125x125 Ads

He's back

27 comentários
Quatro dias ou quase isso. A partir da constatação, seguiu o choque, a tristeza, a sensação de incapacidade. Depois veio a hora de contar para todo mundo. Perdi o gato. O psicopata? Esse. Aí já estava me conformando que o havia perdido, quando a menina da casa ao lado (e dois andares abaixo) disse que ele estava escondido embaixo da residência, acuado pelos três cachorros que latiam sem parar.
Como assim? Tão perto, o tempo todo? Demorei para encontrar os moradores em casa e acabei conseguindo a ajuda de dois bombeiros (meus colegas de trabalho) que se prontificaram à tarefa do resgate. Rodamos a casa, gritamos, ajoelhamos na terra para encontrar o bichano. E ele veio. Magro que era uma tripa, sujo, assustado.
E lá se foi a saga de contar para todo mundo. Achei o gato. E ouvir: eu não disse que ele voltava? Sim, devia ter acreditado. Cheirou o território e depois de um tempo recuperou a pose de rei do pedaço. Tentou abrir a porta do meu quarto e mesmo debilitado conseguiu. Dormiu nas minhas cobertas. Dane-se. As cobertas podem ser lavadas, tenho outras. Ele está de volta e é isso que importa.



*Em cima, da esquerda para a direita: 1 - Felícia comemora a volta de seu brinquedinho. 2 - Bombeiro Klaus, tentando fazer pose de herói. 3 - Verificando se ele está inteiro. 4 - Bombeiro João, desde o início. 5 - O rei absoluto. 6 - Quilos perdidos. 7 e 8 - a partir de agora, janelas fechadas. 9 - sim, ele realmente está de volta.
Mais informações »

Outro porto

8 comentários
Eu poderia escrever sobre a sensação que tenho em ser uma menina do interior no meio de um monte de gente da cidade grande (mais ou menos o que senti quando o blog dos 30 começou a ser alimentado). Poderia, quem sabe, falar sobre as primeiras aulas da autoescola, dos dias cinzentos que tem feito em uma das cidades mais frias do Paraná. Mas o que me aconteceu ontem foi maior que isso e me deixou uma nódoa grande no peito. Daquelas que te fazem ter vontade de chorar, mas maior que essa vontade é o sentimento de que não há nada que se possa fazer. Aí a sensação de impotência dá lugar a uma falta de... uma falta dele.

Sobre o meu texto (o primeiro!) que publiquei no Blog das 30 pessoas.
Mais informações »

Papai Noel veio em junho

17 comentários
Junto com as festas juninas, fogueiras de São João, época de muito quentão e amendoim, eis que recebo um presente de Papai Noel.
É claro que me refiro ao meu pai. Contra tudo o que eu penso de gente que recebe a vida de mão beijada dos pais, eu vivo recebendo presentes do meu. Nas horas mais inusitadas, coisas das quais às vezes eu nem preciso. Quando eu era criança, ele viajava para o Paraguai três vezes por semana e, a cada viagem, eu recebia um pacote. Sempre uma coisa inédita, algo que ele não colocava nas prateleiras que tínhamos na cozinha de casa. Algumas vezes ele vendia umas coisas do meu quarto, como a minha guitarra rosa.
Eu adorava aquela guitarra. Era cor de rosa, a cor da Xuxa, tinha botões coloridos e eu, sem nenhum talento musical, conseguia tocar todas as canções populares nela.
Um dia, a mulher de um médico chegou e pediu um presente para a afilhada. Meu pai mostrou uma guitarra igual a minha, mas branca.
- Ah, eu gostei, é um belo presente, mas a menina só gosta de coisas rosas – lamentou ela.
- Não seja por isso! Eu tenho uma aqui.
Lá se foi minha guitarra. É claro que eu fiquei com a branca, mas nunca mais encostei nela. A magia do presente se foi, com a substituição para satisfazer a penélope aficcionada.
Embora meu quarto sempre fosse abarrotado de ursos, bonecas e barbies, despertando inveja em algumas amiguinhas, meu pai sabia que eu tinha menos do que as outras crianças do meu círculo social. Eu estudei a vida toda em colégio de ricos, mas sabia que meu pai pagava as mensalidades com mercadorias que ele trazia para o colégio. Ele abastecia todas as festas juninas escolares. Todas as prendas de sorteios e outras brincadeiras era ele quem trazia. Era como se eu fosse filha do Willy Wonka dos brinquedos.
Por isso, eu nunca brinquei de pescaria, boca do palhaço ou algo do gênero. “O que, menina? Você quer pagar para ganhar essas trosqueirinhas que eu mesmo trago?”. Meu pai só me dava dinheiro para comer e me livrar da cadeia, porque seria chato eu não participar da quadrilha da minha própria turma.
Eu acompanhei meus amigos em tudo, embora sempre com algum pesar. Pesar no sentido de pesar no bolso do meu pai mesmo. Nas infindáveis viagens que o colégio promovia, eu participava de todas, mas meu pai comia um dobrado para pagar. A roupa nova que todo mundo tinha comprado para uma festa eu também tinha, mas eu ouvia um mês inteiro que a gente tinha gastado com aquilo. Quando eu passei no vestibular, meu pai chorou, mas eu não sabia se era por causa da minha conquista ou porque ele não sabia como ia sustentar uma filha fora, com o mais velho já na faculdade.
Mesmo assim, eu nunca deixei de receber suas surpresas.
Viajava todo mês para casa, sempre com uma mala de roupas para usar e outra com peças para lavar. Quando os trabalhos das faculdades apertaram, deixei de ir para casa e os lençóis foram se acumulando no cesto, porque a falta de tempo, o frio e a chuva não me permitiam lavar roupa. Ganhei uma máquina de lavar. No último ano de faculdade, ele ouviu dizer que eu ia precisar fazer TCC e me comprou um computador. Meu pai descobriu as maravilhas do microondas e deu um de presente para mim e outro para meu irmão. Um dia ele viu um monitor de 19 polegadas, achou aquilo lindo e fez eu trocar o meu.
Hoje ele levou a cabo mais um pedaço do plano de equipar minha casa. Ganhei uma geladeira, porque ele ouviu eu comentando com a minha mãe que precisava de uma. E para avisar do presente, o diálogo é quase sempre o mesmo.
- É verdade que você precisa de uma geladeira? –perguntou-me, ao telefone.
- É, pai, vou comprar sábado.
- Tem alguma preferência?
- Pai, eu que vou pagar, vou parcelar, estou guardando dinheiro já.
- Ih, já estou saindo para comprar.
- Pai...
- Já fui.

