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Todo errado

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Tatiana

Faz pouco mais de um ano que dividimos a mesma casa, então, acho que é hora de eu compartilhar com você um pouco sobre o que penso e esclarecer algumas coisas.
Primeiro de tudo, minha cara. Eu não sou psicopata e odeio que você me chame assim. Meu comportamento, que você insiste em classificar de mau, chama-se energia acumulada. Ou você pensa que é fácil ficar o dia inteiro preso dentro de um apartamento, procurando pseudobrinquedos para me divertir? Passo minhas horas me dividindo entre a procura de insetos, que ora eu mato, ora eu como, ora eu apenas me divirto torturando-os e me divertindo com sua agonia (ok, eu não sou psicopata, foi uma brincadeira); treinamento de abertura de portas (já estou ficando craque) e intermináveis cochilos. Como uma pessoa depressiva, espero que minhas horas sozinho passem mais rápido no reino de Morfeu. Acredite, sem Lexotan fica bem mais difícil. Não posso negar que eu já pensei em me jogar daquela janela muitas vezes, mas confesso que a criancinha loura que me espera lá embaixo, caso eu sobreviva à queda, não me atrai.
É por isso que à noite, quando você chega, eu insisto em brincar. Sim, é realmente brincadeira o que eu tento fazer com você, mesmo sem a sua reciprocidade. Quando eu me escondo em um lugar e espero você passar para pular sobre suas pernas, ao contrário do que você pensa – quando diz que é para eu parar de te sabotar – é pura marotice de gato filhote. Embora você esqueça disso, eu ainda sou filhote. E o chocalho que você comprou e a caixinha de papelão que você fez para mim – não que eu não seja grato, longe disso – são insuficientes. Às vezes, o que eu quero é calor humano. Por isso que eu tento abrir a porta do seu quarto para dormir com você – sob uma chuva de xingões e chinelos arremessados.
Eu não sei o que aconteceu com minha outra dona, mas sinto saudade. E acho que ela ficará bem chateada quando voltar e descobrir que você se apossou do quarto dela. A outra moça que mora lá em casa é legal. Descobri que se eu não entrar no quarto dela, não miar e me fingir de morto - de preferência no chão, porque no sofá eu encho tudo de pelo – fica tudo bem entre nós. Ela conversa comigo quando está sozinha e acho que no fundo a solidão de ambos acaba nos aproximando. Pode ser que alguém dia eu também a chame de dona, por que não?
Assim, o que eu queria dizer mesmo é que a gente pode ter uma convivência pacífica se nos aproximarmos mais. Teremos que passar por cima de algumas coisas, claro. Eu sei que você jamais vai esquecer a mordida no seu braço (eu sinto, quando vejo a cicatriz feia que ficou, um certo peso na consciência) e ainda não engoli a história da castração, mas acho que mesmo assim a gente pode conviver numa boa.
Eu gosto de você. Se não fosse assim, não miaria quando escuto barulhos na escada, acreditando que é você que chegou para me salvar das garras da solidão. Também não ficaria triste quando vejo você arrumando as malas, porque sei que você irá a algum lugar onde minha presença não é bem-vinda. Aquela vez que você me levou para passar férias em outro apartamento, pensei que nunca mais iria te ver. Senti saudade e sei que você sentiu também, pela forma “Felícia” de você me apertar na volta. Também acho que você gosta de mim. Embora você tenha uns surtos de vez em quando, me agarre pelo rabo (odeio, da próxima, me peça com educação para eu sair debaixo da sua cama) e tenha oscilações frequentes de humor (não, eu não sou veado, só fico perto dos homens porque eles não apresentam a revolução hormonal típica das mulheres que, confesso, me deixa irritado). Por fim, gostaria de te pedir desculpas pelas coisas quebradas, pelas comidas devoradas, pelos arranhões, pelas mordidas, pelas bacias sujas, pelas calças desfiadas. Como disse, coisas de filhote. Quando eu for um gato velho e obesoide e ter como única atividade tomar sol e dormir no sofá, você sentirá falta, sei que vai.


Seu gato, Polaco (não era para rimar)
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Constantemente de partida

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- Odeio despedidas.
- E o pior, Tati, é que a gente tá sempre nessa de estar partindo.

