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Papai Noel veio em junho

Junto com as festas juninas, fogueiras de São João, época de muito quentão e amendoim, eis que recebo um presente de Papai Noel.
É claro que me refiro ao meu pai. Contra tudo o que eu penso de gente que recebe a vida de mão beijada dos pais, eu vivo recebendo presentes do meu. Nas horas mais inusitadas, coisas das quais às vezes eu nem preciso. Quando eu era criança, ele viajava para o Paraguai três vezes por semana e, a cada viagem, eu recebia um pacote. Sempre uma coisa inédita, algo que ele não colocava nas prateleiras que tínhamos na cozinha de casa. Algumas vezes ele vendia umas coisas do meu quarto, como a minha guitarra rosa.
Eu adorava aquela guitarra. Era cor de rosa, a cor da Xuxa, tinha botões coloridos e eu, sem nenhum talento musical, conseguia tocar todas as canções populares nela.
Um dia, a mulher de um médico chegou e pediu um presente para a afilhada. Meu pai mostrou uma guitarra igual a minha, mas branca.
- Ah, eu gostei, é um belo presente, mas a menina só gosta de coisas rosas – lamentou ela.
- Não seja por isso! Eu tenho uma aqui.
Lá se foi minha guitarra. É claro que eu fiquei com a branca, mas nunca mais encostei nela. A magia do presente se foi, com a substituição para satisfazer a penélope aficcionada.
Embora meu quarto sempre fosse abarrotado de ursos, bonecas e barbies, despertando inveja em algumas amiguinhas, meu pai sabia que eu tinha menos do que as outras crianças do meu círculo social. Eu estudei a vida toda em colégio de ricos, mas sabia que meu pai pagava as mensalidades com mercadorias que ele trazia para o colégio. Ele abastecia todas as festas juninas escolares. Todas as prendas de sorteios e outras brincadeiras era ele quem trazia. Era como se eu fosse filha do Willy Wonka dos brinquedos.
Por isso, eu nunca brinquei de pescaria, boca do palhaço ou algo do gênero. “O que, menina? Você quer pagar para ganhar essas trosqueirinhas que eu mesmo trago?”. Meu pai só me dava dinheiro para comer e me livrar da cadeia, porque seria chato eu não participar da quadrilha da minha própria turma.
Eu acompanhei meus amigos em tudo, embora sempre com algum pesar. Pesar no sentido de pesar no bolso do meu pai mesmo. Nas infindáveis viagens que o colégio promovia, eu participava de todas, mas meu pai comia um dobrado para pagar. A roupa nova que todo mundo tinha comprado para uma festa eu também tinha, mas eu ouvia um mês inteiro que a gente tinha gastado com aquilo. Quando eu passei no vestibular, meu pai chorou, mas eu não sabia se era por causa da minha conquista ou porque ele não sabia como ia sustentar uma filha fora, com o mais velho já na faculdade.
Mesmo assim, eu nunca deixei de receber suas surpresas.
Viajava todo mês para casa, sempre com uma mala de roupas para usar e outra com peças para lavar. Quando os trabalhos das faculdades apertaram, deixei de ir para casa e os lençóis foram se acumulando no cesto, porque a falta de tempo, o frio e a chuva não me permitiam lavar roupa. Ganhei uma máquina de lavar. No último ano de faculdade, ele ouviu dizer que eu ia precisar fazer TCC e me comprou um computador. Meu pai descobriu as maravilhas do microondas e deu um de presente para mim e outro para meu irmão. Um dia ele viu um monitor de 19 polegadas, achou aquilo lindo e fez eu trocar o meu.
Hoje ele levou a cabo mais um pedaço do plano de equipar minha casa. Ganhei uma geladeira, porque ele ouviu eu comentando com a minha mãe que precisava de uma. E para avisar do presente, o diálogo é quase sempre o mesmo.
- É verdade que você precisa de uma geladeira? –perguntou-me, ao telefone.
- É, pai, vou comprar sábado.
- Tem alguma preferência?
- Pai, eu que vou pagar, vou parcelar, estou guardando dinheiro já.
- Ih, já estou saindo para comprar.
- Pai...
- Já fui.

Em algum lugar, alguém deve ter escrito que não se pode (e não se deve!) recusar presentes de Papai Noel.

Comentários

Tiozaum disse…
ehehehe q bonitinho
Marcelo Higinio disse…
Já imaginou o esquema de logística para trazer uma geladeira da groenlândia até guarapuava por você? Definitivamente uma prova de amor :)
Não Enviadas disse…
Ai, tati.
Mais uma coisa em comum entre nós duas: os pais fodas.

Feliz natal!

CamilaRufine
Juliana Cruz disse…
hahahahaha

que demais. eu nao reclamaria tbm...agora vc pode usar o dinheiro da geladeira pra pagar os cursos! hehehehe
Invista seus dividendos no curso '' O maravilhoso mundo dos tijolos '' Onde você aprenderá o que é um baiano 6 furos, 8 furos, tijolinho de barro, bloco, elementos vazados e muito mais. Ministrado pelo grande mestre de obras Osvaldo Santinon (Vadão).
Ah, e seu pai é gente boa.
Michele Matos disse…
Adoro o seu pai!!
Adoro o Papai Noel!
Quero conhecer sua geladeira!
=)
bju tatiii!!
Um dia eu vou pra patubanco com vc!
-fer- disse…
oi tati, muito bom os posts, gostei!!
vou dar sempre uma passadinha por aqui!!!
:D
aaaai, Tati...
pai é pai, né... que gostoso!
imagine o papai noel, então?!
;)
ps. vai no encontro?
Lubi disse…
nhoi.
sou órfã de pai.
fico tão feliz sempre, quando vejo gentes dando valor pro seu próprio pai.
tão lindo esse post.

um beijo, querida.
Vanessa Porcino disse…
um dia eu estava chorando porque estava muito difícil a luta por um sonho específico e não ia conseguir emocional ou financeiramente sozinha, e havia grandes possibilidades de que todo o dinheiro investido fosse perdido, mas era meu sonho, então meu pai falou: "filha, construirei com você quantos castelos forem preciso". nunca me esqueci disso.
não, não se pode recusar.
beijo.
Deve ser legal para vc. Todo presente que ganha é de papai noel. E tem quem diga que ele não existe.
Marcela Paiva disse…
essa da guitarra rosa foi bem sem noção.
e eu nunca me recuperei do trauma de ter minha mobilete vendida, sem nem ser consultada.
Marina... disse…
Me identifiquei =]
Siguilita disse…
Eita pai Bão sô... é um Paipai Noel mesmo... bjus
Tarini disse…
Jah disse q amo seu pai?
Huruu temos uma geladeiraa!!

haha

Amo vc tbm Tati sedução!
Lucemary disse…
Gostei do post da Marina, traduz de forma simples o que senti: identificação. Perdi meu pai há pouco mais de um ano, e meu pai, apesar de não ser Papai Noel, era assim como o seu: SHUMP. E sinto uma puta falta dele. A identificação não foi só com os pais, não. Seu texto é fantástico. Gosto muito do seu jeito de contar histórias. Me tornei fã.
:)

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