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O sonho e a morte

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Sempre ouvi dizer que a gente nunca morre em sonho. De fato, quando criança, jamais sonhei que dava adeus ao mundo. Um acidente de carro, uma queda, um tiro e no momento exato, pá, eu acordava. Aquilo sempre me intrigou.
Não sei se a exceção já havia acontecido antes, mas sei que essa, foi, com certeza, a mais marcante.
Eu havia morrido, não soube como. E o sonho começava com meu velório. Sombrio, né? Tenho arrepios, só de lembrar. Um clima pesado, com pessoas de expressões graves, próprias dos que velam os seus. O cenário era uma igreja que eu nunca vira antes. O interior era escuro, abafado. As imagens sacras erguiam-se suntuosas, ostentando a riqueza do ouro maciço, fitando a todos a sua volta com altivez.
E eu ali, na primeira fila. Ironicamente, assistia a tudo de camarote. Não me recordo de quem estava presente. As pessoas não me marcaram, mas sim a aura que envolvia meu próprio velório e o que aconteceu a partir daí.
Saí de súbito do lugar e me dirigi a uma sala contígua, ainda dentro da Igreja. Fui até lá como se eu soubesse exatamente o que estava fazendo. Um lugar que parecia que só eu tinha acesso, como nos filmes que a gente vê de mortos que coexistem com os vivos.
A sala estava deserta e só havia, além de mim, uma mesa grande, que se estendia diante dos meus olhos a se perder de vista. E a mesa era preenchida com velas, inúmeras, iguais àquelas de sete dias. Algumas pareciam que tinham acabado de ser acesas, outras queimavam há um tempão.
Em cada vela, um detalhe. Um papel a acompanhava. Escrito nele, um nome. Não foi difícil adivinhar que cada vela representava uma vida. E havia várias vidas queimando seus minutos, horas e dias ali na minha frente.
Estava criada, no meu sonho, uma versão para os desígnios da vida e da morte, como a da lenda mitológica das três moiras. Mas, ao invés de velhas tecendo os fios dos nossos destinos, que ao serem cortados determinariam o fim das existências terrestres, as velas diante de mim não possuíam ninguém para administrá-las. Elas queimavam por si só, como por si só as vidas viviam.
Não havia correntes de ar naquela sala. Mas o engraçado é que, por algum motivo, minha vela havia caído da mesa e repousava, solitária e apagada, no chão.
Recolhi-a de onde estava, examinei-a e a recoloquei sobre a mesa. Não a acendi, mas meu gesto fez com que eu fosse impulsionada à vida novamente. Eu ressuscitei.
E foi aí que alguém que eu já conhecia vinha me buscar. E repetimos os gestos rotineiros, dos passeios e das conversas. De repente, depois de morta e renascida, tudo passara a ser igual ao que já fora um dia.
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Me despeço e vou...

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Chega a hora de dizer adeus. Engraçado, sempre imaginei o meu último dia aqui. Sabia que um dia iria embora, mas não imaginava uma despedida súbita. E sempre acreditei que quando fosse embora, levaria a mudança toda para outra cidade.
Continuo na mesma cidade e, talvez por isso, a despedida seja menos dolorosa. Ou não. Ainda estarei ao alcance dos seus abraços, ainda os terei ao alcance da minha visão. Por um tempo talvez eu ainda me esforce para me fazer presente. Ainda devo um último abraço para algumas pessoas que não estão aqui.
Acompanharei os passos que vocês darão sem mim, verei o que de bom cada um irá fazer, mas com um sorriso no canto da boca por ter feito parte disso tudo. E vai chegar um dia em que serei apenas uma lembrança, alguém que protagonizará uma história que começa como: “aquela menina que trabalhava uma vez na imprensa...”.
Parto em busca de um sonho. E, juro, não quero parecer clichê. Um sonho mesmo, uma coisa que cutuca aqui dentro e que vez ou outra me lembra do que eu sempre quis. Uma vontade que dá, incomoda e a gente finge que não vê. Mas a gente sabe que, mesmo fingindo, não passa. Porém, de uma coisa ainda não tenho certeza. Há momentos em que os sonhos nos pregam peças. Não sabemos se são eles só teimosia da cabeça ou se fazem parte mesmo do que queremos. E como saber? Por um tempo, me angustiei para saber a resposta. E hoje vejo que a resposta está exatamente no passo que irei dar. Vivendo esse sonho. Se ele arrefecer, sinal de que não era sonho, era devaneio. Se ele, persistindo, der pé, sinal de que era vocação.
Se tenho tanta certeza, por que estou agora chorando baixinho, enxugando as lágrimas que, graças a Deus, o Leandro – distraído como ele só – não viu? Por que me pego despedindo vagarosamente da minha mesa, da intranet, do banner torto, do telefone que não para de tocar? Por que demoro a escrever o e-mail derradeiro (aquele!), em terminar aquela tarefa que eu já me habituei a fazer? Porque é difícil partir por si só. Quando a gente é criança e o pai decide mudar de cidade, a gente chora pelos amigos que ficam, mas, oras, é a vida. Depois que a gente cresce, as despedidas passam a ser frutos das nossas escolhas. Hoje o céu chora e o que ele parece me dizer é que tudo é por minha conta e risco.
Acho que mais bonito do que dizer que sentirei saudade é dizer que vocês farão parte das minhas melhores histórias. Que vocês são personagens da equipe maravilha que irá permear os contos de fada da publicidade que ainda contarei. Vocês serão o meu dream team. Um dia, se algum de vocês me ouvir dizer que eu já trabalhei com uma equipe realmente maravilhosa, saiba que são vocês mesmos a quem estarei me referindo. E eu ainda acrescentarei que: não, não é horrível ser a única jornalista entre dez publicitários. E: sim, eu poderia só saber mexer no Word, mas graças à equipe maravilha, hoje eu sei muito mais.

