Despertador

E na mudez da palavra amor tantas vezes dita...

Acordei com esse verso na cabeça. Tem gente que acorda com músicas, palavras, sonhos martelando na caixa craniana. Eu desperto com poemas. As palavras vieram com o abrir dos olhos, com com seu gosto, com sua pele bem próxima e a vontade de que aquele momento se tornasse constante, sem a parte chata da constância.

Escovei o cabelo, os dentes, troquei de roupa e a frase ressoava dentro de mim, como se fosse urgente ser antecedida ou continuada.

Caminhei pelas ruas ao seu lado. Pelas calçadas tentei lembrar de onde teria surgido o verso. O verso de nove palavras, iniciado por uma conjunção que indicava ter antecedentes. Como tínhamos, eu e você.

Não sei se fui eu ou você quem decretou que eu deveria pesquisar se o verso já existia e, caso contrário, deveria escrever eu mesma um poema onde essas palavras se encaixassem.

Duvidei que meu inconsciente fosse poeta e tivesse deixado escapar uma frase tão cadenciada para essa cabecinha tão cheia de prosa. Leio e decoro poemas, não os crio.

Ainda mais um poema com a palavra amor. Foi ao seu lado que voltei a dizê-la e ouvi-la. A palavra que ficou muda, mesmo tendo sido escancarada anteriormente como um tudo bem. De tão dita, acabou desdita, esquecida, jogada no fundo do armário, como a caixinha de recordações cujo dono era o próprio antigo amor.

Hoje eu economizo, ou melhor, guardo para mim o que fica chato se banal. Ficou encalacrado em mim aquele medo de quando eu amor e amor você eram só desprezo por dentro. Quando o que hoje é amor era indiferença. Quando o amor era só um talvez, uma chuva que chovia por dentro e se revelava impossível por fora.

Descobri que não faz mal ser comedida. (Eu, justo eu, a menina das entranhas!) Tenho aprendido a dizer eu te amo com um olhar. Lanço-o sobre você na tarefa simples, que você se concentra para não errar. Nos seus olhos fechados dizendo mais cinco minutos. Na escolha das frutas do supermercado. Nos olhares que se encontram e se encontrando suplicam um beijo.

E eu ouço amor, mesmo não olhando para os dois lados da rua, mesmo querendo te beijar quase provocando um atropelamento. Mesmo esquecendo a senha do banco. Mesmo errando a mão. Mesmo tendo escrito palavras duras. Mesmo não escapando do chavão. Vez ou outra ainda demoro a perceber que sou eu mesmo o amor de alguém.

O poema já existia. O amor, desse jeito, ainda não. Esse eu sou capaz de criar. E despertar.

15 comentários:

Flareço at: 5 de junho de 2009 18:40 disse...

ual! parabens! gostoso de ler e sentir....

{ paulete miletta. } at: 6 de junho de 2009 03:48 disse...

eu amei, me emocionou muitíssimo. vc. é mesmo de entranhas. rs.

{ Não Enviadas } at: 6 de junho de 2009 09:11 disse...

Nossa, que lindo.
Ultimamente me acho incapaz de sentir e escrever coisas bonitas.
Mas pra ler, estou afiadíssima!

=*

CamilaRufine

{ Cleyton } at: 6 de junho de 2009 09:20 disse...

Quero tomar umas cervejas contigo, tá?

{ Eduardo Machado Santinon } at: 6 de junho de 2009 10:52 disse...

Que bonito isso Tati, não vou mais te assaltar, inclusive se você estiver precisando de alguma coisa me avise, a gente dá um jeito.

{ Paulinha Fernandes } at: 6 de junho de 2009 18:28 disse...

Tati, que lindo.
Sério, amei. Tão sincero, tão profundo... e tão bom saber que você está feliz!
Adoro vc, guria!
E ame mesmo. Muito. Se jogue. Vale a pena. Sempre vale.
Beijoo

{ Mirtes } at: 6 de junho de 2009 18:40 disse...

Deixei de querer amar no sentido da paixão, mas adoro tudo que se refere ao amor...., muito bonito o que vc escreveu,

Bjss

{ Denise } at: 7 de junho de 2009 06:33 disse...

Observar,recolher,soltar,aprender e buscar.

Bom demais ter achado esse caminho,quero voltar.

Denise

{ Michele Matos } at: 7 de junho de 2009 17:06 disse...

Quero tomar umas cervejas contigo, tá? [2]

Meu bom Jesus de Iguape!
Que coisa mais linda!

{ Juliana Cruz } at: 8 de junho de 2009 16:23 disse...

bonito. gosto de pessoas que sabem se expressar tao bem. costumam ser confiaveis.

{ Estrela do Mar } at: 9 de junho de 2009 17:05 disse...

O amor tá fazendo bem p os teus textos... cada dia mais bonitos!!!

{ Neto } at: 10 de junho de 2009 10:11 disse...

massa =D

eu acordo com pedaços de tudo um poko

a uns tempos eu acordei com um pedaço de uma música cantado em húngaro, fiquei uma semana tentando descobrir daonde eu conhecinha aquilo, mas enfim, descobri

^^

{ Scheyla Joanne Horst } at: 14 de junho de 2009 08:30 disse...

Muito bonito. Simplesmente :)

{ Lobo das Estepes } at: 13 de outubro de 2009 17:48 disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
{ Lobo das Estepes } at: 13 de outubro de 2009 17:57 disse...

Tatiana,

Adorei ler alguns dos seus Post. Parabéns!

De entranhas ou não, vi em você uma pessoa formidável.

Já conheci, conheço, vi e li, de e sobre muitas mulheres guerreiras, amar uma delas, e por ela ser amado é hoje, uma honra e minha felicidade.
E, você é mais uma da tantas mulheres de garra, que vivem nesse século.

Amei ler o Post sobre o Papai Noel em junho, amei igualmente ler o "Despertador", e me intrigou a Mirtes alí dizer que deixou de querer amar, no sentido da paixão.

Eu casei 4a. vezes ... bom é outra história.

Mas até encontrar a felicidade, novamente, que chegou num Natal, o caminho foi longo, inesperado e cheio de surpresas.

Diria à Mirtes, NUNCA desista de seus sonhos!

E para você, felicidades, sucesso muito progresso e longevidade.

 

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