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Cidade, minha cidade qualquer

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Hoje faz frio e chove, como é comum nessa cidade fria e chuvosa. Mas há dias em que faz sol e é nesses dias que eu posso andar menos encolhida. Dia desses eu corria, e não andava, atrasada para um compromisso, sob o sol escaldante do meio-dia. No asfalto sob meus pés, um caminho que eu traçava diariamente há dois anos. Nas proximidades das ruas e calçadas havia meu antigo trabalho. Desde que pedi demissão, nunca mais tinha voltado a pé àquele lugar, uma região meio inóspita da cidade.
Naquele tempo eu me sentia meio sozinha, com a pesada sensação de estar contrariando uma lógica inevitável: ir embora da cidade que me deu de presente o diploma. Eu deveria ter ido embora, mas continuava ali, nadando contra a maré da indiferença.
E quando revisitei o lugar que foi palco do peso dos meus passos e da minha cabeça martelando com meus medos e sonhos, era como se eu tivesse voltando a toda essa gama de marasmo e, talvez, de indiferentismo.
A certa altura, na rua deserta ouvi um barulho além dos meus passos. Uma carroça estava paralela a mim. Na minha cidade natal, onde um terço da população deve viver na área rural, não vemos carroças pelas ruas. Aqui, onde há oito vezes mais gente, os cavalos e os carros dividem as mesmas vias.
Uma vez entrevistei um padre que pintava cenas cotidianas. Um dos quadros, o seu preferido, mostrava uma família em uma carroça em um meio urbano. Ele me contou que a cena existiu mesmo. A família eram fiéis da sua paróquia, que utilizavam aquele meio de locomoção para ir à igreja. Eu tinha reparado que a riqueza de detalhes da rua só poderia provar que se tratava de uma mimesis da realidade. O padre me revelou que decidiu pintar o quadro porque lhe chamou a atenção a família ir de carroça à missa, mesmo em um dia chuvoso. Por que, perguntava-me, tanta gente que tem carro desiste de ir à missa com frio e chuva e essa família não? Por que eles pareciam mais felizes que gente que tem posses? O que importa para cada um? Foi isso que intrigou o padre indonésio e foi isso que me arrancou alguns segundos de reflexão diante do quadro.
Voltei à carroça ao meu lado. Nela, dois homens, alguns baldes e aquela expressão de desinteresse pelo tempo que o trajeto levaria para se completar. Poderiam chegar dali a dois minutos ou somente quando o sol se pôr, tanto faz, tanto fez. Um deles estava deitado, com um chapéu sobre a cabeça para se proteger do sol. Por um segundo, parecendo adivinhar que eu os observava como um pintor que encara a paisagem antes de retratá-la, o homem ergueu um pedaço da aba, espiou-me e, como minha imagem pareceu não lhe merecer atenção devida, logo voltou à posição inicial.
Olhei de novo para o animal que puxava a carroça. O cavalo arrastava-se, carregando o peso dos homens, dos baldes, do cansaço do sol quente. Na calçada, eu arrastava minha cabeça cheia de lembranças, meu corpo cansado do dia anterior. Eu queria ultrapassá-los, e meus passos rápidos, as pisadas lentas do cavalo imprimiam à cena um som compassado, que feria o silêncio da rua.
E naquele momento eu pensei na vida besta, nessa minha vida besta de meu Deus.
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Sem digitais