Aos amigos da i9, que se fizeram presentes ao longo de um ano, o meu muito obrigada e a minha admiração.

Hasta.
Tatiana

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Poetinha

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Dei para ser romântica nos últimos dias. E me dou esse direito. Os românticos carregam no peito um pouco da melancolia do amor não correspondido, mas vivem com mais ardor. Sofrem sim, mas você não encontra um romântico que seja sendo blasé diante da vida. E ultimamente ando muy romântica. De dar dó. Pelo menos para os mais racionais.

Romântica do tipo que sente falta e tenta aplacar com fotos e recordações a ausência do amado. Do tipo que se pega boca aberta, pensando no infeliz e no que ele faz naquele momento. Do tipo que dispara o coração quando fala com a pessoa amada. Do tipo que mareja os olhos quando escreve as três últimas frases.

Donde estás, ó feminismo retumbante? Cadê aquela guria que há pouco tempo enojava-se com versinhos de amor? Morreu seca, coitada.

A que vive agora quer viver enlouquecidamente una pasión. E, para isso, fere e vibra e prefere ferir a fenecer. A que vive ahora quer um dia naquele corpo de repente, morrer de amar mais do que pôde. Essa doidivanas quer, diante do maior encanto, se encantar mais com seu amor em pensamento. E lhe pede desculpas, por amá-lo de repente, mas no fundo quer que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar estático da aurora. Quer forma mais linda de dizer que você quer anoitecer e amanhecer ao lado de alguém? Esse Vinicius de Moraes me inspira, rapá.

Conheci Vinicius na adolescência, na biblioteca municipal. Pegava os livros de sonetos, lia tudo. Os que eu mais gostava lia de novo e na terceira vez, já os sabia de cor. Lembro que quase caí dura quando li a sua Tatiografia e Redondilhas para Tati, que eu até decorei uma vez. Ficava pensando quem era a tal Tati por quem ele era apaixonado. Mulher de sorte aquela. Descobri mais tarde que de Tatiana não tinha nada, pois se chamava Beatriz. Era aristocrata e foi a única com quem ele se casou no civil, casamento que resultou em dois filhos. Era namorador demais o tal do Vinicius. Nove casamentos. Depois de Tati, a primeira, casou-se escondido, o que a primeira esposa não conseguiu perdoar. Nunca mais se reaproximaram. Puro orgulho, admitiu ela quando ele morreu.

Não sei se os sonetos que eu decorei e ainda guardo na memória foram para ela. Para quem tivesse sido, tomo-os emprestado, para recitar baixinho, para mim mesma, enquanto o meu próprio poetinha não vem. E vem, um dia? Não sei. Na dúvida, continuo tonta de amor, lendo e relendo entrelinhas, tomando doses diárias de hipérboles e pensando, vez ou outra, se caso mesmo ou se compro uma bicicleta.