Isso dizia muito. Ainda mais porque a frase era proferida em uma rodoviária, ponto de partida, em todo sentido dúbio dessa palavra. Nos nossos reencontros sempre recomeça um pedacinho do mosaico da nossa amizade. Ao partirmos, separadas, sempre fica um nó na garganta, pela falta que sobra, sem saber quanto tempo vai demorar para que um novo encontro aconteça. É assim que tudo parte da rodoviária e como num círculo sempre termina nas plataformas dos ônibus, com as passagens na mão. Há dois anos nos conhecemos, mas nunca moramos no mesmo lugar. Nossa amizade sempre foi assim, de passagem.
É na rodoviária que geralmente vem o abraço apertado, do reencontro após tempos sem vê-la. Mesmo assim, é como se compartilhássemos toda uma vida. É como se ela soubesse dos meus temores de criança, como se ela tivesse impressa em mim, muito mais que a mescla de lembranças que guardamos no nosso álbum comum de fotografias.
No desespero do que é para ontem, no vazio de uma imensidão de vida pela frente, a qual a gente não sabe ao certo como manejar. Na vontade de ter um surto psicótico, no querer ao outro sem se doar, na tentativa de decifrar as mensagens cifradas que nos chegam, no papel desempenhado por nós mesmas que não queremos mais sustentar diante dos outros.
Tudo isso é muito comum, em se tratando de nós duas. Arrisco. Pode ser que, acima da amizade pingada, tudo em nossas vidas também carregue um quê de efemeridade. Tudo é meio suspenso, meio incompleto, meio, diria até, superficial.
A convivência nunca foi intensa e deve ser por isso que eu tenho medo de perder minha grande amiga, porque dela eu não sei tudo, mas nem é preciso. Porque sempre um pedaço dela irá me faltar. Mas encontrá-la de passagem é remédio homeopático para minhas dores, para aquela alegria abafada, para me ver refletida nela como a gente se reconhece em um espelho, mas um reflexo multifacetado, um caleidoscópio, porque são muitos retalhos e muitos os recortes misturados. São eles que juntos fazem sentido. São eles que fazem de nós duas uma dupla inseparável.
Tenho certeza, amiga, de que é para a vida toda.
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A um passo da perfeição

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Sou uma revisora. Tentei explicar isso para minha companheira de apartamento, 18, não muito adepta a leituras. “É assim. A matéria vem, eu leio no computador. Aí mando para a diagramação. A página volta diagramada para mim, impressa, e eu corrijo-a novamente. Entendeu?” “Ai, que chato. Então você tem que ler o jornal inteiro duas vezes?”. Respondi que sim. Fiquei com vontade de acrescentar: Não é chato, mas é uma profissão meio ingrata. A uma revisora é exigida a perfeição. Embora todo mundo seja passível de erros, embora errar seja humano, embora ninguém seja perfeito – como a gente escuta à boca miúda – uma revisora não pode errar. Ela é a última chance. Ela confere. Ela revisa. Ela descobre que os olhos são traiçoeiros. E a gramática mais ainda.
Já engoli broncas a seco porque deixei passar coisas escabrosas. Pior que qualquer bronca, é a raiva de si mesma, pelo erro escroto. Mas Senhor dos Passos, não estava assim a hora que eu vi, tenho certeza que não. Contudo, está lá, a prévia, a prova irrefutável da sua derrota, com aquela palavrinha bandida escrita erroneamente.
Não era ronking, filha de Deus. Era ranking. E no título ainda. Como que pode? Um w intrometido que apareceu grudado em uma palavra, sem nenhuma razão de estar ali. Olhos, olhos, por que me abandonaram? Crases sem sentido, créditos trocados, erros, erros, infinitas falhas. Algumas consegui captar antes que a página fosse embora, antes do irremediável Ok. E respirei aliviada: Cristo, graças que eu vi. Já achei “empresas locas” ao invés de locais. Quem ia explicar que não se tratava de uma insanidade coletiva do empresariado? Mesmo assim, revisora anta, faltaria um u.
Confesso, acho que melhorei. Meu coração ainda acelera quando eu entro na sala logo cedo. Se em cinco segundos lá dentro não ouço nada, ufa, deu tudo certo. Passei por mais essa prova. Um desafio diário. Literalmente. Mas confesso, ainda folheio o jornal com o coração disparado.
O pior é a chatice. Toda revisora é chata ou ainda vai ser. Leio um texto qualquer e se identifico um erro, aquilo me incomoda. Juro que tenho medo de virar neurótica. Não, não cheguei ao ponto de imaginar o acento do européia (que não existe mais, porque agora, com a reforma, é europeia) correndo atrás de mim. Mas ao ler alguns erros aquilo fica me cutucando, como se só fosse parar se eu canetiasse (neologismo) com a bic azul uma flechinha puxando para o termo correto, ou uma bolinha em cima do que está sobrando.
Tem muita gente que não imagina que haja revisores em jornais. Devem pressupor que os textos nascem por conta, sem nem mesmo repórteres e são teletransportados magicamente para as páginas, sem diagramadores, e estas são levadas magicamente para as máquinas e assim, tchanammm, o jornal nasce. Ou há os que sabem, dãr, da existência dos repórteres, dos editores, dos diagramadores, dos operadores das rotativas, mas esquecem dos pobres revisores. Uma corja mesmo relegada ao esquecimento. Se deu tudo certo, não fez mais que sua obrigação. Parece a minha mãe falando quando eu me gabava de ter tirado a maior nota da sala em Matemática. “Mas mãe, matemática é difícil”. “A única coisa que você faz é estudar, menina. Então que faça bem feito”. Bem feito rima com perfeito? Acrescente aí sem erros, sem gorduras, sem espaço sobrando, sem ambiguidades, com créditos, tudo padronizado, com nomes corretos, diagramação redondinha, interessante, texto gramaticalmente correto, esteticamente bem colocado. "Está ouvindo, revisora?" "Ah, estou anotando". Esqueci. Tem que ser ágil também.

