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Até logo

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Peguei nas mãos duas flores que faziam parte da decoração sobre a mesa e despedacei-as entre os dedos. Olhei para as pétalas espalhadas na minha frente e naquele momento entendi o significado do meu gesto. Eu também estava despedaçada. Desfalecida, com maquiagem borrada, lembrei dos últimos acontecimentos daquela noite. Uma conversa que começou entrecortada e entrecortada permanecia na minha mente. Uma mescla de elogios sinceros e esbofeteadas recriminações. Palavras, encalacradas na garganta, saíram despejadas... No meio do som alto, sem cerimônias, encerradas com uma saída brusca. Aquela noite havia sido a das despedidas. Várias, ao longo da noite, que só serviram para mostrar o que, no fundo, eu já sabia. Não há razões para se dizer adeus. Estaremos próximos e talvez ligados, a fim de tentar descobrir o que será que há em mim e em você que mexe com a minha e com a sua alma.

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Procura-se cara metade. Na falta dela, distração

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Já tentei fingir que estava bem, muito bem, sozinha. Já tentei me enganar e pensar que sou ocupada demais para ter alguém. Já repeti a máxima de que "antes só do que mal acompanhada". Já quis me convencer que minha companhia me basta. Já pensei com meus botões "filhadumaégua" quando vi que aquela última das mortais arumou um amor e declara seu achado da agulha no palheiro aos quatro ventos. Já me perguntei o que eu tenho de errado. Já insisti com gente que não me dá a mínima bola. Já acreditei que só quem eu não quero me quer. Já me disseram que eu tenho medo de me relacionar. Já tentei preencher o vazio com livros. Já acreditei em elogios falsos e já duvidei de clichês sinceros.

Já sei o que você vai me dizer: Esquece isso, vê se pensa em outra coisa.

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Festas de formatura

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- Faço coreografias, com passos que traduzem literalmente cada palavra da música. Algumas pessoas imitam.
- Ao olhar as fotos no outro dia, reparo que meu cabelo reflete os graus da bebedeira, que vai do: saído do cabeleireiro, levemente suado, Maria Bethânia até o “Jesus, onde foram parar todos os grampos?”
- Um mesmo vestido pode ser visto em diferentes corpos no decorrer da temporada de formaturas.
- Eu posso perder todas as pessoas, mas o copo não se separa da minha mão.
- Eu sempre tenho assunto com toooooodo mundo. Do primo da amiga da minha colega de inglês, passando pelo garçom que eu confundi com um formando, até chegar ao tiozinho que vende cachorro-quente em frente ao clube.
- Eu reluto, mas as sandálias sempre acabam saindo dos meus pés.
- Fico olhando fixamente para a banda e, após alguns minutos, tento imitar os passinhos das integrantes, sem sucesso. Também canto todas as músicas junto, inclusive aquelas em espanhol, que eu não falo.
- Eu cumprimento as mães dos formandos e arrumo assunto, pensando que elas são minhas amigas.
- Difícil eu cair, mas sempre acontecem umas resbaladas com umas cravadas na saída. Comumente depois da recuperação eu finjo que nada aconteceu.
- Banheiros são ótimos lugares para se fazer novas amigas.
- Entrar em trenzinhos que não são da minha galera, beber do whisky que não é do meu formando e dar parabéns para quem não está se formando sempre fazem parte das minhas participações especiais.
- Às vezes quero dar uma de esperta e roubar parte da decoração. É claro que o segurança me observa já de longe, com aquele vaso na mão, e me barra na portaria.
- Eu esqueço quem me deu o convite para a festa e agradeço cada uma das pessoas que eu encontro e (acho) que estão se formando.
- Sempre chega uma hora que eu vou tentar falar em inglês. Engraçado é que para mim parece que sai fluente.
- Eu sempre xingo a banda por tocar New York, falo mal do garçom que esqueceu de trazer o gelo e digo que o banheiro poderia estar menos cheio, mas sei que eu vou em qualquer formatura que me convidarem.
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Ela

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Não sabia se expressar muito bem oralmente. Falava, mas ao falar alguma coisa sempre terminava incompleta. Falava, falava, mas a sensação que tinha ao final é que havia deixado subentendidos demais e conclusões nada concretas. Ao contar uma história, falava, falava, falava e no meio do falar sentia que um detalhe ou outro havia se perdido no meio do caminho. Às vezes se desconcentrava com divagações que lhe invadiam a mente, sem possuir lugar certo no enredo.

Preferia escrever. À escrita é permitida a edição. E como não é possível editar a fala, restringia-se às palavras desenhadas. Entretanto, o problema maior não estava no que declarava, mas no que recebia. O que lhe era direcionado, falado ou escrito, geralmente não vinha claro, com contornos definidos, mas uma mancha cinza e abstrata, que devia esconder, sim, um raciocínio lógico. Porém, não possuía a chave.

