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O porquê

A gente vive querendo mudar de emprego
Muda. Aí acha triste não ter um amor
E quando tem, arruma mais motivo para ser descontente

A gente vive sem dinheiro, mesmo quando ganha aumento
Se atola em dívidas e quer mais
E nem se lembra de quando vivia com pouco

A gente vê um velho amigo na rua
Ele passa e nem te acena a mão
E você diz para si mesmo que ele deve ter se distraído

A gente entra numa loja mais chique que de costume
Olha a cara de desdém da vendedora
E ainda se arrepende de ter entrado

A gente quer emagrecer para conquistar alguém
Fica brava quando o ponteiro não abaixa
E acha que é isso o que importa

A gente toma antibiótico por qualquer coisa
O corpo fica resistente
E decide ir na farmácia comprar um mais forte

A gente trabalha mais do que deveria
E bem mais pelo que ganha
E no fim acha que está devendo favor

A gente vive o inverno todo resfriado
Come mal e dorme pouco
E pensa que assim está aproveitando a vida

A gente ouve as perguntas das crianças
E responde qualquer bobagem, porque estamos ocupados
E nem sabe que, para elas, isso importa

A gente ganha folga
E o tempo escapa antes que você resolva tudo
E lembra de repente do poema
Porque rápido e rápido são seis horas, sexta-feira e o Natal

Eu ainda quero entender o porquê disso tudo.

* O poema a que me refiro é o do Quintana, “Seiscentos e sessenta e seis”.
* Qualquer semelhança com Marina Colasanti e o seu “A gente se acostuma” não é mera coincidência.

Comentários

P. disse…
Eu te encontrei hoje e não acenei. Ainda bem.
Te dei um abraço forte, de saudade e cumplicidade.
:D
Também não sei o porquê de quase nada. E sempre tenho dúvidas na hora de usar os porquês.
Michele Matos disse…
O poema da marina Colasanti mexia comigo, era como um tapa na cara, mas esse aqui mexe mais, tem mais detalhes da minha realidade, dessa realidade que nunca é o bastante.
Diangela disse…
Ah, depois disso fico mais (in)tranquila (?) Ora, isso tudo não é só com a gente :S
Tô com saudade, loca véia. Cascavel ainda tá de pé?? ;**
Klaus disse…
Que escuridão! Por que tantos porquês? Ora, por quê? Porque não há porquê que responda tantos porquês em uma só interrogação!

Putz, 20 minutos pra escrever isso e ainda deve estar errado!
.lucas guedes disse…
a gente quer tanto...
Elinha disse…
Puxa, mexeu realmente comigo!
simplesmente lindo!
xero.
Camila Rufine disse…
Se só as dúvidas suas renderem textos tão bons quanto esse, espero egoistamente que você não tenha mais certezas. ;)

Bjo, Tati!
Maristela disse…
Posso colocar no meu perfil do orkut?
É porque nesse sistema escroto o homem é meio ao invés de ser fim Tati.
Neto disse…
mto bomm.... a gente qr entender, mas não para para tentar fazê-lo

eu faco mto disso ai também
ser humano é ser meio bobo com o verdadeiro sentido d tudo
certeza q os animais aproveitam a vida sem ser tao racionais, pensando em tudo :P
Regina disse…
Tati, fiquei preocupada. Será que fui eu q nao acenei?? Acho que não, né, no meu caso vc sabe que eu não vejo mesmo!Mto bom!
"Quando se vê, já é sexta-feira".
Lindos, Quintana e você para nunca esquecermos porque estamos aqui.
Emerson Souza disse…
O texto traz muitas verdades. Mas verdade só serve como meta, como mapa, pq quando entra no âmbito real, no plano concreto incomoda, fica desconfortal e, por conseguinte, vira literatura.
Adorei, Tati!
Eu só conheço um conto da Marina Colasanti, mas vou procurar esse!
saudadeee!

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