*Se alguém encontrar erro de qualquer espécie, entre em contato. Revisar o próprio texto é desafiar a capacidade de detecção dos meus olhos miúdos.
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Mão abanando ou burocráticas sagas

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Deixo bem claro a mim mesma que não sou daqui. Que aqui vivo só de passagem. Não pertenço a esse lugar e tudo que me faz fincar as raízes nesse chão me assusta. Decorei alguns caminhos, conheço muita gente, arrumei trabalho, mas ao menor sinal de que ficarei aqui, como tenho ficado, há seis anos, traz uma sensação de desespero. Não, essa estrada que passa rente dessa cidade é muito longa e ela me levará algum dia, sei que sim, para um lugar bem longe. E não apenas de passagem. E não apenas para voltar no inevitável domingo à noite.
O mau humor é explicado pelas últimas noites de (pouco) sono, por causa de confraternizações diversas madrugadas adentro. A última me deixou de lembrança duas horas de sono mal dormidas, um desejo de não ter fígado e a sensação de que tudo anda conspirando contra o meu ser.
Eu deveria ter desconfiado que o dia não poderia ter começado melhor quando levei fumo do cobrador de ônibus porque só tinha uma nota de R$ 50. O vivente teve a capacidade de me dizer que se não achasse troco no terminal, eu teria de ficar esperando até ele encontrar. Já me imaginei ligando para minha chefe e dizendo que não poderia sair do terminal por causa de R$ 47,80, numa versão pobre e nada glamourosa do filme O Terminal, com a diferença que eu compartilhava a mesma língua das pessoas em volta. Fiz uma cara de poucos amigos, olhei atravessado e o cobrador acabou me tratando como se ele tivesse cometido um erro grave.
Mais tarde, descobri que não se tratava de impressão a história do dia péssimo. Catei o suadinho dinheirinho que meu pai me mandou para dar entrada na carteira de motorista. Sim, porque ter 23 anos na cara sem poder pegar o carro do pai pra comprar pão é privilégio de poucos. Porque na real eu gosto de andar de ônibus e encarar cobrador fulo da vida sem troco logo cedo. É, bem isso.
Lá fui eu para a autoescola, torcendo para ter o CPF na carteira, porque eu sou campeã em ficar horas na fila para perceber, cabeça fervilhando, que esqueci o fundamental para dar cabo ao que fora fazer ali.
Resumo da ópera, estava com a identidade e o CPF bonitinhos até que ouvi o outro documento necessário. Aquele, que sempre me agarra, passa uma corda em volta das minhas mãos com nó de escoteiro grau de dificuldade nemomestresabedesamarrar e me deixa assim, de mãos atadas (e depois abanando).
- (leia-se em slow motion, voz idem) M-O-Ç-A, O C-O-M-P-R-O-V-A-N-T-E D-E E-N-D-E-R-E-Ç-O-O-O-O.
Isso sempre me destrói. Só Deus sabe o quanto eu já sofri por não conseguir dar entrada em papéis no banco, no trabalho, em setores diversos, porque eu sou praticamente uma clandestina aqui. Parece que sou imigrante em situação ilegal. Eu poderia ir embora que seria como se nunca tivesse existido sobre essa terra de lobos bravos.
- Sem o comprovante, não dá - Disse o cara, com uma cara de “que dó, perdi uma comissão”.
- Eu tenho uma conta de luz. Mas não está no meu nome, é da proprietária do apartamento. (Já vou logo adiantando a história porque conheço todos os entraves).
- Não, o Detran não aceita.
- E o contrato do aluguel? Está no meu nome (bradei como quem dá a cartada final).
- Está registrado em cartório? Porque o Detran só aceita... espera aí, eu tenho isso em algum lugar, ah sim. Só aceita contrato de aluguel para comprovar endereço devidamente re-gis-tra-do em car-tó-rio. (Sim, ele ia silabando e seguindo com o dedinho o que estava escrito em um papel encadernado.