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O novo

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"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades (...)"
(Camões)


Não adianta lutar, na hora certa ele vem. Não na hora que você quer, não na hora que você se contorce e se debulha em lágrimas, ansiando por algo que te arranque, sem dó nem piedade, do marasmo da rotina. O novo vem quando é hora.
E chega como uma tempestade, devastando a erva daninha que se apoderou do corpo marcado pela mesmice. O novo destroi, faz barulho, chega chegando.
Com a autoridade que lhe conferiu o universo, o novo te sopra na cara que agora é o momento. O novo vem coroado de brilhantes, como coroas de reis que a gente vê hoje intocadas em museus. O novo mostra que nunca é tarde para esperá-lo. Quem sabe nem seja preciso esperá-lo. Talvez, corrijo, não seja preciso ansiá-lo fatalmente. Esperar a gente sempre espera, como esperou, durante toda a infância, o Papai Noel, as férias e o aniversário chegarem. (Eu, confesso, ainda hoje espero).
O novo vem e, quando vem, o universo conspira a favor. Os ventos, para o novo, sopram sempre na direção certa. Mas não se conforme, meu amigo. Não fique esperando o novo com esse sorrisinho frouxo nos lábios, aguardando a bigorna cair na sua cabeça. Acorde. Vá em frente. Faça sua parte. O novo precisa saber que você quer recepcioná-lo.

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Nevofobia

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Sempre desconfiei de pessoas que tivessem pintas perto da boca. Não daquelas charmosinhas, a la Marilyn Monroe. Pintas grandes, cabeludas, a la Roseanne Barr, em Ela é o Diabo. Pintas como a dela me provocam arrepios. E era justamente nisso que eu não parava de reparar na cara da mulher da assistência do celular enquanto ela falava comigo.
- Moça...
- Ahn?
- Perguntei se está com o RG aí.
- Sim.
- Ainda está com o aparelho que lhe emprestamos?
- Aham... (Sim, estou com ele há cinco meses)
- E... Você ocupa bastante?
- Sim, né. (Você quer que eu diga que: não, não ocupo, ninguém me liga, ninguém lembra que eu existo?)
- Seu celular fica pronto no sábado – disse ela, enquanto pegava a autorização que eu acabava de assinar – Aí você devolve o que nós lhe emprestamos.
- Mas já?
- ... (do tipo, não foi o suficiente os CINCO MESES que você deixou ele mofando aqui?)
- Sabe o que é? Eu estou sem o carregador do aparelho que vocês me emprestaram.
- Quê??
- Na verdade eu esqueci numa viagem, mas uma menina da minha cidade está com ele e vai levá-lo para meus pais e aí eles me enviam. A cidade onde eles moram não fica muito lon...
- Tá, tá, tá. Tudo bem. Entrega o aparelho emprestado e outro dia você devolve o carregador.
Tive a impressão de que era a pinta lhe sussurrava, em tom de fofoca: Ihhh, essa daí, se deixou cinco meses o celular aqui e ainda conseguiu perder o carregador do celular emprestado, não deve bater bem mesmo.
Pronto. Passei por louca na frente de uma pinta.

Vai dizer que não dá medo?
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Meu tempo meu

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Quando a hora dobra em triste e tardo toque
E em noite horrenda vejo escoar-se o dia,
Quando vejo esvair-se a violeta, ou que
A prata a preta têmpora assedia;
Quando vejo sem folha o tronco antigo
Que ao rebanho estendia sombra franca
E em feixe atado agora o verde trigo
Seguir o carro, a barba hirsuta e branca;
Sobre tua beleza então questiono
Que há de sofrer do Tempo a dura prova,
Pois as graças do mundo em abandono
Morrem ao ver nascendo a graça nova.
Contra a foice do Tempo é vão combate,
Salvo a prole, que o enfrenta se te abate.
(Soneto XII, Shakespeare)


