Dôdo

Ele me aconselhou a prestar muita, muita atenção, desde a 8ª série, às aulas de Química e Física. “Senão, mais tarde, você vai se ferrar”. Ouvi, mas nunca obedeci. Outro conselho foi nunca ficar com ninguém na sala da faculdade. “Senão, depois, você vai ter que ficar olhando o cara por 4 anos”. Ouvi, mas, foi mais forte. Dito e feito. Tive de aguentar. Na minha adolescência, simulando um episódio de preocupação com minha honra, ele me aconselhou a jamais entrar sozinha em um carro com um cara. “Entrou no carro, tá fudida”. Eu devo ter entrado em muitos carros na vida, mas consegui sobreviver.
Meu irmão é cinco anos mais velho que eu e, desde sempre, joga na minha cara que eu cheguei para ameaçar seu reinado. Entretanto, o título de líder sempre foi dele. E o de esperto. Eu passei no vestibular da universidade pública, mas quem morava na praia e curtia “sol até à noite”, como dizia umas das suas mensagens, era ele. Para mim sobrou o frio e a máquina de lavar roupa, presente que ele nunca engoliu não ter ganhado igual.
Não posso, jamais, vangloriar-me de ter sido uma boa irmã. Infernizei-o, desde as apostilas riscadas quando teimei em aprender a escrever, passando pelos constantes ataques de choro, pelas brincadeiras sempre estragadas, até as palavras ríspidas. A única coisa que não admito foi ter derrubado no chão o celular novo que ele ganhou no natal, acusação que me rendeu mais de um mês de desprezo por parte dele.
Mas há o que lembrar de bom. Jamais vou esquecer de como “trabalhávamos” na sorveteria que o meu pai tinha, que eu considero hoje muito mais um presente para os filhos do que propriamente uma fonte de renda. Tomei tanto suco Dellis aquela época (vinham em latas de cinco litros) que até hoje enjoo ao sentir cheiro de suco de uva. Quando era pequena, planejávamos ficar acordados até o sol nascer, porque um primo meu disse que, a certa altura da noite, as estrelas se juntavam, formando um cavaleiro montado em uma cobra. Todas as noites dormíamos antes, de modo que nunca encontramos o cavaleiro celeste. Mas na tentativa de ficarmos de pé, assistíamos muitos filmes, os quais eu sempre procurei deixar arraigados na minha memória, mas com o tempo ela foi falhando. Porém, impressionou-me que, há pouco tempo, eu comentei com meu irmão sobre as histórias transmitidas nas madrugadas e ele também lembrava.
Eu achava o máximo, aos sete anos, ter um canal de comunicação com meu irmão, uma gambiarra com walk-talkies que ele inventou, enchendo de fios o espaço entre as janelas dos nossos quartos. Toda noite, antes de dormir, na mesma casa, conversávamos e era sagrado eu dar boa noite a ele antes de pegar no sono. Um dia eu falei uma besteira na frente das visitas e, com raiva de mim, ele destruiu tudo.
Se me perguntarem qual foi o momento em que mais me senti próxima do meu irmão, direi que foi há uns quatro anos, férias de julho, quando fui visitá-lo. Voltávamos de um bar e, trôpegos, quase dançávamos na rua. Ele me abraçou, seguimos andando e meu irmão me confessou que gostava da menina com quem tínhamos acabado de beber. Perguntou o que eu achava dela. E, desde então, sempre pediu minha opinião sobre garotas. A dele eu não peço, porque nunca é séria. Quase sempre, ao lhe falar de alguém, vem a reprimenda: “não tá dando pra ele não, né?”.
Meu irmão sempre foi assim. Um babaca. Capaz de me arrancar gargalhadas com coisas ridículas e de me fazer arder de raiva por causa de rusguinhas igualmente ridículas. A infância passou, passsou a adolescência, chegamos à fase adulta e tenho a impressão que nossas brigas continuarão sendo de eternas crianças.
Se você leu até aqui, gostaria de pedir desculpas pelas vezes que te fiz acreditar que nunca seríamos amigos. Cada vez mais acredito que o que se vive na infância perdura para sempre. Então, quero o walk-talkie, os filmes de Spielberg, os sucos de uva, o abraço depois do bar. Quero o melhor de nós.