Em algum lugar, alguém deve ter escrito que não se pode (e não se deve!) recusar presentes de Papai Noel.
Mais informações »

Despertador

15 comentários
E na mudez da palavra amor tantas vezes dita...

Acordei com esse verso na cabeça. Tem gente que acorda com músicas, palavras, sonhos martelando na caixa craniana. Eu desperto com poemas. As palavras vieram com o abrir dos olhos, com com seu gosto, com sua pele bem próxima e a vontade de que aquele momento se tornasse constante, sem a parte chata da constância.

Escovei o cabelo, os dentes, troquei de roupa e a frase ressoava dentro de mim, como se fosse urgente ser antecedida ou continuada.

Caminhei pelas ruas ao seu lado. Pelas calçadas tentei lembrar de onde teria surgido o verso. O verso de nove palavras, iniciado por uma conjunção que indicava ter antecedentes. Como tínhamos, eu e você.

Não sei se fui eu ou você quem decretou que eu deveria pesquisar se o verso já existia e, caso contrário, deveria escrever eu mesma um poema onde essas palavras se encaixassem.

Duvidei que meu inconsciente fosse poeta e tivesse deixado escapar uma frase tão cadenciada para essa cabecinha tão cheia de prosa. Leio e decoro poemas, não os crio.

Ainda mais um poema com a palavra amor. Foi ao seu lado que voltei a dizê-la e ouvi-la. A palavra que ficou muda, mesmo tendo sido escancarada anteriormente como um tudo bem. De tão dita, acabou desdita, esquecida, jogada no fundo do armário, como a caixinha de recordações cujo dono era o próprio antigo amor.

Hoje eu economizo, ou melhor, guardo para mim o que fica chato se banal. Ficou encalacrado em mim aquele medo de quando eu amor e amor você eram só desprezo por dentro. Quando o que hoje é amor era indiferença. Quando o amor era só um talvez, uma chuva que chovia por dentro e se revelava impossível por fora.

Descobri que não faz mal ser comedida. (Eu, justo eu, a menina das entranhas!) Tenho aprendido a dizer eu te amo com um olhar. Lanço-o sobre você na tarefa simples, que você se concentra para não errar. Nos seus olhos fechados dizendo mais cinco minutos. Na escolha das frutas do supermercado. Nos olhares que se encontram e se encontrando suplicam um beijo.

E eu ouço amor, mesmo não olhando para os dois lados da rua, mesmo querendo te beijar quase provocando um atropelamento. Mesmo esquecendo a senha do banco. Mesmo errando a mão. Mesmo tendo escrito palavras duras. Mesmo não escapando do chavão. Vez ou outra ainda demoro a perceber que sou eu mesmo o amor de alguém.

O poema já existia. O amor, desse jeito, ainda não. Esse eu sou capaz de criar. E despertar.
Mais informações »
 

Copyright © 2010 • ::: salto baixo • Design by Dzignine