Esse poema já representou para mim, claramente, o que é a passagem do tempo. Ouvi em um filme e a cadência das frases me soou tão bela, mais até que seu conteúdo, em um primeiro momento, que procurei-o e acabei até usando-o em pesquisa científica na faculdade. O resultado é que fiquei uns dois meses como doida errante, tentando explicar o inexplicável, dar um foco objetivo ao que é demasiado subjetivo.
Vi que o tempo era como um rio, principalmente para a geração de escritores adeptos do fluxo de consciência, como Woolf ou Joyce. Soube que alguns se referiram ao tempo como algo que escorre entre as mãos. Além das comparações, estudos se debruçaram sobre a introdução da marcação do tempo na sociedade moderna, antes tomada pelo bucolismo, depois pela profusão das máquinas e do trem, modelo máximo da civilização e da importância do tempo a partir de seu surgimento. O que concluí mesmo, com as dez páginas em punho, é que cada um tem a imagem do tempo da maneira que lhe convém. Cada um tem o tempo que merece. Cada um faz do seu tempo o que quer.
Quando acordo atrasada, evito olhar no relógio, que fica no alto da cozinha, o que, segundo minha companheira de apartamento, é sinal de opressão. O fato é que diante do atraso, prefiro não olhar, porque não olhando parece que o tempo vai passar mais devagar. Já funcionou, pelo menos na minha percepção.
Quando eu preciso ir a pé a algum lugar, que se localiza em uma distância que se situa entre: não muito perto e não muito longe, calculo sempre quinze minutos. Tenho que ir a tal loja do Centro, quinze minutos. Até aquela pizzaria, quinze minutos. À casa de fulana, quinze minutos. Claro que sempre calculo mal. Ou chego atrasada, ou adiantada. No fim das contas, acho que nunca chegarei em nenhum lugar em cravados quinze minutos.
O tempo ou a marcação dele podem ser traiçoeiros. Já fui enganada pela mesma colega de apartamento, que imaginou que o horário de verão começava uma semana antes. Cheguei uma hora mais cedo no trabalho e dei com a cara na porta. Não foi por querer, lógico, mas o castigo dela veio a cavalo. Ou melhor, de ônibus. Ficou uma hora na rodoviária ao Deus dará por ter se esquecido de consertar a falha no seu celular.
Cada coisa tem seu determinado tempo, como diz o Eclesiastes. Tempo de colher, amar, chorar, sorrir, etecétera, etecétera. Eu, no atual momento, nem preciso de tempo para tudo isso. O tempo das mil atividades em um dia já passou.
Quero só um tempo que corra macio, como na música do Pato Fu. Quero rebater com taco de golfe o tempo que se arrasta lentamente nas situações chatas e quero uma ampulheta quebrada quando eu estiver me divertindo. Quero um tempo que escorra por entre os dedos sim, mas que o que passou fique lá embaixo para eu revisitá-lo quando sentir vontade. Um tempo que me permita olhar para a frente tendo a possibilidade de voltar meus olhos para ele se assim desejar. Sem nostalgias. Só para catar reminiscências, como se recolhe conchinhas na praia. Elas podem ser guardadas, admiradas, ou jogadas de volta na areia. Quero ter o poder de fazer o que quiser com as minhas recordações. Quero um tempo de lembranças perenes e dores voláteis. Quero um tempo que mereço, para chamar de meu.

(Texto publicado no Portal Comunique-se)



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As máquinas e o esquecimento

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Tenho uma relação com as máquinas (e com coisas em geral) que passa pelo esquecimento e pela capacidade da distração. Digo capacidade não no sentido de habilidade, mas porque acredito que só eu sou capaz de umas façanhas provocadas pela falta de atenção.
2009 mal começou e duas máquinas pifaram. A de fotografar e a que me transporta para o mundo. Pior, as duas por erros meus.

A fotográfica foi na praia. Levei a bendita. Tirei muitas fotos e entre uma e outra grãozinhos minúsculos desgraçados de areia adentraram seu mecanismo. A partir daquele dia ela passou a ter vida própria. Ligava e não fechava, ou não ligava, ou se recusava a bater fotos. Ainda não a levei na assistência. Enrolada como sou, temo terminar o ano com ela encostada.

O computador recusou-se a me receber de braços abertos e luzinhas piscando na minha chegada, depois de um mês fora. Não liga mais. E poucas coisas me deixam mais irritadas que ficar sem computador. Só porque ele ficou um mês ligado na tomada, em uma cidade cujo céu frequentemente apresenta raios e trovões, vai me deixar na mão, p*%$#?

E que Maomé terá que ir lá em casa consertá-lo, porque a enrolação vai me impedir de levar para algum lugar para consertar o coitadinho. Isso se não chamuscou a placa mãe. Aí sim, é capaz de a assistência ser a sua nova casa, porque não terei dinheiro para resgatá-lo. Mas não será um problema maior do que o estrago de uma terceira máquina: a de lavar. Sem essa eu choro, juro. Sem o microondas acho que eu sobrevivo. Mas aí, se todas as porcarias do mundo moderno resolverem pifar, reclamarei de uma conspiração tecnológica.