- Quanto custa para registrar... (essa bosta, era minha vontade de completar)?
- Uns R$ 100. Não vale a pena.
- (Cara de serááá que não vale?)
- Nenhum banco te manda correspondência? Qualquer uma serve. O Detran autoriza com carta expedida por órgão oficial até 90 dias antes de você dar entrada na carteira. De banco, da prefeitura... Fatura do cartão, nada?
- Moço, minha conta é da minha cidade. Fiz quando vim morar para cá. E acabei de notar que não sou importante, porque a prefeitura nunca me mandou uma carta.
- Ah, mas você faz faculdade, né? Olha, aqui, o Detran aceita comprovante de matrícula.
- Já me formei.
- E pós?
- Ah, até pós eu já terminei.
- E título de eleitor, moça?
- Não é daqui. É da cidade onde eu morava antes.
- Há quanto tempo você disse que mora aqui?
- Não disse. Seis anos (tentei ignorar a cara de “por que você não transferiu essa porcaria de título então, criatura?”)
- Tente transferir. Título o Detran aceita.
- Nisso, entra um velhinho e se mete na conversa. “Porque não sei o quê, não sei que lá, é rapidinho para transferir. Você é de onde? Ihhh, Santa Catarina? Lá a carteira custa uns R$ 1.200, ihhh vai sofrer pra tirar lá”.
Minha vontade era perguntar se aquele ancião não tinha nada para fazer além de me importunar. “Olha, vô, fiquei sabendo que tem vacina da gripe de graça ali na esquina. Vai lá, vai”.
- Moço, me diz que o Detran pensou em pessoas como eu e tem outro jeito, diz?
- Carteira de trabalho? Se a empresa for daqui, tudo cierto.
- Não, a empresa está registrada em outra cidade.
- Ah, mas aí o Detran não aceita.
Nessa hora eu já estava com raiva de ele estar tratando o Detran como se fosse uma entidade. Uma entidade infernal, que não aceita nada. O Detran não tem uma face boa?
Quando o cara ameaçou pegar o papel para me mostrar o que era ne-ces-sá-rio eu falei:
- Então tá bom, moço. Vou tentar transferir o título. Se não der, transfiro a conta de luz para meu nome. Se ainda não der, vou lá na Caixa Econômica implorar para eles me mandarem um cartão de Dia das Mães pelo Correio.

Quem sabe o Detran não aceita se eu levar fotos minhas desde 2003, quando me mudei para essa cidade? Tenho umas no Lago, na Lagoa, em pontos turísticos diversos, enfim. Mas aí o Detran pode alegar que eu sou turista, né? Posso responder um questionário sobre conhecimentos gerais relativos a Guarapuava. Aposto que acerto tudo. Posso até procurar na polícia, tem um BO em meu nome de uma festa que eu dei e os vizinhos reclamaram. Será que o grande olho que tudo vê e quase nada aceita do Detran acredita que eu moro aqui há seis anos?
No próximo dia útil vou fazer tudo de uma vez. Vou transferir o título, passar a conta de luz para o meu nome, tentar fazer a Caixa Econômica me eleger a cliente do ano e me mandar uma cartinha de congratulações. Quem sabe um dia eu não ganho uma placa de cidadã honorária? Será que o Detran reconhece e me deixa dirigir em suas nobres ruas?
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Frustração

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Imagine uma senhora puritana, acostumada a repreender tudo à sua volta. Entregue às rezas, aos bons costumes e a condenar todos ao mármore do inferno. É a minha tia. Ora sim ora não acredito que há um coração batendo naquele peito, mas como ela nutre uma certa animosidade contra minha família (e falo aqui de núcleo familiar, pai, mãe e filhos), eu não consigo me segurar.

