Das pessoas

O alfaiate aqui da minha rua me cumprimenta todo dia. Nunca conversamos de verdade. Uma vez acho que fui lá, pedir uma costura, mas nem ele e nem a esposa tinham tempo. A mulher também costura. Eles trabalham noite e dia, vez ou outra eu vejo eles de papo com alguém, mas quase sempre estão curvados sobre réguas, lápis, tesouras, linhas e agulhas. No sábado, não. No sétimo dia não se vê as fuças de ninguém, garagem fechada. Deve ser coisa da religião.
A mulher nem sempre me vê, mas o homem sempre me dá bom dia quando eu passo por ele a caminho do trabalho. Às vezes é um oi, outras um meneio com a cabeça. Mas sempre um sorriso no rosto. E eu penso que ele poderia vez ou outra me ignorar, afinal, a gente nem se conhece. Ele nem sabe meu nome. O nome deles eu sei: João e Zélia, está escrito na placa.
Mas o que me intriga é que tem gente que lida com gente todo dia e acha que simpatia não pode ser dada de graça. Pensa que faz mal ser cordial. Não precisa hipócrita, não precisa perguntar pela família, mas um sorriso ameniza o dia. Um dia de frio polar ou de calor do Piauí, tanto faz. A mulher do laboratório que eu fui deve atender umas 40 pessoas por dia, contando por baixo. E ela atende todas com cara de quem tomou a amostra de urina para exames.
Na fila de espera, pessoas e mais pessoas. Gente ansiosa, porque coletar sangue ou entregar potinhos de urina e fezes não é normal, não é normal mesmo. Tem criança, tem criança que chora. Tem velho, tem mulher querendo saber se está grávida. Tem gente como eu, que acorda cedo e vai picotar o braço para ver se está tudo bem.
E a vaca, na sua posesinha detrás do balcão, só sabe apertar o botão das senhas e agir no piloto automático. Atende como se fosse um favor. Desconfio que ela cerra os dentes por dentro da boca fechada enquanto trabalha. Se você é atendente, colega, o mínimo que se espera é que você esteja disposta a ATENDER. No balcão, você querendo ou não, você lida com gente, se não quer, mude de emprego. Porque gente gosta de sorriso.
Eu fui aprendendo a gostar de simpatia gratuita grande já. Quando eu era criança, irritava-me minha mãe fazer amizade com a caixa do supermercado. “Você nem conhece a moça, mãe, para quê puxar papo, me diz? A gente vai se atrasar”. No fundo era ciúme, acho. Queria minha mãe só pra mim. Ainda bem que eu cresci e hoje mesmo estava de papo com a caixa do mercado.
Uma amiga que dividia apartamento confessava que sorria para as pessoas na rua. Eu ria muito disso e ela devolvia tirando sarro dos meus desafetos gratuitos e laços rompidos (sempre tive). Mas aprendi com ela um pouco da arte da leveza. Não só sorrir para as pessoas na rua (sem medo de parecer uma desequilibrada), mas levar a vida assim, com esse ar de que ainda há muito por vir, mas tem o tempo certo, há tem sim. Enquanto isso, a gente vai levando. E vai sorrindo.

15 comentários:

{ Elinha } at: 19 de novembro de 2009 18:42 disse...

Sorrir é realmente importante, receber um sorriso é fundamental.

Lindo post!

xeroooooooooooo

{ Eduardo Machado Santinon } at: 19 de novembro de 2009 23:16 disse...

Só não gosto quando me pego de sorriso amarelo. É difícil, e nem tô me achando não, mas acho meio que inconscientemente que sorrir sempre ajuda, não forçado caraio. Não quer não sorria, atendendo ou não. Vidinha aperta pra todo mundo, e sorriso deixa levinho pra você, e pra mim também, que sabe que há muito por vir.

{ Neto } at: 20 de novembro de 2009 03:28 disse...

ahh eh bom simpatia sim

esses dias tava brincando de verdade ou desafio com a cintia, ela me perguntou o que uma menina precisa ter assim para eu querer ficar com ela e tal

eu falei na lata: tem q ser alguem q seja feliz com a vida, nao quero ngm d cara emburrada, alguem mal humorado

tem q sorrir

e isso é bom
faz o dia das pessoas melhor

{ Diangela } at: 20 de novembro de 2009 03:34 disse...