Não comentei do meu celular, que está na assistência há cinco (sim, cinco) meses. E não é culpa deles não. O celular já deve estar pronto há séculos. Eu que ainda não fui pegá-lo (não me xinguem, foi uma promessa de ano-novo buscá-lo) por esquecimento, má-vontade ou coisas que nem Deus explica. Enquanto isso, vou me virando com o genérico versão tijolinho que me emprestaram. Esse eu estou economizando bateria, porque esqueci o carregador na casa de uma amiga em Florianópolis. Depois de passar de mão em mão, terei o carregador nas minhas só dia 2 ou 3 de fevereiro, vai saber.

Esquecer, aliás, é uma constante. Deixei o meu travesseiro (o the Best, ainda por cima) no ônibus. Eu sabia que, ao carregar três malas, o travesseiro, uma frasqueira, a bolsa e uma jaqueta, uma coisa iria ficar para trás. Se não, não seria eu.

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Sem sal, sem açúcar e sem afeto

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Já me disseram que eu meto medo nos homens. Ultimamente não ando assustando nem meninos na tenra idade, que dirá homens feitos. Já me disseram que eu sou complexa. Ah, para (agora sem acento diferencial). Meu pai me entende.

A verdade é que eu não creio mesmo que eu seja assim. Talvez, devo confessar, eu seja um pouquinho só imponente e incompreensível. Mas isso faz parte do que no fundo se traduz como insegurança. E faz parte de mim fechar minhas comportas quando elas não sabem para onde escoar.

Sob um certo ângulo isso deve se chamar autocontrole. Visto-me, ou tento me vestir, com a capa do autocontrole, mas ela é tênue e vez ou outra costuma cair. Principalmente quando ele entra na minha casa como se fosse sua ou ousa aparecer nos meus pensamentos, como se fosse completamente normal pensar mais nele do que em mim. Então eu quebro a cabeça para lhe escrever, para que nas poucas linhas eu não pareça ousada demais.

Eu mal lembro meu nome e CPF, que dirá que tenho autocontrole, quando ele entra nos meus jogos sem pedir licença e sem pedir licença já faz parte de mim. E eu me pergunto onde ele está quando na pedra mais alta eu digo seu nome repetidas vezes, quando nossa música toca, quando seu sorriso me falta...

Sou como um fantasma na vida de alguns homens. Inevitável eles se separarem de mim, levando um pedaço meu nas suas bagagens. Inevitável eu ficar, guardando um pouco deles na minha caixinha de recordações. É como se eu fosse a poça de água que a chuva acumulou e abandonou como se fosse bonito deixar um pedaço seu depois de ir embora. E quando esquecerem da chuva, a poça continua ali, para lembrar que a chuva há pouco existiu. Eu penso nele e inevitavelmente lembro dos outros que já choveram. Os homens também são fantasmas para mim.

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A coisa que cutuca

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“Há sempre algo de ausente que me atormenta” (Camille Claudel)

Nunca consegui defini-la bem. Só sei que vez ou outra ela aparece e sua presença me insiste que algo está errado. Pode ser diante de um lugar, uma pessoa, um trabalho ou uma situação. Quase sempre do mesmo jeito. Olho ao redor e parece que tudo está em perfeita ordem. Racionalmente falando, está tudo certo. Não há motivos para reclamar, pelo contrário, parece que tudo está sereno, correndo no curso certo. Mas aí ela aparece. A coisa que cutuca. Foi uma amiga que definiu assim o sentimento que ora quer nos impulsionar para longe, mesmo quando estamos acomodados em um canto tranquilo. E é justamente desse estado de dormência que a coisa que cutuca quer nos tirar. Afinal, se tudo está transcorrendo tão certo, algo deve estar errado. Porém, não são todos que sentem a presença da coisa. Nem são todos que a sentindo, ligam para ela. Eu a sinto, vez ou outra, quando jogo os pensamentos para o alto. Diante de um lugar, uma pessoa, um trabalho ou uma situação.
Uma vez sentida e notada, você sabe que a coisa que cutuca está certa. Ela quer te mostrar que não é isso que seus sonhos lhe fizeram buscar. Ela quer te mostrar que por mais que você fuja, por mais que você a ignore, ela estará ali, manchando de cinza seus dias, deixando sério o riso que você teima em dar para provar que está tudo bem. A coisa que cutuca não pode ser relevada. Ela quer mostrar que um dia ela pode te abandonar, quem sabe. Não sem a dor da partida, a dor da separação, a dor da desistência para buscar algo melhor. A coisa que cutuca, no fundo, é sincera e quer o seu bem. E está doidinha para te abandonar para que você possa viver sem ela.

Sinto que, em 2009, eu a deixarei para trás.

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