Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de Abril, 2009

Todo errado

Tatiana

Faz pouco mais de um ano que dividimos a mesma casa, então, acho que é hora de eu compartilhar com você um pouco sobre o que penso e esclarecer algumas coisas.
Primeiro de tudo, minha cara. Eu não sou psicopata e odeio que você me chame assim. Meu comportamento, que você insiste em classificar de mau, chama-se energia acumulada. Ou você pensa que é fácil ficar o dia inteiro preso dentro de um apartamento, procurando pseudobrinquedos para me divertir? Passo minhas horas me dividindo entre a procura de insetos, que ora eu mato, ora eu como, ora eu apenas me divirto torturando-os e me divertindo com sua agonia (ok, eu não sou psicopata, foi uma brincadeira); treinamento de abertura de portas (já estou ficando craque) e intermináveis cochilos. Como uma pessoa depressiva, espero que minhas horas sozinho passem mais rápido no reino de Morfeu. Acredite, sem Lexotan fica bem mais difícil. Não posso negar que eu já pensei em me jogar daquela janela muitas vezes, mas confesso que a crian…

Constantemente de partida

- Odeio despedidas.
- E o pior, Tati, é que a gente tá sempre nessa de estar partindo.

Isso dizia muito. Ainda mais porque a frase era proferida em uma rodoviária, ponto de partida, em todo sentido dúbio dessa palavra. Nos nossos reencontros sempre recomeça um pedacinho do mosaico da nossa amizade. Ao partirmos, separadas, sempre fica um nó na garganta, pela falta que sobra, sem saber quanto tempo vai demorar para que um novo encontro aconteça. É assim que tudo parte da rodoviária e como num círculo sempre termina nas plataformas dos ônibus, com as passagens na mão. Há dois anos nos conhecemos, mas nunca moramos no mesmo lugar. Nossa amizade sempre foi assim, de passagem.
É na rodoviária que geralmente vem o abraço apertado, do reencontro após tempos sem vê-la. Mesmo assim, é como se compartilhássemos toda uma vida. É como se ela soubesse dos meus temores de criança, como se ela tivesse impressa em mim, muito mais que a mescla de lembranças que guardamos no nosso álbum comum de fotografi…

A um passo da perfeição

Sou uma revisora. Tentei explicar isso para minha companheira de apartamento, 18, não muito adepta a leituras. “É assim. A matéria vem, eu leio no computador. Aí mando para a diagramação. A página volta diagramada para mim, impressa, e eu corrijo-a novamente. Entendeu?” “Ai, que chato. Então você tem que ler o jornal inteiro duas vezes?”. Respondi que sim. Fiquei com vontade de acrescentar: Não é chato, mas é uma profissão meio ingrata. A uma revisora é exigida a perfeição. Embora todo mundo seja passível de erros, embora errar seja humano, embora ninguém seja perfeito – como a gente escuta à boca miúda – uma revisora não pode errar. Ela é a última chance. Ela confere. Ela revisa. Ela descobre que os olhos são traiçoeiros. E a gramática mais ainda.
Já engoli broncas a seco porque deixei passar coisas escabrosas. Pior que qualquer bronca, é a raiva de si mesma, pelo erro escroto. Mas Senhor dos Passos, não estava assim a hora que eu vi, tenho certeza que não. Contudo, está lá, a prévia,…

Mão abanando ou burocráticas sagas

Deixo bem claro a mim mesma que não sou daqui. Que aqui vivo só de passagem. Não pertenço a esse lugar e tudo que me faz fincar as raízes nesse chão me assusta. Decorei alguns caminhos, conheço muita gente, arrumei trabalho, mas ao menor sinal de que ficarei aqui, como tenho ficado, há seis anos, traz uma sensação de desespero. Não, essa estrada que passa rente dessa cidade é muito longa e ela me levará algum dia, sei que sim, para um lugar bem longe. E não apenas de passagem. E não apenas para voltar no inevitável domingo à noite.
O mau humor é explicado pelas últimas noites de (pouco) sono, por causa de confraternizações diversas madrugadas adentro. A última me deixou de lembrança duas horas de sono mal dormidas, um desejo de não ter fígado e a sensação de que tudo anda conspirando contra o meu ser.
Eu deveria ter desconfiado que o dia não poderia ter começado melhor quando levei fumo do cobrador de ônibus porque só tinha uma nota de R$ 50. O vivente teve a capacidade de me dizer que…

Frustração

Imagine uma senhora puritana, acostumada a repreender tudo à sua volta. Entregue às rezas, aos bons costumes e a condenar todos ao mármore do inferno. É a minha tia. Ora sim ora não acredito que há um coração batendo naquele peito, mas como ela nutre uma certa animosidade contra minha família (e falo aqui de núcleo familiar, pai, mãe e filhos), eu não consigo me segurar.

