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Sinais

O gato me esperava pela manhã. Sentado na cadeira, seguindo com o olhar meus gestos, ele miou. Um miado chato, comprido. Olhei para ele e perguntei o quê? Ele continuou miando. Miando e me desafiando por trás dos olhos estrábicos.

Fui lá e olhei. Tinha comida, o pote de água estava cheio, a areia limpa. Perguntei de novo o que foi? Queria dar uma volta, decerto, apesar de nunca sair de casa.

Abri a porta, ele foi, cheirou os cantos, subiu uns degraus, olhou para mim, subiu mais um pouco. Aí, sem eu dizer nada, voltou. Calmamente, cabeça baixa, como se obedecesse uma ordem. Uma ordem tácita: você deve voltar.

Fiquei me perguntando o que queria o gato. Há dias reparo que ele anda triste, melancólico mesmo. Acho que ele tem depressão.

Ou está inconformado, apesar de eu duvidar da capacidade de inconformismo dos irracionais. Sempre achei que ele tivesse espírito de gente [mal dos donos pensar isso dos seus animais, usando expressões como “forte personalidade”, “vontade própria” ou coisas do gênero]. Se ele fosse gente, seria um serial killer, um psicopata, pensei. Mas não. O gato encarnava agora a personificação do gênio depressivo. Sabe que precisa de mais. Tem comida, tem água. Tem o que lhe supre o corpo, mas falta algo. Uma coisa que cutuca e não se sabe ao certo o que é. Às vezes se quer liberdade, mas quando se abre a porta vem o medo de sair. Ou a liberdade possível é pouca, restrita. Melhor seria desbravar o mundo.

Às vezes não é nada. Às vezes, simplesmente, o gato cresceu.

Comentários

Crescer, na nossa sociedade hipócrita cristã, significa já ter sofrido e saber que nada é fácil.

O gato preferia não ter crescido.
Michele Matos disse…
Eu acho mesmo que o que lhe falta é um par de testículos.

Ótimo taticaaaa!!!
Juliana Cruz disse…
eu acho que o gato ficou com preguiça por causa do calor.
Estrela do Mar disse…
Eu acho que ele está sentindo falta de mim.
Estrela do Mar disse…
Obs: se eu ainda fosse orientanda da Níncia em Literatura Feminina, faria uma análise desse teu texto.Mas como não sou mais, apenas me preocupo com o gato e deixo de lado as entrelinhas.
Hahahhahaha!!
Bjo e se cuida!
Mauricio Toczek disse…
Tiraram os testículos do gato? Que maldade. Agora ele vive apenas para esperar a morte.

Mas eu aposto que uma boa brincadeira de criança faz ele não querer crescer nem morrer.
É desse jeito mesmo Polaco, merda né. Vontade que não cabe de sentimento tornar-se prática mas aí vem a tona o miado desafinado sempre no mesmo telhado, a whiskas dos filhotes, o ronronar viciado, aí você dá meia volta e entra em casa de novo. Um dia a gente ganha coragem. Ou aceita a condição de zumbi, merda de novo.
Renata Caleffi disse…
O mel ficou assim depois que a Mi morreu. Mas o Polaco deve estar sentindo falta de uma presença feminina hein! ou apenas esse calor...
Tarini disse…
Ele ta sentindo falta de mim isso sim!
Eu era a que mais ficava com ele, a unica q brincava de pega-pega, ele tem saudade da minha pessoa!
Sei disso...
Sempre dizem que gatos são temperamentais, egoístas, 'blasés", hehe, deve ser isso mesmo, não se preocupe. Mas e o pior sou eu que tenho um cachorro assim. Cachorros, reza a lenda, devem ser amáveis, correr ao nosso encontro, abanar o rabinho, mas ele não faz nada disso. É um marrento!
Pedro disse…
iii Tarini sai fora, ele está com saudade de mim.

Eu troquei umas ideias com ele no msn outro dia Tati, depois te conto, acho que pode ajudar.
fábio de souza disse…
muito bom o texto. banal e repleto de sutilezas. retrato do cotidiano.

tomei a liberdade linkar seu blog ao meu.

um abraço!

até a próxima postagem.
Amanda Hauage disse…
Conhecendo o gato em questão como conheço (não muito profundamente, mas o suficiente), posso afirmar com certeza absoluta que sua expressão é de pura e simples admiração ao complexo infinito além do óbvio ululante que pulula nas mentes humanas.

Sim, Polaco é um filosofo.

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