, certeza. Erramos”. “Ihh, Tatiana. Acho que a gente errou”. É sempre assim, ele nunca me escuta. Nisso meu celular toca. “Seu Portela? Ah, é, já vimos que erramos. Já voltamos aí”. Eu digo que o taxista é um anjo e ninguém acredita em mim. Voltamos ao lugar da entrada errada - onde seu Portela nos aguardava -, seguimos em frente e, aí sim, acabamos na rodovia.
Tudo em ordem? Nããão. Imbicamos à esquerda, conforme o combinado. Meu pai desandou a falar sobre suas andanças, sobre seu dia, mas sem se descuidar das placas. Como toda pessoa que tem a congênita capacidade de se perder, ele sabe que é essencial sempre ler todas as placas. Eu, que também estava atenta, não deixei de observar: “Cascavel, Cascavel, Use o cinto de segurança, Foz do Iguaçu... Pai, cadê as placas de Pato Branco?”. “Pois é, menina. Estou reparando mesmo. Acho que a gente se perdeu”.
Com um número arriscado na estrada, fizemos um retorno improvisado e voltamos por onde tínhamos vindo. Já tínhamos avançado, sei lá, uns 20 km. “Como é que a gente foi se perder, né, minha filha... Quer dizer, acho que a gente se perdeu, né?”
Pronto. Ganhamos o prêmio dos dois mais perdidos do universo. O paradoxo é que nem tínhamos a certeza se estávamos mesmo perdidos. O carro se deslocava em silêncio. Meus neurônios queimavam ao tentar lembrar qual era o caminho que o ônibus fazia ao sair da cidade, mas eu sempre estou dormindo ou lendo nesse momento. Meu pai também quebrava a cabeça, mas acabava sempre com a mesma conclusão: “Tá vendo? É por isso que eu detesto dirigir à noite. Tudo fica mais difícil”.
Quase no ponto onde o taxista nos deixou, encontramos um posto de gasolina. Meu pai ignorou o atendente e pediu informação diretamente ao motorista de um caminhão. “Porque caminhoneiro sempre sabe mais”. Qual não foi a surpresa quando o cara apontou a mesma estrada da qual tínhamos voltado.
O-oou. Meu pai, inconformado, perguntou cinco vezes. E cada vez que o tio dava uma resposta, meu pai a repetia, quase gritando. “ENTÃO É NESSA MESMO? SÓ SEGUIR EM FRENTE?” Parecia que queria que todos achassem que éramos, eu e ele, umas antas. O motorista, quando viu a placa, deve ter tido certeza. O pai ainda voltou-se para o atendente, que confirmou a informação.
Seguimos de volta pela estrada. Eu ri muito. Ele deu umas risadinhas, mas acabou concluindo o mesmo de sempre, após um atraso, ou um caminho errado. “Que nada, sabe? Vai que a gente tinha ido certo naquela hora e acontecia um acidente? Agora a gente chega diretinho” “Vamos chegar meia hora depois, mas vivos, né pai?”, concordei, rindo. “Justamente”.

Comentários

Klaus disse…
"Cascavel, Cascavel, Use o cinto de segurança, Foz do Iguaçu... Pai, cadê as placas de Pato Branco?" Ahahahahahahaha! Viu, o trenó tem GPS, né? Só pode! Cara, vocês dois são muito divertidos! Ah, já ouviram falar em mapa? No começo é difícil, mas qdo pega o jeito é a 8a maravilha da humanidade!
Cara...certeza que o trenó do Papai Noel tem GPS ou um outro tipo de localizado hiper moderno. E certeza Tati, que você puxou seu pai na questão dos horários!! rsrsrsrs.
Apresenta o Google Earth para o papai noel!!1


=*
João disse…
Que odisseia!!!
Daria até para dividir em vários atos... rsrs
Finito Carneiro disse…
Agora entendi porque o presente que eu pedia estava sempre na casa do vizinho...
Tati, vc é uma figura!!!
Acompanhada do papai noel, então...
tô me contorcendo de rir aqui!!!
hahaha
Beijoo
Éder disse…
Oie!
Tati, há tempos você me passou o endereço do teu blog e eu adicionei aqui aos meus (milhares) de favoritos. Milhares mas devidamente acondicionados em pastinhas. O seu estava em "coisinhas legais nunca abri". hehe...
Dei risada, em algumas passagens. Muito legal... hehe...
Ah, e sou o visitante número 3131. Isso dá algum prêmio?

Beijo
Michele Matos disse…
Mas eu sei que vc se orgulha de ser como ele...e com razão! Ele é o Papai Noel!

=**

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