Passou a recorrer a um dicionário de símbolos para decifrar os códigos que lhe chegavam. Percebeu aí a rede infinita de não-ditos que pode haver em uma palavra ou falta de. Descobriu que faz parte do ser humano recorrer às entrelinhas.

Enveredou-se por todas. Procurou, até mesmo em vãos que nem lhe eram de direito, o significado de palavras faladas e escritas. Nem os gestos lhe escaparam.

Mas o hobbie, embora fosse empolgante, não lhe despertava emoções maiores. Não havia graça em desvendar a amiga ou a família, que deixara de tentar compreender há muito tempo. Foi então, que apareceu. Ele. Veio como o vislumbre de um novo projeto de estudo. Carregava em si inúmeros sinais passíveis de páginas e páginas de significações. Encontrar a chave lhe interessava, não apenas pela mania de decifrar, mas porque se deixou envolver emocionalmente. Começou então a desvendá-lo, um longo caminho, que demandou tempo. Analisou-o milimetricamente. Guardou na memória tudo - idiossincrasias, as palavras que lhe dirigia, os silêncios, o aparecimento, o sumiço, as lembranças, os esquecimentos – e enfiou a cabeça no livro, empenhada em encontrar respostas. E nas tentativas de investigar, decifrar e revelar, chegou, enfim. A lugar algum.

Desistiu. Aprendeu a diferença fundamental dos subentendidos. Há alguns que necessitam ser ininteligíveis e uma hora outra acabam por ser compreendidos, no momento certo. Outros são meros devaneios de mente insana e desocupada, disposta a brincar com sentimentos alheios.


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O que aprendi com o calendário

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Não precisa ser muito atento para notar. Se uma data desse ano cai numa segunda-feira, no próximo ela vai cair automaticamente na terça. Salvo os anos bissextos, quando as datas depois do dia 28 de fevereiro pulam dois dias além, é sempre assim. Uma data nunca retrocede, ou fica estática em um lugar da semana. Os dias sempre avançam.
Eu devo ter notado isso, sei lá, com uns 10 anos. Mas nunca tinha parado para pensar no que isso poderia me ensinar. Se os dias não param no tempo, por que haveríamos nós de parar? Por que haveríamos de contrariar a lógica natural do calendário e insistir em retroceder, como quem volta da quinta para a quarta, se é natural que a sexta venha depois?
Conversando com uma amiga, que se formou comigo e anda à procura de emprego, perguntei se ela aceitaria voltar para Guarapuava, onde se formou, se conseguisse um emprego aqui. “Ah, acho que não”, disse ela. “É um lugar onde já morei, agora é hora de buscar lugares novos”. Por outro lado, uma outra amiga, que rezou para sair da cidade onde viveu praticamente a vida toda, quando conseguiu, continuou vivendo presa à cidade antiga.
É um estado de descontentamento constante e uma teimosia em olhar para trás da qual já fui vítima, mas hoje não mais me entrego. Não me refiro apenas a cidades, mas também casas, funções e, por que não?, pessoas. Na natureza, os animais saem de um lugar em determinadas estações e vão em busca de condições mais propícias. Eles não ficam parados. Um dia voltam, mas aí já conheceram muitos lugares, já viveram outras experiências. Não voltaram simplesmente os mesmos do que quando partiram. Passei o dia todo tentando me lembrar de uma espécie que nunca, em hipótese alguma, volta ao mesmo lugar de onde partiu. Devo ter assistido pouco à Discovery, pois até agora não consegui descobrir.
Seja lá de que espécie for, da terra, do mar ou do ar, meu sonho é que eu consiga ser como ela. Que passe pelos lugares deixando marcas, mas não com o intuito de voltar a fincar minhas raízes ali. Que eu aprenda a passar, com a certeza de que tenho outros mundos a desbravar. E que se eu precisar revivê-los, que eu volte mais evoluída, como o animal que retorna ao habitat natural ao final da estação ou como a data que completa uma volta de seis anos, considerando os bissextos, antes de voltar para o mesmo dia da semana. Em seis anos acontece muita coisa. Estou tão certa disso como tenho a certeza de que, depois de seis anos aqui, tudo pode mudar.


É tarde, é tarde, é tarde!
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As mãos cheias de giz

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Acordei três vezes durante essa noite. Em todas, certifiquei-me de que ainda não eram 6:50. Cheguei a sonhar que o despertador não tocava e que eu perdia o horário. A ideia de chegar atrasada ao compromisso me deixava maluca. Havia me preparado desde o dia anterior, lendo, relendo, procurando exemplos, simulando o que faria no dia seguinte. Ensaiei bem ensaiado.

