Hermenegilda

Entre as muitas coisas que me acompanham desde que me entendo por gente, uma é Hermenegilda. Não sei ao certo por que ela surgiu, mas segundo a lenda familiar foi quando eu tinha uns dois anos. Minha mãe conta que eu ia participar de um concurso de Boneca Viva (uma espécie de competição de miss infantil) e minha madrinha resolveu me fazer uma pintinha na bochecha com lápis de olho. O local inflamou depois disso e nasceu uma ferida.
A tal me acompanha desde então e aparece periodicamente, em intervalos de seis meses, aproximadamente. Bem criança minha mãe achava que era mordida de aranha e mandou detetizar a casa. Só adolescente fui descobrir que se tratava de uma herpes. “Mas herpes na bochecha?”, todos me perguntam. Realmente, não deveria existir. Contudo ela está lá, coçando, despontando e inchando minha bochecha de tempos em tempos.
Um dia resolvi dar-lhe o nome de Hermenegilda, porque, como ela fazia parte de mim, deveria ter um nome. Hermenegilda gosta de viajar e quase sempre aparece nas minhas viagens de férias. Lembro que quando era pequena, minha família tentava achar uma lógica para seu aparecimento. “Acho que é o sol forte”, minha mãe arriscava. E lá ia a Tatiana para cima e para baixo lambuzada de protetor solar e com chapéu cata-ovo ridículo. Aí Hermenegilda surpreendia e vinha no inverno. “Deve ser falta de vitamina”, palpitava meu pai. E lá ia a Tatiana enfiando uma cápsula diária de vitamina C goela abaixo. Como Gilda gostava muito de mim, surgia sempre, desafiando qualquer lógica. Com o tempo, aprendi que ela vem quando a imunidade está baixa, quando não me alimento bem, estou muito cansada, ou quando me estresso demais. Ou seja, não demora muito e quando estou prestes a esquecê-la a coceira característica surge. Aí sinto uma leve ardência, a sensação de que vários bichinhos estão correndo por dentro da minha bochecha e Hermenegilda explode.
Quando ainda estudava no colégio, a herpes apareceu e minha mãe achou melhor eu ficar em casa. Mandou-me ir ao posto de saúde pegar um atestado. Na fila de espera, uma mulher que também aguardava me encarava longamente, até que tomou coragem e veio falar comigo. “Tadinha, você apanhou do seu marido?”. Eu devia estar meio inchada, mas o comentário acabou com minha autoestima. O médico me deu atestado de três dias, mas chutei o balde e faltei mais de uma semana.
Pessoas que têm doenças recorrentes costumam se identificar com outras que sofrem do mesmo mal. Ao invés de se saudarem em silêncio, elas compartilham receitas caseiras, remédios, soluções mirabolantes para disseminar o conhecimento popular e acabar com o que lhes aflige. Eu já fiz parte do clã da amigdalite, mas desse mal eu não sofro mais, depois da extração das amigdalas. Hoje divido com quem tem herpes minhas angústias:
- A sua coça?
- Coça.
- Você já tentou tomar remédio além de passar a pomada?
- Desse?
- É! Ei, você compra cartelas separadas?
- Não, só a caixinha.
-Já ouviu falar que peixe não é recomendado para quem tem herpes?
- Mentira?!
- Li em algum lugar.
Hermenegilda já significou para mim choro e vontade de morte. Hoje é apenas a sensação de que algo não vai bem e que preciso reavaliar certas coisas. Dormir mais, comer melhor, trabalhar menos, esse tipo de coisa. É apenas um ciclo, que em cinco dias - ou, na pior das hipóteses, sete – vai desaparecer, sem deixar vestígios. Quer dizer, sobra uma marca ou outra, principalmente por causa da minha ansiedade em tirar as casquinhas antes da hora. O fato é que Hermenegilda vai, mas volta.

17 comentários:

{ Neto } at: 15 de julho de 2009 18:55 disse...

é... tem coisas q viram parte da nossa vida msm =D

Klaus at: 15 de julho de 2009 19:17 disse...

Conversa de comadre: "menina, sempre que me dá febre acordo com esse troço na boca! E não adianta, o médico diz: quando começar a coçar, toma o remédio que sara! Sara uma ova! E como vou tomar se à noite não pode tomar o remédio - diz na bula!? Quando começa a coçar tá na hora de desmarcar todos os compromissos sociais! Beijar na boca passa a ser coisa do passado e namorar pelado, só se for com aquela máscara dos argentinos (ou do Michael Jack.. ei, já sei do que o Rei do Pop morreu... herpes dá muito em crianças)! Não tem jeito, vai arder, vai machucar, mas só o tempo faz a herpes vazar! Ah, e essa de comer peixe nunca ouvi, e não acredito, só sei que tomar água de bebedouro de colégio e cutucar cravo de canto de boca com a unha por cortar dá merda!" hahaha Me identifiquei com o texto!