O sonho dela é me ver grávida, e é claro que sem um marido. Ela pretende se vingar do fato de a filha dela ter voltado para casa sem se formar e com um diploma na barriga. Tá, talvez se vingar seja uma palavra muito forte. Mas ela quer ter o gostinho de esfregar na cara da minha mãe que ela não soube me educar direito. Mesmo sem nunca minha mãe ter falado (ou pensado) algo próximo disso a ela.

Toda vez que a gente se encontra, essa minha tia dá um jeito de ressaltar que eu preciso me cuidar. Se eu, porventura, reclamo de qualquer enjoo, ela não perde a oportunidade de fazer uma brincadeirinha infame.

A última vez que nos vimos foi ontem.

- Oi tia, quanto tempo.

- Pois é. E como você está?

- Então, né, tia. Meio gordinha.

- Ai, Meu Deus - e o sorriso dela se abriu - O que é isso?? – disse ela, com o olhar brilhando contemplando minha barriga.

- Excesso de comida, tia.

A alegria logo acabou.
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Cara de pau

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Tenho a mais absoluta certeza de que minha família me considera cara de pau. Longe de me envergonhar, também não considero isso uma insígnia. Às vezes penso que eu até os decepciono, quando não consigo certas coisas, ou me calo. Mas, em geral, prevalece a ideia que eu deveria passar óleo de peroba na cara.
Meu pai fica indignado quando eu ligo para o taxista a cobrar. “E olha aqui, na agenda do celular dela o telefone dele já tem 9090 na frente!”. “Mas pai, ele que pede para eu ligar a cobrar. Ele não se importa”. “Aham”. E fica aquela palavra meio suspensa na boca, que não é dita pela falta de coragem de admitir que a filha dele é, sim, uma sem noção.
Eu tenho um sério problema com pontualidade e minha família também sabe disso. Muitos dos horários de ônibus para viajar até minha cidade são de manhã cedo, cedíssimo. Quando eu consigo pegar o ônibus, eles consideram uma exceção, uma vitória, eu diria. Quase sempre a pergunta é:
- E aí, qual é o horário do ônibus que você vai perder amanhã?
Ou então meu pai, a 230 km de distância, diz que vai me acordar. Aí ele coloca o relógio para despertar e me liga 30 minutos antes de o ônibus sair.
Mas anteontem quis me superar. Planejei pegar, linda e graciosa, o busão das 6h30. Uma dormidinha que dei foi o suficiente para ser abduzida e acabar sendo acordada às 8h, pela minha colega de apartamento. Liguei para casa e todo mundo já sabia. O grande problema (e dessa vez eu os surpreendi) é que eu tinha comprado a passagem antes. Eu nunca compro a passagem e essa é a regra. Talvez por medo de perder o dinheiro, mas também porque eu nunca atento para esses detalhes. A história sempre se repete. O taxista amigo meu (o que eu ligo a cobrar), quando estamos a 7 minutos do horário de saída do ônibus e a muitos quilômetros de distância da rodoviária, esforça-se em encontrar a cada corrida um atalho novo para economizar tempo. A certa altura ele olha para mim e pergunta de testa franzida, antecedendo a resposta:
- Você não comprou a passagem, né?
Aí ele me joga o próprio celular para eu pedir ao cara da empresa de ônibus para adiantar o serviço e retirar uma passagem, além de segurar o ônibus.
Dessa vez eu quis garantir lugar. Comprei cinco dias antes, praticamente um desafio à lógica racional das coisas de Tatiana. Às 8h de sexta, diante da dura realidade do ônibus que se fora sem mim, tudo que eu pensava era: Lasqueira, perdi o dinheiro. Tentei argumentar, na cama ainda, pelo telefone, com o pessoal da empresa de ônibus, que me respondeu que eu deveria ligar depois, para falar com o gerente. Era contra as regras, mas vai que dava para transferir sem ônus? Só eu poderia saber, ligando mais tarde.
Resolvi checar se dava ao vivo. Cheguei uma hora antes do próximo ônibus que tinha vagas. Apareci na rodoviária com a malinha na mão e a cara mais lavada do mundo. O atendente olhou para mim e depois de duas palavras minhas ele apontou para um cara de camisa listrada. O gerente.
- Moça, já te explicaram hoje de manhã. Você explicou, né? - E o atendente balançou a cabeça positivamente – Não dá mesmo.
- Mas não tem como?
- A sua poltrona foi vazia hoje cedo – disse, rápido e rasteiro.
- Mas em muitas viagens, inúmeros lugares vão vazios.
- Eu sei, mas não no feriado. Alguém não pôde ir, porque você comprou uma passagem e não a utilizou.
Notei que ele queria me comover, apontar minha enorme culpa, tão grande culpa.
- Mas é injusto eu comprar outra passagem – tentei a cara de vítima, nível 5.
- Sim, mas é que a gente não tem culpa. O ônibus estava aqui no horário para o qual você comprou. Você que se atrasou.
- Não tem jeito mesmo? Nenhum? – e nessa hora, como diria meu pai: o truque da cabeça para o lado. Segundo ele, é só eu baixar a cabeça para o lado, em direção ao ombro, que eu consigo tudo o que quero. Tiro e queda.
O gerente me olhou e torceu a boca. Meu último argumento, na bala da agulha, era: Moço, veja bem... É Páscoa! Não precisou.
- Ta bom, vou quebrar essa.
- Muito obrigada, moço! Essa foi a primeira e última vez que vou perder um ônibus!

