My heroes

Ao telefone

Pai: Parabéééééns, minha filha!

Eu: Pelo quê?

Pai: Pelo dia do jornalista!

Eu: Ihh, pai, foi em abril!

Pai: [silêncio] Ah, eu inventei isso só para te ligar. E aí, como vão as coisas?


Chegando de viagem

Eu: Oi, mãe!!!!

Mãe: Oi, menina

Eu: Nossa, nem parece que faz três meses que a gente não se vê! Não está com saudade?

Mãe: Pois, é. Eu senti falta de um pintinho mesmo.

Eu: [...]

Mãe: Mas eu ouvi a Xuxa dizendo que ele estava na montanha. Sabia que ele ia voltar. [risos]

Pai: É patinho.

Mãe: Que seja.



Voltar a minha casa faz bem. É a casa dos meus pais, mas minha também. E nem é pelo peixe com leite de coco que minha mãe faz. Divino. E não só pelo arroz que eu nunca consigo fazer igual. Não é pelo meu pai esperando o momento certo de me pedir para corrigir “umas coisinhas”. Nem para matar a saudade da minha irmã, que até esses dias era uma menininha e agora passa esmalte nas minhas unhas e insiste para eu ensiná-la a se maquiar.

Para viajar, desafio até meu sono de pedra e decido encarar o ônibus que sai mais cedo. Mesmo com as cervejas da noite anterior, que me fazem chegar tarde e arrumar a mala mais sem lógica, trazendo coisas que nem sei como foram parar lá dentro. Não importa, aqui estou. Em casa.

Um dia antes recebi a mensagem: “amanhã quer que eu te acorde para não perder a hora papai”. Assim mesmo, sem ponto. A gente se entende. Disse que sim, mesmo sem saber se ele leria. Não podia perder esse ônibus, não dessa vez. No final das contas, tive quatro criaturas para me tirar da cama. Do outro lado da linha, gente que queria que eu não me atrasasse, mesmo que fatos anteriores mostrassem ser isso a lógica natural das coisas.

Mas consegui. Cinco minutos antes, lembrei de pegar um jornal no qual publiquei a foto da minha irmã. Precisava carregá-lo para que ela o guardasse. Carreguei-o na mão e viajei com ele no colo dentro do ônibus.

Com a cabeça na lua, esqueci o dito cujo. Lembrei da bolsa, ao menos. E fui me lembrar do jornal esquecido só tempos mais tarde, quando já estava no carro com meu pai, em direção a nossa casa. Voltamos. Nem insisti, ele que sugeriu. Parecia entender que aquilo era importante. Mesmo meneando a cabeça, na certa pensando: essa menina ainda vai perder os filhos pela rua. Nada do ônibus. Fomos à garagem. “O que você esqueceu, moça?”. Não tive coragem de dizer que era só um jornal do mês passado. “Uma pasta de documentos”. Mas o ônibus já estava sendo lavado, em um posto do outro lado da cidade.

Meu pai nem cogitou desistir da ideia. Tomamos rumo. Cheguei lá, ainda deu tempo. Recuperei as páginas amassadas e rasgadas, mas a que mais importava ainda estava lá. Inteira.

Chegamos em casa só mais tarde e nem quis sair debaixo da asa deles. Também nem precisei abrir a mala, aquela sem nada realmente necessário. Aqui, na minha casa, tem tudo o que eu preciso. A paciência da minha mãe, suas histórias divertidas de trocas de palavras e sua comida de lamber os beiços. A inquietude da minha irmã, sua ânsia de querer me falar tudo de uma só vez e o orgulho que eu me vejo sentindo por ela. Meu pai, as respostas certas para tudo o que eu pergunto e a vontade de me fazer lutar, pelo que quer que seja.

Minha irmã não consegue tirar direito o excesso de esmalte das minhas unhas. Minha mãe só gosta de filme dublado. Meu pai é mais cabeça dura que eu, e insiste em viajar de ônibus, mesmo que de carro seja mais rápido e barato. Mas eles são capazes de salvar meu final de semana. E de ser o que eu mais preciso nesse momento.

11 comentários:

{ Neto } at: 12 de setembro de 2009 22:40 disse...

nossa casa é mesmo muito bem neh, pai, mae, irmao...
eu ainda tenho os amigos de infancia
meus melhores
porto seguro msm
adoro voltar pra la

{ Cleyton Cabral } at: 12 de setembro de 2009 22:42 disse...

Q lindo!!!!!!!!!!

{ Klaus } at: 13 de setembro de 2009 01:05 disse...

"As cervejas da noite anterior, que me fazem chegar tarde e arrumar a mala mais sem lógica, trazendo coisas que nem sei como foram parar lá dentro."hahahahahahaha... Ao menos acordou, recuperou o jornal e chegou pontualmente! Vislumbro evoluções, senhorita Tatiana "Esqueci a Metade" Lazaroto (um Z ficou em Guarapuava e um T, no ônibus)! ;P

{ Eduardo Machado Santinon } at: 13 de setembro de 2009 01:12 disse...

''Estou guardando
O que há de bom em mim
Para lhe dar
Quando você chegar
Toda ternura
E todo meu amor
Estou guardando
para lhe dar...''

Robertão em a volta.
Se o rei fala por nós, quem será contra nós ?

{ Veronika } at: 13 de setembro de 2009 10:20 disse...

Eu consigo tira o excesso de esmalte das unhas tá?
Muito bom tati, adorei :D

{ Camila Rufine } at: 14 de setembro de 2009 08:42 disse...

Tenho medo, pânico, só de pensar a falta que vou sentir dos meus velhos (e até mesmo do meu irmão) nesse ano que estarei longe.

Minha mãe sempre dizia, quando eu ficava muito tempo sem vir pra casa, que era bom eu vir, para recarregar as energias. E é bem assim que eu me sentia quando passava os finais de semana aqui. É assim que me sinto, agora que preciso ir.

Adorei o texto, Tati!

{ Scheyla Joanne Horst } at: 14 de setembro de 2009 10:13 disse...

Que singelo :)
A minha mãe também não sabe colocar pontuação em mensagem de texto.

{ Michele Matos } at: 14 de setembro de 2009 10:23 disse...

Apesar da distância fazer um bem danado para a relação Michele X Mãe, eu sinto falta e não vejo a hora que chegue fevereiro.
=)
Ótimo Tatica. Sempre ótimo.

{ Juliana Cruz } at: 15 de setembro de 2009 14:24 disse...

preciso tbm, mas nao tenho quem acolha. rs

{ Renata Caleffi } at: 15 de setembro de 2009 15:07 disse...

é mal de lourencianos? hehehe
que saudadezinha que deu de lá depois disso.. hehehe

{ Xico } at: 16 de setembro de 2009 22:35 disse...

Passei por essa época! O triste é quando chega o momento de você ter saudade de um lugar pra onde não pode mais voltar: o passado!

Abraço

 

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