A colééga devia ter bebido um potinho daqueles sim, fiquei aqui imaginando a cara da nojenta...
Eu não sou lá um poço de simpatia, mas faço um esforço tremendo pra deixar o dia mais leve. E a última parte parecia que vc tava falando pra mim, "tudo tem seu tempo"... Obrigada, Tatiêine.

{ Estrela do Mar } at: 20 de novembro de 2009 17:17 disse...

Yes!!!Eu aprendi com o meu pai: ele sempre sorri para tudo e faz piada até dos próprios problemas. Acho que isso dá serenidade para resolver tudo com seriedade depois. Queria ter essa sabedoria. Ainda não cheguei lá, mas tô tentando: sorrindo para as pessoas na rua, no trabalho, no ônibus. Tem vezes que funciona!
Adorei o texto. Principalmente a parte que fala de mim (Robert). Hahahhaha!!!

{ Klaus } at: 20 de novembro de 2009 22:33 disse...

Sorrir é bom, e causa pé de galinha! Certa vez conheci uma menina, de uns 4 anos, e passamos nossa primeira meia hora juntos só brincando. Aí cansei e quando fiquei "normal" (sério) ela me perguntou: "tio, por que vc está bravo?". Sorriso acostuma mal as pessoas e acho que está ai seu encanto! Ah, ninguém dá mais valor a um sorriso do que uma criança... Adultos não prestam atenção nisso! Sorria, elas e outros adultos estão te filmando...

{ Michele Matos } at: 25 de novembro de 2009 13:02 disse...

Vou imprimir este texto e deixar lá no banco, nos caixas da Farmácia 3000, e vários outros lugares...
Saudade, Tatica.

{ Híndira } at: 26 de novembro de 2009 14:05 disse...

Maravilha! Mas é complicado, né. Ninguém tá na pele de ninguém, a moça do atendimento que faz cara de quiabo pode estar morrendo de tendinite e só não larga o emprego porque...

{ Scheyla Joanne Horst } at: 29 de novembro de 2009 07:51 disse...

Gosto muito desta música, aliás, gosto de um monte de músicas deles hehe. Eu conheço o moço das costuras e do sorriso fácil. Também já me sorriu =) Pena que as pessoas parecidas com a mulher do laboratório aparecem em maior número nos nossos dias.

{ Tertuliano } at: 3 de dezembro de 2009 15:50 disse...

Venho lendo o seu blog de soslaio há algum tempo. Curiosa é a forma como o conheci, mas deixemos as longas histórias pra depois.

Só escrevo pra dizer que curto muito o que escreve e a forma como escreve.

E... atualiza aí, pô!

{ Tertuliano } at: 3 de dezembro de 2009 15:52 disse...

Ih, você é jornalista... também.

{ Tertuliano } at: 3 de dezembro de 2009 16:49 disse...

Conheci seu blog muito tempo antes que o Bellé.

Em virtude de termos, por assim dizer, um amigo em comum que pretende viajar no reveillon...

{ Tertuliano } at: 3 de dezembro de 2009 17:00 disse...

João Quaqcuio, meu veterano.

{ Raquel Farias } at: 11 de dezembro de 2009 00:40 disse...

Concordo com vc plenamente... é tão chato qdo somos mal atendidos e mal tratados por alguém. Qm trabalha como atendente deve ter em mente q é seu dever tatrar os outros com cordialidade... mesmo se fosse algum favor, já que favor significa fazer por livre vontade.

Eu costumo sorrir e cumprimentar as pessoas que passam por mim, isso qdo elas se mostram abertas. Acho estranho essa coisa de vc cruzar com alguém e agir como se ela não existisse.

{ Raquel Farias } at: 11 de dezembro de 2009 00:41 disse...

errata: tratar*

 

Copyright © 2010 • ::: salto baixo • Design by Dzignine