O porquê

A gente vive querendo mudar de emprego
Muda. Aí acha triste não ter um amor
E quando tem, arruma mais motivo para ser descontente

A gente vive sem dinheiro, mesmo quando ganha aumento
Se atola em dívidas e quer mais
E nem se lembra de quando vivia com pouco

A gente vê um velho amigo na rua
Ele passa e nem te acena a mão
E você diz para si mesmo que ele deve ter se distraído

A gente entra numa loja mais chique que de costume
Olha a cara de desdém da vendedora
E ainda se arrepende de ter entrado

A gente quer emagrecer para conquistar alguém
Fica brava quando o ponteiro não abaixa
E acha que é isso o que importa

A gente toma antibiótico por qualquer coisa
O corpo fica resistente
E decide ir na farmácia comprar um mais forte

A gente trabalha mais do que deveria
E bem mais pelo que ganha
E no fim acha que está devendo favor

A gente vive o inverno todo resfriado
Come mal e dorme pouco
E pensa que assim está aproveitando a vida

A gente ouve as perguntas das crianças
E responde qualquer bobagem, porque estamos ocupados
E nem sabe que, para elas, isso importa

A gente ganha folga
E o tempo escapa antes que você resolva tudo
E lembra de repente do poema
Porque rápido e rápido são seis horas, sexta-feira e o Natal

Eu ainda quero entender o porquê disso tudo.

* O poema a que me refiro é o do Quintana, “Seiscentos e sessenta e seis”.
* Qualquer semelhança com Marina Colasanti e o seu “A gente se acostuma” não é mera coincidência.

14 comentários:

{ P. } at: 19 de agosto de 2009 07:57 disse...

Eu te encontrei hoje e não acenei. Ainda bem.
Te dei um abraço forte, de saudade e cumplicidade.
:D
Também não sei o porquê de quase nada. E sempre tenho dúvidas na hora de usar os porquês.

{ Michele Matos } at: 19 de agosto de 2009 08:45 disse...

O poema da marina Colasanti mexia comigo, era como um tapa na cara, mas esse aqui mexe mais, tem mais detalhes da minha realidade, dessa realidade que nunca é o bastante.

{ Diangela } at: 19 de agosto de 2009 09:35 disse...

Ah, depois disso fico mais (in)tranquila (?) Ora, isso tudo não é só com a gente :S
Tô com saudade, loca véia. Cascavel ainda tá de pé?? ;**

{ Klaus } at: 19 de agosto de 2009 14:26 disse...

Que escuridão! Por que tantos porquês? Ora, por quê? Porque não há porquê que responda tantos porquês em uma só interrogação!

Putz, 20 minutos pra escrever isso e ainda deve estar errado!

{ .lucas guedes } at: 19 de agosto de 2009 16:24 disse...

a gente quer tanto...

{ Elinha } at: 19 de agosto de 2009 16:25 disse...

Puxa, mexeu realmente comigo!
simplesmente lindo!
xero.

{ Camila Rufine } at: 19 de agosto de 2009 18:01 disse...

Se só as dúvidas suas renderem textos tão bons quanto esse, espero egoistamente que você não tenha mais certezas. ;)

Bjo, Tati!

Maristela at: 19 de agosto de 2009 18:08 disse...

Posso colocar no meu perfil do orkut?

{ Eduardo Machado Santinon } at: 19 de agosto de 2009 20:19 disse...

É porque nesse sistema escroto o homem é meio ao invés de ser fim Tati.

{ Neto } at: 20 de agosto de 2009 10:47 disse...

mto bomm.... a gente qr entender, mas não para para tentar fazê-lo

eu faco mto disso ai também
ser humano é ser meio bobo com o verdadeiro sentido d tudo
certeza q os animais aproveitam a vida sem ser tao racionais, pensando em tudo :P

{ Regina } at: 21 de agosto de 2009 06:11 disse...

Tati, fiquei preocupada. Será que fui eu q nao acenei?? Acho que não, né, no meu caso vc sabe que eu não vejo mesmo!Mto bom!

{ Michelle Lima Simões } at: 21 de agosto de 2009 12:14 disse...

"Quando se vê, já é sexta-feira".
Lindos, Quintana e você para nunca esquecermos porque estamos aqui.

{ Emerson Souza } at: 21 de agosto de 2009 15:24 disse...

O texto traz muitas verdades. Mas verdade só serve como meta, como mapa, pq quando entra no âmbito real, no plano concreto incomoda, fica desconfortal e, por conseguinte, vira literatura.

{ Paulinha Fernandes } at: 25 de agosto de 2009 09:51 disse...

Adorei, Tati!
Eu só conheço um conto da Marina Colasanti, mas vou procurar esse!
saudadeee!

 

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