O sonho dela é me ver grávida, e é claro que sem um marido. Ela pretende se vingar do fato de a filha dela ter voltado para casa sem se formar e com um diploma na barriga. Tá, talvez se vingar seja uma palavra muito forte. Mas ela quer ter o gostinho de esfregar na cara da minha mãe que ela não soube me educar direito. Mesmo sem nunca minha mãe ter falado (ou pensado) algo próximo disso a ela.

Toda vez que a gente se encontra, essa minha tia dá um jeito de ressaltar que eu preciso me cuidar. Se eu, porventura, reclamo de qualquer enjoo, ela não perde a oportunidade de fazer uma brincadeirinha infame.

A última vez que n…

Cara de pau

Tenho a mais absoluta certeza de que minha família me considera cara de pau. Longe de me envergonhar, também não considero isso uma insígnia. Às vezes penso que eu até os decepciono, quando não consigo certas coisas, ou me calo. Mas, em geral, prevalece a ideia que eu deveria passar óleo de peroba na cara.
Meu pai fica indignado quando eu ligo para o taxista a cobrar. “E olha aqui, na agenda do celular dela o telefone dele já tem 9090 na frente!”. “Mas pai, ele que pede para eu ligar a cobrar. Ele não se importa”. “Aham”. E fica aquela palavra meio suspensa na boca, que não é dita pela falta de coragem de admitir que a filha dele é, sim, uma sem noção.
Eu tenho um sério problema com pontualidade e minha família também sabe disso. Muitos dos horários de ônibus para viajar até minha cidade são de manhã cedo, cedíssimo. Quando eu consigo pegar o ônibus, eles consideram uma exceção, uma vitória, eu diria. Quase sempre a pergunta é:
- E aí, qual é o horário do ônibus que você vai perder amanh…

Flashes

- Olha esse poema.
- Meu Deus, você é cheia dos poemas.
- É, eu sou uma moça muito "poemática".
- Problemática, você quis dizer.
- Talvez.

...

- Nossa, eu nem sei onde eu tava nesse dia.
- Acho que nos meus sonhos.
- (risos) Ah é, e onde eu estou agora?
- A um passo de concretizá-los.

...

- Sério, chego a pensar que não mereço a atenção de alguém como você.
- Alguém como eu? Explique.
- Uma pessoa que eu considero determinada e inteligente. E que por isso me cativa.
- Pena eu nunca saber disso.

...

- Bobo.
- Sabia que eu gosto quando você me chama assim? Vai ver que sou bobo mesmo.
- É, o adjetivo lhe cai bem.

...

- Você conhece aquela crônica: O Amor Acaba?
- Não, mas o amor não acaba.
- Acaba sim.
- Não, não acaba.
- Acaba.
- Não acaba.
- Acaba, eu sei que acaba.
- Um dia eu vou ler essa crônica e escrever uma outra, para te convencer do contrário.
- Escreva agora.
- Tá.

...

- Onde será que estão todos?
- ...
- Será que estão lá fora?
- Você quer casar comigo?

Casablanca

Nossa história não daria um filme, nem uma novela
Um caso engraçado, talvez uma piada
Que passa, míngua, mas não acaba
Uma vez que é alimentada dia-a-dia
Na esdrúxula comparação com uma plantinha
Regada todo dia
Com fel

Um dia eu enxerguei mel
E imaginei, como tudo a que sou habituada
Que a história poderia ser continuada
Um conto de amor, ou mais que uma noitada
E saltitei rumo à abelhinha
Romântica doída de dar dó
Me ferrei com seu ferrão

Hey, boy, não te quero mais
As linhas das mãos estão todas atrapalhadas
Tudo em mim já se esgotou de se acabar
Você já cansou de me desconhecer
Partirei rumo à terra dos desiludidos
Ferrados, coitados, fudidos
Para onde terminam os casos de amor abortados

Lá verei que outros acabaram
Depois das possibilidades atravancadas
Vejo os casais que poderiam ter sido
Mas, pela desgraça de um fado
Não foram, ora bolas
Porque fez sol, porque fez chuva
Os dados rolaram, as fichas são outras
Demorou para decidir, amour, au revoir!

Não é porque teve cotovelos demais
Não foi por causa do com…