Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de Março, 2009

Tem certeza de que deseja apagar definitivamente essas mensagens?

Eu hoje joguei tanta coisa fora e vi o meu passado passar por mim. Já ouvi trilhares de vezes a música do Paralamas, mas nunca, em nenhuma limpeza no armário, em nenhuma faxina nas gavetas, senti o passado correndo à minha frente como hoje. O que passou, percebi, uma vez que não havia sido descartado – da memória virtual e da real - continuava existindo, aguardando em um local desabitado, mas ainda pujante. Hoje mandei um passado comprido embora de mim.
É que resolvi limpar, pela primeira vez com rigor implacável, minha caixa de e-mails. Levei um tempo, mas ao final, foi-se embora uma leva de recordações e ficou uma certeza: não quero mais guardar em excesso.
Metaforicamente, sei que guardo rancores, conservo pessoas que não valem tanto a pena e preservo aversões no fundo do meu baú. Nunca percebi como, literalmente, também deixo arquivados nos armários, nas pastas, nas estantes, nas gavetas, nas caixas – virtuais ou reais – muitos pedaços que não são mais e não poderão mais voltar a s…

Pêndulo

Demorei, vejo hoje, a aprender diversas coisas
Tardei a pegar um carro, adiei por anos o curso de inglês
E essas coisas agora me faltam
Por medo, falta de dinheiro ou de coragem
Deixei planos para trás, professores sozinhos nas salas
Ficou para um dia, quem sabe

Cedo demais, contudo, fiz outra tantas
Terminei graduações com avidez, estudei e li demais
(o que não quer dizer que aprendi o bastante)
Hoje é difícil para assimilar novas coisas
É penoso também dar cabo em projetos
Porque, ao meu ver, começar algo torna-se complexo

Não é mais tão fácil como antes parecia ser
Aprender um idioma, ler um livro, terminar um bordado
Tudo isso me cansa só de pensar
E, assim, até pequenas coisas viram passíveis de desistência
Vejo-me, paralisada, entre a procrastinação e a pressa
Uma se move lentamente, deixando para depois
A outra avança, na ânsia de abandonar os inícios

Percebo que em algum ponto as duas se encontram
No irrepreensível desejo de terminar
Na fatalidade de deixar as coisas para trás
O ponto em que elas…

Uma garça incomoda muita gente. Vinte garças incomodam, incomodam...

Meu irmão leu o último texto e comentou por e-mail. Disse apenas: “deveríamos ter tirado mais fotos, principalmente das garças”. Tive que concordar. Essa é uma das histórias que mais arrancam gargalhadas quando a família se reúne.
Faz parte do rol de ideias total sem noção do meu pai. Um dia ele chegou em casa contando que teve uma visão. Viajava pela estrada e de repente enxergou. “Parecia uma miragem”, ele dizia. Uma árvore, solitária no meio da estrada deserta, muito semelhante ao grande ipê que tínhamos no quintal de casa. E meu pai contava, olhos marejados, que em todos os galhos havia garças, dezenas, ou centenas, quem sabe. E, sei lá por que, a árvore se tornava mágica por isso.
Ele comentou que queria que a nossa árvore também tivesse garças pousando em seus galhos. Ninguém deve ter escutado. Mas deveríamos.
Dias mais tarde ele carregou meu irmão e minha mãe. A tal da árvore ficava perto da nossa cidade. Ele queria compartilhar a visão com mais gente.
A partir daí segue o relato …

