Herança

No último encontro, lembramos do quanto nunca tivemos um pai típico, daqueles que assistem ao futebol, levam para dirigir, gostam de fórmula 1. Tirando a Copa do Mundo, não me lembro do meu pai parando na frente da televisão para assistir a um jogo, tomando uma cerveja. Ele nem bebe.
Talvez, por essa falta de influência, não aprendemos certas coisas. Não nos apegamos a certas coisas. Na infância, a imagem que eu tenho do meu pai é trabalhando. Saindo de viagem ou chegando de viagem. Indo dormir. Brigando, algumas vezes. Passando a mão na cabeça, outras.
O pai faltando na feira de ciências porque tinha que atender gente em casa. O pai se desculpando por não ter embrulhado o presente. Não importava, sempre tínhamos os melhores.
Não aprendemos a torcer pelo futebol ou pela fórmula 1, mas aprendemos coisas que outras crianças não sabiam da existência. Fomos filhos de um comerciante que vendia tudo em casa, que viajava três vezes por semana. Aprendi, desde criança, a ouvir notícias sobre fiscalização na Ponte da Amizade com o coração na mão. No final de semana ele queria dormir ou tinha que separar mercadorias, não dava para ver futebol.
Época de Natal era o período do caos, como sempre foi, ao longo da nossa vida, pois de viajante ele passou a ser Papai Noel. Assim, desde pequenos eu e meu irmão aspirávamos aquele pó de terras paraguaias e convivíamos com gente estranha em casa. Desde pequenos a gente sabe fazer troco, contar mercadorias, embrulhar presente, calcular porcentagem, fazer mercado. A gente aprendeu a fazer depósito, recuperar cheque devolvido, pedir e dar desconto.
Teve uma vez que ele comprou cinco lojas. Ninguém entendeu. Cada um pegou uma chave e ficou responsável por cuidar de uma. Enquanto todo mundo aproveitava as férias, eu acordava cedo para abrir a loja. Enquanto todo mundo estava de férias, a gente respondia cartinhas (milhares), de crianças do país todo.
Não guardamos nada de ruim desse tempo. No nosso último encontro, lembramos dessas coisas e rimos de outras. Sempre soubemos que o pai ensinou o que pôde.

9 comentários:

{ Klaus } at: 12 de dezembro de 2009 10:01 disse...

Quantas cartinhas já escreveu esse ano??? Não sei se seria bom se todo mundo fosse filho de Papai Noel, sua mãe não ia gostar, mas seria, no mínimo, divertido!!!

{ lola } at: 13 de dezembro de 2009 12:53 disse...

é sempre bom quando um filho reconhece as intensoes do pai...

{ Finito Carneiro } at: 14 de dezembro de 2009 06:10 disse...

Todo pai é foda!

{ marcela } at: 14 de dezembro de 2009 08:01 disse...

Não acho certo.
Se ele não tinha tempo pra embrulhar os presentes, pq nao pedia pros duendes operarios?
E afinal, o que eles estavam fazendo? Brincando com a hena do nariz vermelho?

{ Neto } at: 15 de dezembro de 2009 02:57 disse...

pai é pai
mesmo se for o noel

hehehe

bjooo

{ Amanda Hauage } at: 19 de dezembro de 2009 16:19 disse...

Eu juro que não tinha lido o seu post antes de publicar o meu último. Incrível como certos substantivos próprios apareceram nos dois como "Ponte da Amizade" e "Papai Noel". haha

Mas em casos completamente diferentes, frize-se.

{ Michele Matos } at: 27 de dezembro de 2009 14:50 disse...

Acho que o seu é o pai mais legal!! Do mundo!
Bju Taticaaa!

{ Olavo } at: 28 de dezembro de 2009 17:12 disse...

O nosso caminho é feito
Pelos nossos próprios passos...
Mas a beleza da caminhada...
Depende dos que vão conosco!

Assim, neste NOVO ANO que se inicia
Possamos caminhar mais e mais juntos...
Em busca de um mundo melhor, cheio de PAZ,
SAUDE, COMPREENSÃO e MUITO AMOR.

Um ótimo 2010.

Olavo.

{ Scheyla Joanne Horst } at: 29 de dezembro de 2009 07:09 disse...

Ah. No fim vocês ganharam um tanto de boas histórias. É o que vale =D

 

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