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Digamos que meu processo de habilitação no Detran se encontra na metade. Já comprovei a residência, já tirei a foto, já fiz o psicotécnico, aguentei 45 tortuosas horas de aulas teóricas (nas quais meu estado de espírito alternava entre a vontade de tomar cicuta e a ideia de quebrar o vidro e pular janela afora) e, finalmente, marquei meu teste teórico.
Como a primeira data disponível era uns 20 dias depois do fim das aulas e como no simulado eu fui, digamos assim, meio abaixo das expectativas, decidi dar uma revisada antes. Tá, eu estudei. Meu irmão diz que é feio dizer que estudou para a prova do Detran. Mas eu li a apostila e fiz até um resuminho, que li no ônibus, no caminho até a prova. (Papai ficaria orgulhoso).
Passei por cima das placas (passei o olhar em cima do conteúdo, não me joguei por cima das placas literalmente. Não quero ser reprovada antes de pegar o carro de aprendizagem!), porque confio na minha capacidade de percepção simbólica. Também passei reto a mecânica básica, porque eu nunca iria entender a diferença entre admissão, combustão e escape. E eu prefiro não saber minuciosamente como funciona a embreagem, porque sei que acharei complexo e na prática ia me dar um pânico de uma pane impedir a engrenagem de não funcionar diante do meu comando. De modo que existem coisas que devem apenas existir e exercer a respectiva função, sem maiores explicações.
Outra coisa que pulei foi a tabela de infrações, apenas dei uma olhada superficial nas gravíssimas, dicas da professora da autoescola, que costumava dizer que a prova era “moleza”. Como não ia decorar tudo, mentalizei apenas o que aconteceria com um condutor bêbado, porque calculei que essa seria uma típica questãozinha filhadumamãe que poderia me pegar.
Meu primeiro desafio não foi a prova, muito menos acertar os dois ônibus que eu deveria pegar para chegar ao destino. O surrealismo tatianístico começou na fila de entrada para o teste. Não sei o que o sistema de identificação de digitais tem contra mim, mas nunca dá certo. Apertei meu polegar umas 14 vezes, o indicador mais umas 11, o dedo médio umas 5. A tiazinha já havia perdido a paciência e decidiu dar prosseguimento à fila, mesmo parecendo transparecer que entre mim e uma golpista não havia diferenças. Na certa eu devia estar fazendo a prova no lugar de alguém, era o que seus olhos fuzilantes pareciam me dizer.
Dentro da sala, a responsável por aplicar o teste quebrou o silêncio estarrecedor dos candidatos com uma chamadinha. Opa, apenas 4 nomes. E o meu estava lá! Ao final, ela, que havia dito os nomes com um sorrisinho, fechou a cara e disse: essas pessoas devem comparecer ao balcão ao final do exame porque ficaram sem digitais. Pronto, a suspeita foi readubada.
Peguei a prova com a calma de um monge budista e depois do preenchimento das formalidades, comecei a ler. Primeira questão: “Conduzir um carro que emite gases em não conformidade com o que exige o Contran é uma infração que gera...”. Respirei. Segunda questão: “Um condutor que dirige transporte remunerado sem ser habilitado para isso é uma infração que acarreta...”. Pensei em como seria bom ter uma bombinha de asmáticos nesse momento. Terceira questão: “Transitar danificando vias e blá blá blá é caracterizado como uma infração cuja penalidade é...”. Pânico na torre. Calma, criatura, pensei. Vê uma que você sabe para alimentar sua autoconfiança.
A primeira questão cuja resposta eu tinha certeza, sem titubear, era mais ou menos a 12ª e perguntava o significado do sinal verde do semáforo. Em algumas eu não conseguia descartar nenhuma resposta, porque qualquer uma parecia ser uma verdade. O problema era saber qual era a verdade maior. Confesso, brinquei de minha mãe mandou algumas vezes. Tremi tanto que tive medo de preencher errado o gabarito, uma retardadice mental, depois que a responsável por aplicar a prova explicou que tem que colocar “a letrinha bem grafadinha dentro do quadradinho sem forçar a canetinha e sem sobrar perninha”. Pedagoga, não precisava nem perguntar para saber.
Terminei a prova nos 50 minutos máximos para o feito e me dirigi ao balcão. Encontrei um colega de aulas teóricas que também não tinha digitais. Ele, inteligente, dava para notar pelas aulas, achou a prova difícil e foi logo querendo conferir de cabeça se nossas respostas batiam. “Ah”, disse ele. “Aquela da placa era fácil. Curva acentuada à direita, né? Mole.” Faltou-me o ar. Todas as minhas respostas das placas tinha certeza que estavam corretas e nenhuma era parecida com sinal de curva. Antes de me entregar ao infarto, concluímos que as provas eram diferentes.
No balcão, meu dedo passou no fim, bem no fim, das contas e eu fui pegar o ônibus. O terceiro cara sem digitais me seguiu e me abordou no ponto. “É a primeira vez que você faz o teste?”. “Sim”, respondi eu, simpática. “Poxa, essa já é a quarta vez que eu venho fazer”. Acho que ele notou que me escorreu uma lágrima diante da sua revelação.
Nas longas 24h depois do teste até o resultado quase coloquei um ovo de preocupação. Angústia que se resolveu com um simples telefonema:
- Oi, você pode me passar o resultado do teste teórico de ontem por telefone?
- Nome?
- Tatiana.
- C.L.? Passou.
- (AAAAAAAHHH, GAROTA. ARRÁ URRÚ) obrigada. (quantas será???????)
- Acertou 25 tá?
- (malditas infrações). Ah, ok.
- Viu. Espere oito dias e aí venha marcar as aulas práticas.