No caminho, andava com uma dose de receio. Tentava buscar na memória a ordem das coisas, o que vinha primeiro, o que vinha em seguida. Uma hora parei de pensar. Simplesmente fui me deixando levar.

E me deixando levar cheguei ao destino. Falei com a pessoa responsável, que me indicou a sala onde eu deveria entrar. Respirei fundo, disse bom dia e encarei os olhos que me encaravam de volta curiosos. Fechei a porta e fui falando. As palavras fluíam com uma naturalidade que me espantava. Bem diferente do meu burocrático ensaio. Os olhos continuavam a me fitar, alguns balançavam a cabeça em sinal de aprovação ou de entendimento.

- Professora, aqui está a caixinha de giz.

Oi? Professora? Não, deve haver algum engano. Eu não sou professora, estou professora. Só vim substituir uma amiga que não pôde dar aula e, sabe-se lá por que, resolveu me indicar. Se resolvi aceitar, foi pelo carinho que tenho por ela, não pelo amor à docência. Isso eu nunca tive.

Entretanto, não posso negar que me senti bem ali. Os alunos eram calmos, interessados, fazendo cursinho para conquistar uma vaga em algum concurso público. Na aula, procurei levar exemplos do dia-a-dia, não ficar presa ao material, fazer umas gracinhas, enfim, tornar a aula de domingo de manhã um pouco menos chata. Claro que a minha inexperiência pesou. Afora as aulinhas que eu dei para minhas bonecas na infância, só entrei na sala de aula na faculdade de Letras, que fiz junto com Jornalismo. E sempre deixei muito claro que seria jornalista e que a licenciatura ficaria em segundo plano na minha vida. Ou melhor, em nenhum plano, porque nunca pretendi exercê-la.

Na época do estágio obrigatório, o que me lembro bem é da angústia que me acompanhava em cada aula. E das noites anteriores, regadas a café, livros, apostilas, internet e vontade de mandar tudo para o espaço. Quando chegava à escola, tentava me manter calma, mas o pânico transparecia na minha face. E quando começava uma aula, dizia para mim mesma: são só 50 minutos, só 50 minutos, passa rápido. Nem sempre passava. E no final eu me sentia esgotada, por ter falado igual a uma matraca. As aulas e o desejo de morte me acompanharam nos dois últimos anos da graduação.

No último, acabei fazendo uma pós, cujas aulas batiam com o tempo que deveria ser dedicado ao estágio. No final das contas fiz a disciplina na turma da manhã e acabei ficando sozinha, enquanto todo mundo dava aulas em dupla. Graças às minhas súplicas, consegui fazer umas gambiarras e dar aulas em dois colégios diferentes, para adiantar o fim. Um era particular, considerado de elite, outro era público, voltado ao ensino profissionalizante. O contraste entre as duas escolas poderia ser considerado encantador para qualquer fera no ensino, mas, para mim, só significava dor de cabeça e esforço para me adequar a cada estabelecimento.

Sobrevivi, ao final. Consegui ainda cumprir o estágio com umas três aulas a menos. Tudo fazendo cara de dó e sem peso na consciência. Para mim, o estágio era uma mera formalidade para se conseguir o segundo canudo. Eu passava pelas aulas como quem cumpre uma tarefa obrigatória. Dava graças a Deus quando terminava uma aula.

Sempre acreditei piamente que não servia para ser professora. Me perdia na chamada, aspirava pó de giz, escrevia tudo torto no quadro, passava a mão suja de giz na minha roupa preta, não dizia em voz alta o número da página em que eu estava lendo, desandava a falar.... A didática não está no meu sangue e eu admiro quem a possui. Mesmo assim, consegui uns elogios da professora regente, que disse que eu tinha “perfil de professora”.

Não, minha querida, você deve estar enganada. Tudo, menos professora. E falava isso não somente pela minha escolha, mas por pensar no bem dos alunos.

E depois de um ano, voltei à sala de aula. Não foi traumatizante. Após as quatro aulas dadas, era hora de devolver a caixinha de giz. Entreguei-a ao coordenador, que me fez esperar.

- Preciso pegar seu telefone. Talvez uma professora desista e a gente precise chamar alguém.

“Não, obrigada”, pensei em dizer. E me deparei com uma das minhas “alunas” ao nosso lado.

- Você tem disponibilidade para assumir aulas? – perguntou ele, incisivo.

- Ela é uma ótima professora – disse ela, olhando para mim.

Pensei em dizer que ela também estava enganada. Mas por fim, dei o telefone.

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