Talvez minha família tenha razão.
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Flashes

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- Olha esse poema.
- Meu Deus, você é cheia dos poemas.
- É, eu sou uma moça muito "poemática".
- Problemática, você quis dizer.
- Talvez.

...

- Nossa, eu nem sei onde eu tava nesse dia.
- Acho que nos meus sonhos.
- (risos) Ah é, e onde eu estou agora?
- A um passo de concretizá-los.

...

- Sério, chego a pensar que não mereço a atenção de alguém como você.
- Alguém como eu? Explique.
- Uma pessoa que eu considero determinada e inteligente. E que por isso me cativa.
- Pena eu nunca saber disso.

...

- Bobo.
- Sabia que eu gosto quando você me chama assim? Vai ver que sou bobo mesmo.
- É, o adjetivo lhe cai bem.

...

- Você conhece aquela crônica: O Amor Acaba?
- Não, mas o amor não acaba.
- Acaba sim.
- Não, não acaba.
- Acaba.
- Não acaba.
- Acaba, eu sei que acaba.
- Um dia eu vou ler essa crônica e escrever uma outra, para te convencer do contrário.
- Escreva agora.
- Tá.

...

- Onde será que estão todos?
- ...
- Será que estão lá fora?
- Você quer casar comigo?
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Casablanca

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Nossa história não daria um filme, nem uma novela
Um caso engraçado, talvez uma piada
Que passa, míngua, mas não acaba
Uma vez que é alimentada dia-a-dia
Na esdrúxula comparação com uma plantinha
Regada todo dia
Com fel

Um dia eu enxerguei mel
E imaginei, como tudo a que sou habituada
Que a história poderia ser continuada
Um conto de amor, ou mais que uma noitada
E saltitei rumo à abelhinha
Romântica doída de dar dó
Me ferrei com seu ferrão

Hey, boy, não te quero mais
As linhas das mãos estão todas atrapalhadas
Tudo em mim já se esgotou de se acabar
Você já cansou de me desconhecer
Partirei rumo à terra dos desiludidos
Ferrados, coitados, fudidos
Para onde terminam os casos de amor abortados

Lá verei que outros acabaram
Depois das possibilidades atravancadas
Vejo os casais que poderiam ter sido
Mas, pela desgraça de um fado
Não foram, ora bolas
Porque fez sol, porque fez chuva
Os dados rolaram, as fichas são outras
Demorou para decidir, amour, au revoir!

Não é porque teve cotovelos demais
Não foi por causa do começo sem paz
Nem pelas minhas inesgotáveis tentativas
Muito menos pela falta de respostas
Tampouco pelo que você fala e eu não escuto
Ou quando eu falo e você não entende
Sabia que os sobrenomes não combinam?

Já cruzei nossos mapas astrais
Incompatibilidade total
Você daria um bom pai, talvez um avô ranzinza
Um péssimo companheiro de viagens
Seu ombro é meio duro para recostar a cabeça
E você parece ser do tipo que controla gastos
Mas não, não é isso

É que nós jamais, jamais, jamais teremos Paris

*Agradecimentos a Lucas Guedes, que me apresentou Tiê e essa canção.
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