Em breve, cenas do próximo capítulo.
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Hermenegilda

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Entre as muitas coisas que me acompanham desde que me entendo por gente, uma é Hermenegilda. Não sei ao certo por que ela surgiu, mas segundo a lenda familiar foi quando eu tinha uns dois anos. Minha mãe conta que eu ia participar de um concurso de Boneca Viva (uma espécie de competição de miss infantil) e minha madrinha resolveu me fazer uma pintinha na bochecha com lápis de olho. O local inflamou depois disso e nasceu uma ferida.
A tal me acompanha desde então e aparece periodicamente, em intervalos de seis meses, aproximadamente. Bem criança minha mãe achava que era mordida de aranha e mandou detetizar a casa. Só adolescente fui descobrir que se tratava de uma herpes. “Mas herpes na bochecha?”, todos me perguntam. Realmente, não deveria existir. Contudo ela está lá, coçando, despontando e inchando minha bochecha de tempos em tempos.
Um dia resolvi dar-lhe o nome de Hermenegilda, porque, como ela fazia parte de mim, deveria ter um nome. Hermenegilda gosta de viajar e quase sempre aparece nas minhas viagens de férias. Lembro que quando era pequena, minha família tentava achar uma lógica para seu aparecimento. “Acho que é o sol forte”, minha mãe arriscava. E lá ia a Tatiana para cima e para baixo lambuzada de protetor solar e com chapéu cata-ovo ridículo. Aí Hermenegilda surpreendia e vinha no inverno. “Deve ser falta de vitamina”, palpitava meu pai. E lá ia a Tatiana enfiando uma cápsula diária de vitamina C goela abaixo. Como Gilda gostava muito de mim, surgia sempre, desafiando qualquer lógica. Com o tempo, aprendi que ela vem quando a imunidade está baixa, quando não me alimento bem, estou muito cansada, ou quando me estresso demais. Ou seja, não demora muito e quando estou prestes a esquecê-la a coceira característica surge. Aí sinto uma leve ardência, a sensação de que vários bichinhos estão correndo por dentro da minha bochecha e Hermenegilda explode.
Quando ainda estudava no colégio, a herpes apareceu e minha mãe achou melhor eu ficar em casa. Mandou-me ir ao posto de saúde pegar um atestado. Na fila de espera, uma mulher que também aguardava me encarava longamente, até que tomou coragem e veio falar comigo. “Tadinha, você apanhou do seu marido?”. Eu devia estar meio inchada, mas o comentário acabou com minha autoestima. O médico me deu atestado de três dias, mas chutei o balde e faltei mais de uma semana.
Pessoas que têm doenças recorrentes costumam se identificar com outras que sofrem do mesmo mal. Ao invés de se saudarem em silêncio, elas compartilham receitas caseiras, remédios, soluções mirabolantes para disseminar o conhecimento popular e acabar com o que lhes aflige. Eu já fiz parte do clã da amigdalite, mas desse mal eu não sofro mais, depois da extração das amigdalas. Hoje divido com quem tem herpes minhas angústias:
- A sua coça?
- Coça.
- Você já tentou tomar remédio além de passar a pomada?
- Desse?
- É! Ei, você compra cartelas separadas?
- Não, só a caixinha.
-Já ouviu falar que peixe não é recomendado para quem tem herpes?
- Mentira?!
- Li em algum lugar.
Hermenegilda já significou para mim choro e vontade de morte. Hoje é apenas a sensação de que algo não vai bem e que preciso reavaliar certas coisas. Dormir mais, comer melhor, trabalhar menos, esse tipo de coisa. É apenas um ciclo, que em cinco dias - ou, na pior das hipóteses, sete – vai desaparecer, sem deixar vestígios. Quer dizer, sobra uma marca ou outra, principalmente por causa da minha ansiedade em tirar as casquinhas antes da hora. O fato é que Hermenegilda vai, mas volta.
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Expectadora do Teatro

