Sem digitais

Digamos que meu processo de habilitação no Detran se encontra na metade. Já comprovei a residência, já tirei a foto, já fiz o psicotécnico, aguentei 45 tortuosas horas de aulas teóricas (nas quais meu estado de espírito alternava entre a vontade de tomar cicuta e a ideia de quebrar o vidro e pular janela afora) e, finalmente, marquei meu teste teórico.
Como a primeira data disponível era uns 20 dias depois do fim das aulas e como no simulado eu fui, digamos assim, meio abaixo das expectativas, decidi dar uma revisada antes. Tá, eu estudei. Meu irmão diz que é feio dizer que estudou para a prova do Detran. Mas eu li a apostila e fiz até um resuminho, que li no ônibus, no caminho até a prova. (Papai ficaria orgulhoso).
Passei por cima das placas (passei o olhar em cima do conteúdo, não me joguei por cima das placas literalmente. Não quero ser reprovada antes de pegar o carro de aprendizagem!), porque confio na minha capacidade de percepção simbólica. Também passei reto a mecânica básica, porque eu nunca iria entender a diferença entre admissão, combustão e escape. E eu prefiro não saber minuciosamente como funciona a embreagem, porque sei que acharei complexo e na prática ia me dar um pânico de uma pane impedir a engrenagem de não funcionar diante do meu comando. De modo que existem coisas que devem apenas existir e exercer a respectiva função, sem maiores explicações.
Outra coisa que pulei foi a tabela de infrações, apenas dei uma olhada superficial nas gravíssimas, dicas da professora da autoescola, que costumava dizer que a prova era “moleza”. Como não ia decorar tudo, mentalizei apenas o que aconteceria com um condutor bêbado, porque calculei que essa seria uma típica questãozinha filhadumamãe que poderia me pegar.
Meu primeiro desafio não foi a prova, muito menos acertar os dois ônibus que eu deveria pegar para chegar ao destino. O surrealismo tatianístico começou na fila de entrada para o teste. Não sei o que o sistema de identificação de digitais tem contra mim, mas nunca dá certo. Apertei meu polegar umas 14 vezes, o indicador mais umas 11, o dedo médio umas 5. A tiazinha já havia perdido a paciência e decidiu dar prosseguimento à fila, mesmo parecendo transparecer que entre mim e uma golpista não havia diferenças. Na certa eu devia estar fazendo a prova no lugar de alguém, era o que seus olhos fuzilantes pareciam me dizer.
Dentro da sala, a responsável por aplicar o teste quebrou o silêncio estarrecedor dos candidatos com uma chamadinha. Opa, apenas 4 nomes. E o meu estava lá! Ao final, ela, que havia dito os nomes com um sorrisinho, fechou a cara e disse: essas pessoas devem comparecer ao balcão ao final do exame porque ficaram sem digitais. Pronto, a suspeita foi readubada.
Peguei a prova com a calma de um monge budista e depois do preenchimento das formalidades, comecei a ler. Primeira questão: “Conduzir um carro que emite gases em não conformidade com o que exige o Contran é uma infração que gera...”. Respirei. Segunda questão: “Um condutor que dirige transporte remunerado sem ser habilitado para isso é uma infração que acarreta...”. Pensei em como seria bom ter uma bombinha de asmáticos nesse momento. Terceira questão: “Transitar danificando vias e blá blá blá é caracterizado como uma infração cuja penalidade é...”. Pânico na torre. Calma, criatura, pensei. Vê uma que você sabe para alimentar sua autoconfiança.
A primeira questão cuja resposta eu tinha certeza, sem titubear, era mais ou menos a 12ª e perguntava o significado do sinal verde do semáforo. Em algumas eu não conseguia descartar nenhuma resposta, porque qualquer uma parecia ser uma verdade. O problema era saber qual era a verdade maior. Confesso, brinquei de minha mãe mandou algumas vezes. Tremi tanto que tive medo de preencher errado o gabarito, uma retardadice mental, depois que a responsável por aplicar a prova explicou que tem que colocar “a letrinha bem grafadinha dentro do quadradinho sem forçar a canetinha e sem sobrar perninha”. Pedagoga, não precisava nem perguntar para saber.
Terminei a prova nos 50 minutos máximos para o feito e me dirigi ao balcão. Encontrei um colega de aulas teóricas que também não tinha digitais. Ele, inteligente, dava para notar pelas aulas, achou a prova difícil e foi logo querendo conferir de cabeça se nossas respostas batiam. “Ah”, disse ele. “Aquela da placa era fácil. Curva acentuada à direita, né? Mole.” Faltou-me o ar. Todas as minhas respostas das placas tinha certeza que estavam corretas e nenhuma era parecida com sinal de curva. Antes de me entregar ao infarto, concluímos que as provas eram diferentes.
No balcão, meu dedo passou no fim, bem no fim, das contas e eu fui pegar o ônibus. O terceiro cara sem digitais me seguiu e me abordou no ponto. “É a primeira vez que você faz o teste?”. “Sim”, respondi eu, simpática. “Poxa, essa já é a quarta vez que eu venho fazer”. Acho que ele notou que me escorreu uma lágrima diante da sua revelação.
Nas longas 24h depois do teste até o resultado quase coloquei um ovo de preocupação. Angústia que se resolveu com um simples telefonema:
- Oi, você pode me passar o resultado do teste teórico de ontem por telefone?
- Nome?
- Tatiana.
- C.L.? Passou.
- (AAAAAAAHHH, GAROTA. ARRÁ URRÚ) obrigada. (quantas será???????)
- Acertou 25 tá?
- (malditas infrações). Ah, ok.
- Viu. Espere oito dias e aí venha marcar as aulas práticas.