{ Eduardo Machado Santinon } at: 15 de julho de 2009 21:20 disse...

Tô com uma protubêrancia na bunda que espero que seja passageira, por isso não a nomeei. Na esperança da anônima sumir o quanto antes.

{ .lucas guedes } at: 16 de julho de 2009 04:27 disse...

você tá louca? seu blog é o primeiro da lista, inclusive!

Anônimo at: 16 de julho de 2009 06:51 disse...

Seus textos estão cada vez melhores. Se eh que isso eh possivel! ;)

{ Michele Matos } at: 16 de julho de 2009 11:53 disse...

Huahauhauhauhauahuah
Ri muito, que dó de vc e do amigo ali com pretuberâncias na bunda...

Acho que a única doença que faz parte da minha vida é a alergia fora do normal, que deixa minha cara inchada...
Bju Tatica!

{ Professor Che } at: 16 de julho de 2009 15:49 disse...

Achei louca a maneira como vc transitou por esse assunto. Uma forma muito específica e ao mesmo tempo com um simbolismo que foge à razão. Estou até agora tentando entender algumas partes. Muito bom mesmo.
Bjs
Che

Maristela at: 16 de julho de 2009 17:22 disse...

Pena q eu não sofro desse mal, poderia te indicar vários remédios, tratamentos, dietas, exames precisos e os médico mais competentes para o seu caso!!!
Hahaahahaha!!!!

{ Xico } at: 16 de julho de 2009 20:45 disse...

É interessante. Quando inexoravelmente precisamos conviver com algo, mesmo que não seja algo bom, torna-se uma espécie de distintivo. Aposto que se um dia Hermenegilda deixasse de aparecer vc ia acabar sentindo falta.


Abraço

{ Professor Che } at: 17 de julho de 2009 06:48 disse...

Obrigado pela visita retribuída. Ah, e obrigado também pela descoberta que fiz do Blog das 30 pessoas. Algo extremamente agradável e reflexível. Sim, sou Professor no Lobo. Já estudou lá?
Abraços
Che

{ Não Enviadas } at: 17 de julho de 2009 14:07 disse...

Eu não tenho herpes, acho. Mas se eu tivesse iria escolher um nome bem bonito igual você fez. ^^

=*'s, tati

{ Paulinha Fernandes } at: 20 de julho de 2009 05:32 disse...

Ahm, Tati... até de herpes um texto teu fica bom... fala sério!
E Hermenegilda era o nome de uma candidata a vereadora da eleição aí de Gorpa no meu segundo ano de faculdade... era mais ou menos assim... "Meu nome é Hermenegilda (aquela voz doída e parada de gente idosa), tenho 82 anos e quero ser sua representante na Câmara..."
E ela nem ganhou...

{ Camila Belini } at: 20 de julho de 2009 18:31 disse...

Se isso te conforta, tenho sardas. Eu gosto, mas a publicidade da década de quarenta diz que é um defeito de pele :/

Beijo Tati

{ Graci Polak } at: 7 de agosto de 2009 10:37 disse...

To começando a pensar na possibilidade de minha pinta também ser uma da espécie da Hermegilda. Ela tem mudado de aspecto ultimamente. Será?

Acho que Genoveva é um bom nome para ela. Quem sabe...

Amei o texto, Tatislane!

Bjoo!

{ marina.nicoletti } at: 7 de agosto de 2009 15:42 disse...

Tive uma antes das férias e agora tô com outra, 5 vezes maior, no mesmo lugar, ah... e também parece uma picada de aranha, sua mãe não foi muito errada de achar! me aparece uma pelo menos de 2 em 2 meses.. sua Hermegenilda ainda se comporta só comparecendo de 6 em 6! Mas, prefiro acreditar que tudo é motivo, seja o frio, o sol, a imunidade baixa, e tantas outras crendisses... ou, eu vivo absurdarmente mal!

{ Ronan } at: 23 de setembro de 2011 09:58 disse...

Bom texto, é uma pena que eu não escuto os conselhos da minha namorada e menos ainda da minha mãe: "Use protetor solar menino!" Peguei três dias consecutivos de sol e resultado: estou no terceiro dia de herpes. Dessa vez é a maior e mais dolorida de todas, estourou na bochecha no lábio superior e no inferior. Estou em casa criando coragem para ir ao seminário de psicologia logo mais a noite. Considere este seu texto como um encorajador. É bom saber que não somos os únicos do mundo a ter os nervos da pela da boca completamente degradados ... enfim, não começarei a discursar o drama de ser mais um infectado, porém espero que um dia eu consiga evoluir o meu espírito até alcançar o estágio da aceitação.

{ Felipe® } at: 10 de janeiro de 2017 16:46 disse...

Eu também!

 

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