Quero que você seja feliz.

16 comentários:

{ Eduardo Machado Santinon } at: 17 de setembro de 2009 21:20 disse...

Puta que pariu que lindo!

{ Neto } at: 18 de setembro de 2009 04:46 disse...

caraca, lindo mesmo hein, noss...
queria que minha relação com meu irmão fosse um poco como tudo isso...

{ Lubi } at: 18 de setembro de 2009 05:36 disse...

me encheu de emoção.

{ Tiozaum } at: 18 de setembro de 2009 05:51 disse...

O que mais eu posso dizer?
Lindo, profundo e tocante como sempre!
Parabéns Tati... esse foi demais :)

{ Juliana Cruz } at: 18 de setembro de 2009 08:30 disse...

hahaha que foto fofa!

{ João } at: 18 de setembro de 2009 20:26 disse...

A foto é a típica imagem para:
"Quem chegar por último é mulher do padre!"
rsrsrs
E vejam que está na face do típico exemplar de irmão mais velho (eu já fui um!). Para o desespero da pobre irmã, se desequilibrando pra alcançar!
Belas lembranças. Guardem bem, pois sentimento de irmão marca a vida para sempre!

{ Contos de Fada? } at: 18 de setembro de 2009 22:14 disse...

E aí, o doido, mais doido ainda, depois de colocar um texto muito doido, foi conferir e achou este texto muito lindo aqui... Adorei! Beijos!

{ Mauricio Toczek } at: 19 de setembro de 2009 19:12 disse...

Muito legal mesmo. Meu irmão está quase padre, e eu meio que quis ser ateu. Imagine só no que dava. Hoje sou quase tão religioso quanto ele.

A única coisa em comum em todos os irmãos é a saudade das brigas de infância.

{ Klaus } at: 19 de setembro de 2009 22:58 disse...

Ah, nada melhor que ser irmão mais velho! Atipicamente, maninha e eu brigamos poquíssimas vezes, sempre nos demos bem! E acho que a explicação está no que recomendo a todos os caçulas: sempre ouçam o que diz o mais velho, especialmente quando ele mandar (a frase "ah, vai você" deve ser banida do linguajar "caçulista")!hahaha Belíssimo texto, de emocionar e para refletir!

{ Michele Matos } at: 22 de setembro de 2009 12:15 disse...

Entrou um cisco no meu olho.

Anônimo at: 24 de setembro de 2009 18:26 disse...

O negócio é que, mesmo irritantes, nossos irmão sempre serão quem ficarão do nosso lado, quando o mundo todo não está.


E essa foto ai é na pracinha da Santa Cruz? E ali no fundo é a Unicentro?

{ Tatiana Lazzarotto } at: 25 de setembro de 2009 14:35 disse...

Oi, anônimo!
Obrigada pelo comentário, concordo contigo. Não, essa foto é em São Lourenço (SC), minha cidade natal.

{ Veronika } at: 27 de setembro de 2009 18:38 disse...

Amei o texto monguinha :D
não sabia da maioria dessas histórias do rodolfo!
Prepare-se neh daqui uns dias vão ter que me levar para beber também :)
Amo vocês ♥

{ paulete miletta. } at: 5 de outubro de 2009 16:51 disse...

chorei.

{ va_nessals } at: 15 de outubro de 2009 15:46 disse...

Fala sério, o Rodolfo se matou de tanto chorar depois de ler isso, né?
Muito lindo!

{ Guta } at: 18 de setembro de 2012 03:11 disse...

E incrivel a forma como você escreve. Você transmite os sentimentos em cada palavra. Faz com que sentimos raiva, medo, tristeza, amor, felicidade...nos sentimos dentro da historia. Parabens sou sua fã ja. :-)

 

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