Em breve, cenas do próximo capítulo.

9 comentários:

{ Michele Matos } at: 21 de julho de 2009 21:43 disse...

Nossa, e pensar que meu medo era apenas conduzir um veículo. Eu nunca fiz Vestibular, não sei escolher alternativas, não vou fazer.
Parabéns Tati, se passou por essa, vai passar na prática.
Amém irmãos?
Amém.

{ Neto } at: 22 de julho de 2009 06:33 disse...

ahsuhsuahusa, eh massa essa fasinha de tirar carta
hehehe
mtas historias seeempree
bons estudos ai, se consegue hein, se eu tireiii
ashushuahsa

{ Juliana Cruz } at: 22 de julho de 2009 14:27 disse...

trabalhei no Detran aqui de SP. Menina....ta indo rápido a sua novela, viu? Bem posso dizer. hahahaha

{ Não Enviadas } at: 22 de julho de 2009 16:06 disse...

Tatiii!!
Vai dar tudo certo... Na hora do teste de rua, só cuidado não tentar dar partida com o carro engatado na terceira marcha.

;)

Beijo

{ Klaus } at: 22 de julho de 2009 20:33 disse...

Meeeeu Tati! Só imagino quando vierem as aulas práticas! Sabe a lágrima que rolou com o terceiro cara sem.. pfffff (riso reprimido) digitais? Eu soltei várias lágrimas por ele, mas não era por complacência! Muuuito divertido! Acho que foi a última vez que usará o seu polegar pra fazer a carteira... mas espero que eu esteja errado!hahaha
Boa sorte no restante do processo e cuidado, é bom saber o que acontece se dirigir danificando vias e blá-blá-blá!hahaha

{ Geraldo } at: 25 de julho de 2009 11:28 disse...

Passei por aqui e ri de rolar! E como rir é o melhor remédio, leia seu texto toda vez q Hermenegilda começar a coçar...quem sabe ela some! Grande abraço! GL

{ Siguilita } at: 27 de julho de 2009 08:26 disse...

bah..eu nao sei nem dirigir...

{ Graci Polak } at: 7 de agosto de 2009 10:34 disse...

Acho que mais histórias virão, principalmente depois que a tal da carteira estiver em suas mãos, porque, como diz meu pai: "Carteira vc já tem. Agora só falta aprender a dirigir". Acontece.

Boa sorte, boa sorte. Talvez seja necessário, rsrs.

Bjooo!

{ va_nessals } at: 10 de setembro de 2009 14:45 disse...

Mee, me matei rindo!
Hahahhahaa.

 

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