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Ansiosa,cheguei cedo. Gosto de ir em shows porque a mágica da música sendo executada me fascina. Gosto ainda mais porque me sinto expectadora de um espetáculo sendo concebido diante de mim, uma privilegiada, bem como aqueles ao redor de mim.

Dessa vez, entretanto, a mágica estava toda ali, bem maior que minha concepção de show. A mágica estava no nome, nas danças, nos gestos, nas rimas, no fogo, nas acrobacias. Magicamente, tudo se orquestrou, tudo se encadeou como se fosse necessário acontecer daquele jeito, ato após ato.

Não é necessário ter tanto conhecimento prévio de O Teatro Mágico para gostar do show. Bem, pelo menos foi isso que eu vi quando olhava para trás e me deparava com olhos brilhantes, tentando encontrar uma lógica para que aquilo pudesse despertar tal nível de fascínio.

Como disse uma das amigas que encontrei no final, um encontro de gente sensível. Ou, como anunciou o próprio Fernando Anitelli, gente rara. O Entrada para Raros era o primeiro disco, mas o segundo, O Segundo Ato, me trouxe um misto de cor, som, poesia e arte que foi impossível escapar dele.

Assim como foi difícil não se derreter ao ouvir a prece musicada de todo esse projeto musical. Ouvir a prosa presa à poesia, a reunião de mosaicos, trazidos de lugares distantes, mas que você, mesmo sem nunca ter visto antes, sabe que tem um significado forte e um tanto sensível.

A cantiga do peixe que eu cantei na infância cantei de novo. Ela saiu fácil, porque dessas coisas a gente não esquece. Meus olhos fitavam sem descanso a dança da menina e do menino que bailavam, sincronizados, coreografados, perfeitos, nas tiras de pano e no balanço da acrobacia. Eu ali parecia mesmo retomar o olhar da garota que fui um dia, que sentia medo pelos outros praticarem números arriscados. Nesse belo show me senti a criança que assiste ao espetáculo do circo. Que se emociona com a poesia, que canta os versos como se fosse uma oração. Os olhos nos quais estava refletido o fogo cuspido no palco se fecharam em certos momentos, mas logo depois se abriam para não perder um minuto daquilo tudo.

Há dois anos uma amiga me fez conhecê-los, dizendo que ao se despedir (de mim e de outros) sobraria tanta falta. Sobrou a falta dela, justamente por isso, no show, assim como da própria música. Mas a minha preferida foi cantada no final, quando a plateia sentia o desconforto diante do que está chegando ao fim. Nesse momento Fernando cantou o prato do dia, deixando o meu próprio dia, minha noite, o show estudpendo mais feliz.

Mostrando que seu projeto não é feito só de música, interpretação e lucro, mas se sustenta em convicções, em vontade de fazer diferente, democratizando e sensibilizando. Até pilares familiares tem. A vontade e a arte desse artista Fernando Anitelli foram os grandes diferenciais desse show e da minha imagem do Teatro daqui para frente..

E ao encontrar meu mais novo ídolo, não tive tempo de mais nada a não ser abraçá-lo e posar para a foto, entre cotovelos e gritos de gente que queria o mesmo.

Não tive tempo de dizer tudo isso a ele. Não tive tempo de agradecer pelo espetáculo. Pena.



Teatro Magico - Pena
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