Palhaçada

- Tatiana, lembra do Beto?
- Que Beto?
- Aquele que te acertava com machado inflável na minha festinha de 3 anos!

Lembrei na hora. Tudo o mais se tornou irrelevante perto da massacrante lembrança daquela tarde. Inclusive o que minha irmã queria falar sobre o tal Beto, que hoje deve estar gigante. Eles se reencontraram num show esses dias, 12 anos depois do episódio do machado. “Legal”, comentei. “Nossa, tinha uma multidão e a gente se encontrou!”. “Hmm, legal”.
Para comemorar os três anos da caçula, minha mãe retomou sua veia de promotora de eventos perdida depois da minha última grande festa, de 7 anos. Com 8 a caçula nasceu, as vacas emagreceram e fazer festa ficou mais difícil. Entretanto, houve uma sobra e deu para organizar uma festinha em sala de aula para celebrar o terceiro ano da minha irmã. O que era para ser simples, um bolinho com refrigerante, tornou-se um megalomaníaco evento. Com direito a vestido vermelho de veludo para a aniversariante, distribuição de brinquedos infláveis para os convidados, decoração montada com papel crepom, isopor... e um palhaço. Sim, era imprescindível ter um palhaço, para alegrar (?) a festa.

- Mãe, eu não vou.
- Tatiana, por favor. Você coloca a roupa, fica um pouquinho e depois se veste normal. Só para ficar mais divertido.

Ela, como sempre, me convenceu. Diz meu pai que numa festa do meu irmão sobrou para ele ser o palhaço. Como ele não pôde comparecer à festa de 3 anos da caçula, eu não podia alegar que ele tinha mais experiência e deveria encarnar o papel. Meu irmão arrumou uma desculpa para não ir porque imaginou que iria sobrar para ele.
Lembro-me que a parte mais divertida foi se arumar. As professoras se mobilizaram, vieram com maquiagem, prenderam meu cabelo, deram dicas. Prontinha estava eu em sala de aula quando trouxeram a tropinha de pestes.
O primeiro que entrou me viu, começou a chorar copiosamente, agarrou-se na professora e assim permaneceu até o final da festa. E não pensem vocês que era um chorinho. Era um choro de pânico, o mesmo pânico da minha cara olhando para minha mãe. “O que eu faço, mãe?” “Fica longe dele”.
Os outros agiram normalmente. Ou seja, nem deram bola para a palhacinha que tentava, em vão, chamar-lhes a atenção. A professora ajudava e estimulava brincadeiras. Galinha que põe, cabra cega, roda cotia e o que mais a imaginação lhe ajudava a inventar. O garotinho chorão continuava afastado dos demais.
Uma hora as brincadeiras se esgotaram e Beto, o infernal (foi esse o apelido que lhe dei) teve a ideia de malhar o palhaço. Durante as rodas eu já tinha notado que ele me olhava de soslaio, com um risinho maroto. Mas achei que era a maquiagem. Não. Beto começou a implicar comigo e (lembra dos brinquedos infláveis?) começou a martelar a porcaria de um machado inflável em mim. No começo era de leve, depois começou a ficar pesado. Eu olhava com desespero para minha mãe, que achava bonito, chamava os outros para ver.
Outros pestinhas gostaram da brincadeira. No começo eu gritava “aiai” escandalosamente, a la “Os Trapalhões”. Eles se divertiam. Depois os gemidos eram de verdade, porque eles começaram a apelar para beliscões e tapas. O espaço da sala de aula ficou pequeno. Uma hora me escondi embaixo da mesa da festa, tamanha a insistência. Eles me encurralavam e Beto, o líder, ficava do outro lado me esperando, machado em punho. Muito da minha maquiagem ficou no brinquedo. O cabelo se soltou, a peruca caiu. No final eu parecia mais uma assombração que um palhaço. O garotinho do começo já devia ter desmaiado ao se deparar comigo daquele jeito, não me lembro mais.
Depois que terminou a festa, minha mãe tratou de recolher os restos. Docinhos, refrigerante, o que sobrou do bolo e o que sobrou de mim, que estava só o pó. Acabada, destruída por um bando de endiabrados que mal tinham saído das fraldas. Jurei para mim mesma que minha mãe não me pegaria de novo nessa. E que iria venerar todos os palhaços que cruzariam meu caminho.

No começo, sorridente

10 comentários:

{ João } at: 18 de outubro de 2009 12:06 disse...

Olha, tenho um amigo que fez Jornalismo comigo que não suportava ver palhaço. Nas ruas de Ponta Grossa ele queria espancar um desses que ficava no comércio. Quando surgia o sujeito maquiado, ele já ia saindo de lado, bem longe. Vai ver ele era um desses que adorava malhar o palhacinho nas festas de aniversário. hahahahahaha

{ Mauricio Toczek } at: 18 de outubro de 2009 13:28 disse...

hahahahaha... muito legal!

Eu acho que era a criancinha que ficava chorando. Eu assiti Chuck, o boneco assassino e fiquei traumatizado. É verdade!

{ Junior Bellé } at: 18 de outubro de 2009 14:34 disse...

O Chuck era um sujeito bacana. Lembram do IT??

{ Estrela do Mar } at: 18 de outubro de 2009 18:11 disse...

Hahahahhahahah!!!Só isso q eu tenho a dizer!

{ Finito Carneiro } at: 18 de outubro de 2009 18:26 disse...

Hahahaha... rachei o bico do início ao fim! Dá pra imaginar a cena, você escondida embaixo da mesa. Hahahaha!

{ Paulinha Fernandes } at: 19 de outubro de 2009 03:47 disse...

Tati... sério, ninguém passou por tanta coisa na vida!
Você não existe, meu!
hahahaha

{ Klaus } at: 19 de outubro de 2009 16:45 disse...

Todo carnaval tem seu fim, mas nem para todas as pessoas, que o vivem diariamente, da forma mais alegre e inteligente possível! Aparentemente, o seu começou, oficialmente, aos seus "10 ou 11" anos (apesar das passagens hilárias antes disso)! Daqui a "dois ou três" anos, vc pode receber sua primeira condecoração: "Sou Palhaça há 15 anos"!

{ Michele Matos } at: 22 de outubro de 2009 10:13 disse...

Huahuahauhauhauhauha
Eu não devia rir, isso é muito triste e desesperador.
Crianças são más.

{ Scheyla Joanne Horst } at: 24 de outubro de 2009 08:34 disse...

Palhaçada o que o Beto fez contigo, heim?
hehe :)

{ beto } at: 8 de junho de 2010 17:05 disse...

olha em minha defesa só tenho a dizer que nao gostava mto de palhaços... Mas eu realmente era terrivel quando criança UHASHASUHHUASUHASUHSAUHASUHASUH

 

Copyright © 2010 • ::: salto baixo • Design by Dzignine