Luto

Em quatro teclas, a palavra se configura na tela. E externa a palavra com uma letra a mais, a que costuma deixar tudo sem explicação. Acredito que luto tenha esse nome porque é palavra homônima do verbo lutar conjugado na primeira pessoa do singular. Eu luto. Porque enfrentar um luto é batalhar para aceitar, embora sua vontade seja não acreditar e escapar do que seus olhos lhe apresentam.
Eu sei que epistemologicamente luto não vem daí. Mas para mim faz sentido. Porque luto é singular. Quem está de luto, e luta, recebe o abraço, o apoio, a palavra amiga de gente disposta a mostrar que está ali. Mas o luto é só dele. Só ele poderá vivê-lo. Só ele é capaz de sentir completamente a dor que os milhares de cumprimentos desejam dividir. Dividir para distribuir o peso, para que se saiba que quem fica possui gente ao seu redor, disposta a ajudar a seguir em frente.
Mas a presença, a simples presença do outro, para quem luta no singular, conforta. Um abraço, um leve afago, um silêncio pronto a ouvir, um olhar para consolar. Estive disposta a tudo isso. Mas não é fácil presenciar a cena mais triste da sua vida e continuar com o propósito da fortaleza. Você desmorona, mas de preferência baixinho, para que ninguém veja. Porque é preciso. É necessário você ali.
Tentar viver o que sente alguém que sofre a morte do ente é atitude em vão. Porque você, você é o ser que fica. O que faz parte do mundo que fica. E segue, paralelamente, mas em vias muito próximas. E embora as palavras que você pensa em dizer escapem, embora tudo a ser dito pareça ser óbvio, você sabe do porquê de se estar ali.
A gente vê pessoas jovens morrendo sem sentido em todos os canais. A gente lê, fica horrorizado. Mas não imagina a dimensão quando se está lado a lado. A história dramática está passando diante de mim como um filme triste, tenso e com um final não definitivo, mas que se desenrola dia a dia, desolador.
O novelo da saudade e da dor que chega em diversas proporções não vão terminar. A lembrança fica. E fica mais. Mais de quem se foi permanece. Seja a vontade de conhecer o mar, o mundo, as letras. E o amor. Pouco tempo só, raros encontros, uma empatia espontânea. Tudo isso foi o suficiente. Para rasgar de tristeza. Para ensinar. Para deixar a dor melancólica, a dor por quem não vai voltar.

12 comentários:

{ Michele Matos } at: 1 de setembro de 2009 21:04 disse...

Nem sei o que dizer. Que o texto me deixou triste, que desejo que Deus dê forças à família e que essa música ganhou um novo sentido para mim.

{ Olavo } at: 2 de setembro de 2009 04:40 disse...

È um texto triste mas revelador..
Eu me sinto de luto ainda pela perda do meu filho a 2 meses somente..recebi milhares de conforto..mas essa dor só aumenta a saudade aumenta...quem disse um dia que td ameniza não viveu esta dor...pq para mim ela piora a cada dia que penso em meu pequeno ...a cada segundo
Beijos

{ Neto } at: 2 de setembro de 2009 04:50 disse...

essa música é perfeita e combina, agente não pode deixar quem se foi morrer dentro da gente =/
triste

{ Carol } at: 2 de setembro de 2009 08:52 disse...

Há algum tempo eu não sabia o que era isso e nos últimos 5 anos, passei por esta situação várias vezes. E cada dor, por cada pessoa é singular. Nestes momentos, a gente sofre também por não estar perto, por poder mandar apenas palavras, mesmo sabendo que elas não são capazes de amenizar.
O difícil é conviver com a saudade, com a sensação de que não é verdade, de que a pessoa saiu de viagem e vai voltar.
Só posso mandar um abraço e a amizade num momento tão difícil.

{ Camila Rufine } at: 2 de setembro de 2009 10:29 disse...

Eu já passei por isso e sei do que está falando. Difícil se acostumar com a ausência.

Força.

=*

{ Finito Carneiro } at: 2 de setembro de 2009 16:23 disse...

Nossa, Tati... intenso.

{ Diangela } at: 2 de setembro de 2009 18:24 disse...

:*

{ João } at: 2 de setembro de 2009 19:25 disse...

Não tenho o que comentar, amor.
Somente agradecer pelo apoio e a tradução em palavras desse sentimento tão intenso que eu e minha família estamos vivendo agora. Você presenciou e ainda presencia a dor. E sobrarão saudades...
Acabei de ler o texto em voz alta na casa da minha tia, Doda, que só pode te conhecer por fotos, pois não estava na despedida, também ao lado dela, da minha mãe e da minha prima, Gabriela.
Lindo, intenso e profundo.
Obrigado pelo apoio!
Te amo!

{ Camila } at: 2 de setembro de 2009 20:50 disse...

Realmente...tudo o que estamos vivendo nesse momento.... a dor... e a saudade que a cada momento que passa só aumenta...
Obrigado pelo apoio!
Beijos!

{ Veronika } at: 3 de setembro de 2009 18:18 disse...

nossa tati, profundo mesmo
:~

{ Juliana Cruz } at: 9 de setembro de 2009 14:35 disse...

...

[nunca sei o que dizer, mas quero que saiba que me manifestei]

{ va_nessals } at: 10 de setembro de 2009 14:33 disse...

Nossa, Tati, muito bom. Expressou muito bem o sentimento do luto... Mas lendo fiquei com medo sobre quem vc tava escrevendo, pq nao tava sabendo de nada...
Amo vc.
Vanessa.

 

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