Da província

Primeiro foi a cidade onde nasci, mas nunca morei. Eu cresci mesmo na outra, que apelidei carinhosamente de província. Cheguei nela aos três dias de vida, momento em que eu comecei a construir minha vida no pedaço de terra que aprendi a chamar de cidade natal. Fui à escola, brinquei, sozinha e com amigos, muitos dos quais permanecem aqui em corpo ou alma. Embora meus pais firmassem cada vez mais suas raízes na cidade, eu sempre soube que meu destino não seria o mesmo. Uma vez li uma frase que dizia mais ou menos assim: A província é o lugar de onde você quer desesperadamente sair, e saindo, quer voltar. As pessoas sempre me perguntam se eu pretendo voltar. Não. Além dessa certeza, tenho outra. A de que preciso voltar para cá com frequência para abastecer minhas forças. Antigamente eu voltava para lavar a roupa, fazer compras. Hoje eu sei que eram só desculpas. Eu volto para a província porque aqui me sinto protegida, porque gosto de me sentir em casa, embora seja uma visita. Mas quand…

Sobre o que arrefeceu

No sentido restrito do dicionário, arrefecer é tornar-se frio; perder a energia; acabar o vigor. Olhando para trás na minha vida, vejo que o que arrefeceu é aquilo que, simplesmente, deixei morrer em mim. Como aquela vontade de levar os planos adiante, que, como uma senhora idosa saindo da missa, andava tranquila na rua certa de que chegaria em casa e, de repente, deu dois passos e pá, caiu dura e lesa ali mesmo. Nada de tão fatídico, mas é quase isso. Meus arrefecimentos se dão de uma hora para outra, assim como um assoprão em uma vela, e não como o novelo que se desmancha aos poucos.
Entre as pessoas que conheço, sou a que mais faz planos. Culpa do meu Marte em Virgem, diz uma amiga minha. Minha mãe conta que eu nasci quase um mês depois do que previra o médico. Eu digo que é impossível, mas ela jura de pés juntos. Vai ver que meu desejo de nascer arrefeceu em mim, antes mesmo de se concretizar. Da mesma forma que eu me vejo arrefecendo diante dos planos de viajar para o exterior, da…

A menina que já fui um dia

Pessoas mais novas me despertam certa curiosidade. Meninas, particularmente. Talvez porque eu tenha a mania de me reconhecer nelas. Faço isso com a minha irmã direto. Mas com ela a genética favorece, admito. De qualquer forma, olhando para elas costumo me deparar com a menina que eu já fui um dia. E vejo que as dúvidas são as mesmas, os problemas de relacionamento são os mesmos, as desavenças familiares são as mesmas, as experiências, inevitavelmente, acabam sendo as mesmas.
A adolescência, enfim, parece ser a mesma, desde que o mundo é mundo. E conhecer uma adolescente de 17 anos, que aliás, hoje faz 18, confirma ainda mais minha hipótese.
Não que sejamos parecidas. Longe disso. Mas há uma roda viva que une todas as mulheres em uma constante. Não dizem que somos particularmente iguais? Pois é.
Essa menina se queixa para mim de coisas pelas quais eu também já me descabelei um dia. A mãe que não a entende, o irmão ríspido, a vontade de sumir pelo mundo, as rixas com as amigas... Tudo is…

Sunday’s sunset

Há diferentes tipos de saudade. Todas costumam doer. Principalmente aquelas nas quais se sabem as ausências inevitáveis. Pessoas que morreram, amigos além mar, amores que vão e não deixam a promessa de voltar.
A saudade que me dói, particularmente hoje, é de alguém que surgiu rápido e cuja existência foi intensa. Alguém de quem eu senti falta após a curta temporada de presença constante. Porém, quando voltou do período distante, não veio o mesmo do que quando partira.
Fomos, aos poucos, nos afastando. Primeiro devagar, mas depois, com o tempo, os abismos foram ficando mais profundos. A distância entre uma rocha e outra passou a ser tão grande, que fomos nos cansando de tentar alcançar o outro lado.
Nisso tudo, o que me dói é a vontade que me dá, constantemente, de ter ao meu lado um alguém que se esforça para ficar tão distante. E me dói ainda não saber sequer o porquê desse desejo.
Nas tardes ociosas de domingo, lembro de um tempo de convivência diária, que embora me pareça tão antigo, …