Três fatos

Hoje me ocorreram três fatos que, isoladamente, talvez não valham um devaneio antes de pegar no sono. Juntos eles me renderam certas divagações. Mas não quero atribuir-lhes sentido de começo, meio e fim. Não acredito no misticismo do número 3 nem acho que um acontecimento a mais quebraria a corrente. A descrição não segue a ordem cronológica, da mesma maneira como eu os percebi e os retomo agora, final da noite.

No início da noite, encontrei um velho amigo no supermercado. Em seis anos de amizade, sou capaz de bater os olhos nele e perceber que algo lhe aflige. Hoje foi exatamente assim. O sorriso franco do dia-a-dia dava lugar a uma expressão cansada de quem tudo já viveu e com pouco se contentou. Conversamos por um tempo e ele resumiu as dores na vontade de que algo bom lhe caísse dos céus.
Disse a ele que tudo ia passar. Olhei ao nosso redor tentando encontrar mais um argumento para mostrar-lhe que a vida tinha um quê de belo. Vi as pessoas encasacadas, comprando seus pães e leites como se estivessem no piloto automático, desenrolando mais um pouco do novelo da rotina, para dar cabo a um cachecol de lã. Não havia ali espaço para riso ou brincadeiras. E constatei que a tristeza do meu amigo era somente reflexo do ambiente.
- Liga não. É culpa desse tempo feio que está lá fora – disse eu, tentando consolá-lo.
- Acho que as pessoas deixam para descarregar suas frustrações em dias nublados como o de hoje.
- Sim. Olha, estou indo. E lembre-se. O sol vai sair - sorri, abraçando meu amigo de horas diversas, sem saber como alegrá-lo.

Lembrei que, naquele dia, no meio da manhã, eu esperava uma entrevistada no meio da rua. A mulher demorava e eu fiquei ao lado de uma senhora que trabalhava entregando panfletos de orientação sobre saúde. Como não nos conhecíamos, mas precisávamos dividir, forçosamente, aquele mesmo espaço, o silêncio se tornava constrangedor. Puxei, então, o assunto de sempre:
- E esse frio?
- Nem fale. O pior é que quando o tempo fecha, as pessoas também se fecham. Ninguém cumprimenta, ninguém faz questão de ser simpático. No frio, as pessoas ficam frias.
Olhei para ela com ar de espanto, como se ela tivesse acabado de descobrir a roda. Uma mulher simples, que tremia de frio e não ligava para as recusas dos passantes. Não insistia para que pegassem os papéis. Esperava tão somente dar o horário de ir para casa, almoçar, voltar, passar a noite, voltar, ir para a casa, almoçar, voltar, ir para casa...
A mulher voltou para seus panfletos e eu me perdi nas divagações, lembrando de quando li “O Quinze”, da Rachel de Queiroz. De tantos livros que se passam na agonia da seca, aquele me despertou o óbvio. “Na seca, as pessoas secam por dentro”, falei eu em voz alta, quando terminei o livro.
Na seca, no frio. A tendência é se fechar, secar a fonte dos sentimentos, murchar, como murchava o sorriso de Fernando... Era como se eu tivesse encontrado uma chave.

Fechei a porta da minha casa de manhã cedo e corri para o andar debaixo, a fim de não me atrasar para o encontro que havia marcado. Na hora combinada, bati à porta, mas ninguém me atendeu. Recebi a mensagem: Saindo do banho. Percebi que eu ficaria ali ainda por um tempo, então, sentei na escada e aguardei. Puxei um livrinho do Fernando Pessoa e reli sua Tabacaria.

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.(...)


Nunca percebi como o prédio é tão movimentado. Na correria do dia-a-dia, não encontro ninguém. Em dez minutos parada, vizinhos e mais vizinhos passaram, cumprimentando-me na escada. E nada de me abrirem a porta...

(...) Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta (...)


- Ué, o que aconteceu?
Um dos meus vizinhos de porta, o do lado esquerdo, fitava-me da escada.
- Nada, respondi, tirando os olhos do livro e encarando-o.
- O que está fazendo aí sentada? – perguntou-me.
- Estou esperando. Esperando que me abram a porta.
- Ah, bom. Achei que estava sem chave.
- De certa forma, estou – respondi, mas ele não me ouviu.

