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Desaniversário

- Ah, essa coisa de fazer aniversário é muito chata. A gente envelhece. Melhor seria um desaniversário – disse meu pai, depois de receber meus parabéns.
- Para, pai. Isso não se diz num dia como esse.
- Pensa bem. A gente poderia rejuvenescer a cada ano e voltar a ser jovem. Até terminar na barriga da mãe.
- Não me decepciona, pai. A vida é boa, eu só tenho 24.
- É. Mas tá. Obrigada por ligar.

Meu pai não leu aquele texto na Internet que todo mundo diz que é do Chaplin, de a gente nascer velho e morrer num orgasmo, nem deve se lembrar da história da Alice, dos 364 desaniversários do ano, mas assistiu ao caso do Benjamin. E gostou muito.
Na ligação, eu não disse, mas deveria. Deveria dizer que sim, pai, eu quero que você rejuvenesça, porque talvez seja mais fácil você viver nesse mundo bandido e lidar com esse bando de gente capenga de quem você muitas vezes depende para ganhar o pão. Uma pessoa que faz malabarismos cotidianos todo dia para sobreviver, que consegue fazer todo mundo acreditar na fantasia com a qual você sobrevive, uma pessoa assim não deveria envelhecer mesmo. É um disparate.
Mais lógico seria você ir voltando no tempo, e, enquanto a gente vai embranquecendo os cabelos e sentindo curvar as costas, você ao nosso lado vai inflando o peito cada vez mais forte e jovem. Cuidando sempre da gente.
Deveria ser assim. Porque quando eu vejo você envelhecendo, me dá um certo medo. Medo não, cagaço mesmo. Como daquela vez que você pediu para eu carregar umas coisas pesadas do carro até em casa, porque você não conseguia. Meus ouvidos pareciam me enganar. Fiquei paralisada diante do homem que nunca me deixava carregar peso, que levava minha mochila e mais tarde minhas malas para eu não precisar me esforçar. E agora estava aí, prostrado pela rasteira passada pelo tempo, pela pressão, pela glicemia e pelo coração. Coração que aperta no peito, que pede folga, pede descanso.
Eu quero pai que você rejuvenesça, embora meu querer não queira dizer nada. Eu não queria ir depois de você, embora o meu querer não queira dizer nada. Eu queria te dizer tanta coisa, pai, mas querer não adianta. Talvez nem falar adianta.

Um feliz desaniversário, pai. Porque o aniversário mesmo foi ontem.

Comentários

Neto disse…
ótimo texto...
pais nao deveriam envelhecer mesmo :S
P. disse…
Eu pensei em coisas poéticas, mas fiquei tão emocionada quando terminei que só penso em: putaquepariu, que texto. Que texto.
João disse…
No caso dos meus pais, queria não só a linearidade do tempo ao inverso, mas o espaço zero, para encurtar a distância física de alguns quilômetros de saudade.
Amanda Hauage disse…
Desconectada e debochada como sou, poucas pessoas (muito poucas MESMO) já me deixaram sem palavras, Tati...

Você foi uma delas com esse texto. :)
osvjor disse…
Lindo texto. Acho que todo pai gostaria de ler algo assim. Parabéns.
Tati, minha família é jovem. Tanto que perdi a primeira pessoa da minha vida no ano passado. E, se antes eu já tinha medo dessa tal de morte, agora, então, ela me assombra.
E a velhice vai trazendo isso consigo, infelizmente. E eu queria que as pessoas que eu amo não se fossem nunca, porque eu mesma não quero ir. Mas a gente tem que aprender a aceitar algumas coisas, por mais difíceis que sejam. E essa é uma delas.
Texto belíssimo!
Klaus disse…
Texto perfeito, reflete o medo de todo filho! Um fdp de uma floricultura próximo a uma funerária me disse, depois de eu comprar uma coroa de flores: "precisando, estamos às ordens". Respondi seco, e irônico: "Espero jamais precisar". É lógico que vou precisar, desgraçado...! Devíamos ensinar isso aos filhos desde criança, como se fosse a primeira e última lição, depois é por nossa conta, como sempre, mas é muuuito difícil! Melhor nem pensar...

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