14 comentários:

{ Tiozaum } at: 26 de maio de 2009 18:05 disse...

Muito bonito e tocante o texto. Gostei mto!

{ Scheyla Joanne Horst } at: 26 de maio de 2009 19:57 disse...

Neste texto vc foi uma ótima costureira dos retalhos da vida :)
Aquele trecho que vc fala que as pessoas estão "no piloto automático", lembrei daquela teoria de que as pessoas são como as formigas que se trombam e continuam seu percurso, carregando fardos maiores que elas. Pessoas passam e repassam. Poucas percebem.
Ando meio ausente da vida bloguística ultimamente, perdi vários textos seus. Vou tentar "colcoar em dia" a leitura. hehe.

{ Jepre } at: 27 de maio de 2009 07:55 disse...
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{ Michele Matos } at: 27 de maio de 2009 09:09 disse...

É verdade, pura verdade. Eu fico fria no frio. Preciso sair do piloto automático.
Pronto, saí. Vou viver agora.

Vanessa at: 27 de maio de 2009 14:47 disse...

Tati, cada vez te admiro mais. Amo vc.

{ Marcela Paiva } at: 27 de maio de 2009 15:21 disse...

1- Gostei muito disso: Olhei ao nosso redor tentando encontrar mais um argumento para mostrar-lhe que a vida tinha um quê de belo.

2- Acho que as pessoas do supermercado ainda não descobriram o bolo de fubã cremoso no setor da padaria.

3- Quando acho que o inverno é ruim, eu lembro que é nele que tem mexerica. e eu adoro mexericas.

4- eu sempre pego os folhetos.

{ Não Enviadas } at: 27 de maio de 2009 17:30 disse...

Sincronicidade. Tem acontecido muito comigo. Acho que acontece com todo mundo, mas só uns poucos têm o dom de notar.
;)

Bjos Tati!

CamilaRufine

{ Eduardo Machado Santinon } at: 28 de maio de 2009 19:15 disse...

Porra Tatiana, eu vim executar um assalto e parei pra ler esse texto. Que isso ! muito bonito mesmo, de verdade menina, tudo. O jeito que você enxergou, associou e descreveu. Por um momento pensei em te poupar, mas como você mesmo disse a culpa é do ambiente, a vida é dura. Sendo assim me passa o msn ! meu email é dusantinon@gmail.com. Não tô de brincadeira não hein !...

{ Eduardo Machado Santinon } at: 28 de maio de 2009 21:13 disse...

Perdão Tatiana ! esse email é o meu email, mas não o do msn. É que eu achei que você ia mandar o seu pra mim por email, achei e guardei pra mim né pois não te expliquei isso. O do msn é eduardosantinon@uol.com.br, desculpe o transtorno senhora vítima.

{ Juliana Cruz } at: 30 de maio de 2009 09:41 disse...

eu gosto de números ímpares...

{ Mirtes } at: 30 de maio de 2009 11:08 disse...

Excelente!!! não precisa dizer mais nada...

Bjs

{ Híndira } at: 31 de maio de 2009 17:31 disse...

Prosaico e ao mesmo tempo rico, porque as divagações descritas vão recheando todos os fatos que você descreve.
"O sertão está em nós." Frase na qual sou apegada e na qual pensei enquanto te lia.

{ Cleyton } at: 2 de junho de 2009 06:09 disse...

1 - Bom dia!
2 - Já mandou esta crônica pro jornal?
3 - Já me roubou com este texto.
4 - Quero voltar mais vezes, prometo deixar o allstar no tapete.
5 - Viciei.
6 - Beijo.

{ Klaus } at: 7 de junho de 2009 17:13 disse...

O cotidiano eh tao rico em historias, mas sao poucas as que valem ser contadas e menos ainda as que sao pescadas pelos viventes-escritores... Sobre o frio, conclui algo parecido quando vivi em Ponta Grossa e descobri porque as pessoas do hemisferio norte sao tao ensimesmadas! De resto, mais um texto gostoso de apreciar com admiracao!

 

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