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Eu sou você ontem

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Por muito tempo acreditei que essa história de que tem gente que “não nasceu pra isso” era a maior furada. Não botava fé em papinhos como “não sei escrever”, “cozinhar não é para mim”, “sou descoordenada para pintar”, porque sustentava de que tudo se conquista com treino. Treino e prática.
Isso até começarem minhas aulas práticas de direção. No mês que antecedou a primeira, a ansiedade da espera me consumia. “Vai estudando, minha filha”, recomendava meu pai. “Estudar como?” “Sei lá, vai olhando os motoristas, o que eles fazem”. Pobre papai. Mal sabe ele que eu refutei seus conselhos e nem sabia qual era o freio e qual era a embreagem na minha primeira aula.
Mas fiz uma pose tão convincente no começo que a mulher perguntou se eu realmente nunca tinha pegado um carro na vida. Depois do primeiro cruzamento, do primeiro sinal quase avançado (salve os pedais idênticos para o instrutor!), das apagadas seguidas do veículo (foram tantas que perdi as contas) ela retirou o que disse. Tadinha, levou tantos solavancos que, se não fosse o cinto, eu ia ter de aplicar meu aprendizado de primeiros socorros ali mesmo.
Já na primeira aula, voltei ao meu eu interior e refleti se eu estava disposta a continuar. “Tatiana, existem pessoas que não nasceram para dirigir”. Há coisas que nem com treino e prática. Quando eu perguntava para minha mãe como se cozinhava feijão, ela resmungava: duas faculdades e nem isso sabe. Não importa, mãe, tem coisas que não estão nos livros. É preciso dom, instinto. Com o fogão é assim. Acho que com a direção é a mesma coisa. É preciso muito mais que prudência, atenção e perícia.
Sob o volante, eu, muito doida, ficava ligada apenas nas tartaruguinhas e na sinalização horizontal (não fez autoescola? As indicações pintadas no asfalto. Rá) para parar. De repente, meu freio afundou sozinho. O carro brecou, olhei para a instrutora, que me apresentou o semáforo vermelho piscando na minha cara. Puta que pariu.
A pobre teve de avançar para o volante algumas vezes. Muitas, vá lá, porque eu me distrai com umas coisinhas na rua e ela se obrigou a desviar o carro de um cone, da traseira de um caminhão de lixo, de um pedestre, de um vira-latas. Os elementos não estavam muito dispostos a colaborar comigo. Muito diferente dos que apareciam nos videozinhos de simulação das aulas teóricas, que, como atores no teatro, aparecem só no momento certo.
Na segunda aula tive a impressão de ter progredido, porque até conversar com a instrutora eu consegui. E nem foi “o que eu faço agora?”. Ela perguntou onde eu trabalhava e isso foi o suficiente para eu desembestar a falar da minha vida. Conselho. Nunca vire amigo do instrutor. Você está lá para aprender a dirigir e não para ganhar terapia gratuita. Eu ainda me policio para não perguntar como é que funciona o trabalho dela. Outra nota mental: quando dirigir, não ligar o rádio.
Hoje completei cinco aulas. “Pai, não vai perguntar como eu estou indo de autoescola?” “Olha, se você está falando comigo agora, sinal de que está tudo bem. Pelo menos não teve de acionar o seguro”. Minha mãe falou que quando eu quiser comprar um carro é para eu ver se não fica muito caro adicionar um freio e uma embreagem do lado do carona. Como se vê, apoio moral e incentivo vêm de casa.
A instrutora disse hoje que talvez eu não precise de aulas adicionais. Mas não sei se posso confiar, por causa do vínculo emocional e tudo mais. Por isso, se você mora em Guarapuava, melhor redobrar a atenção. Diariamente, e até mesmo aos sábados, entre 9h e 10h, estou por aí. Num carro branco. Destemida.

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Dôdo

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Ele me aconselhou a prestar muita, muita atenção, desde a 8ª série, às aulas de Química e Física. “Senão, mais tarde, você vai se ferrar”. Ouvi, mas nunca obedeci. Outro conselho foi nunca ficar com ninguém na sala da faculdade. “Senão, depois, você vai ter que ficar olhando o cara por 4 anos”. Ouvi, mas, foi mais forte. Dito e feito. Tive de aguentar. Na minha adolescência, simulando um episódio de preocupação com minha honra, ele me aconselhou a jamais entrar sozinha em um carro com um cara. “Entrou no carro, tá fudida”. Eu devo ter entrado em muitos carros na vida, mas consegui sobreviver.
Meu irmão é cinco anos mais velho que eu e, desde sempre, joga na minha cara que eu cheguei para ameaçar seu reinado. Entretanto, o título de líder sempre foi dele. E o de esperto. Eu passei no vestibular da universidade pública, mas quem morava na praia e curtia “sol até à noite”, como dizia umas das suas mensagens, era ele. Para mim sobrou o frio e a máquina de lavar roupa, presente que ele nunca engoliu não ter ganhado igual.
Não posso, jamais, vangloriar-me de ter sido uma boa irmã. Infernizei-o, desde as apostilas riscadas quando teimei em aprender a escrever, passando pelos constantes ataques de choro, pelas brincadeiras sempre estragadas, até as palavras ríspidas. A única coisa que não admito foi ter derrubado no chão o celular novo que ele ganhou no natal, acusação que me rendeu mais de um mês de desprezo por parte dele.
Mas há o que lembrar de bom. Jamais vou esquecer de como “trabalhávamos” na sorveteria que o meu pai tinha, que eu considero hoje muito mais um presente para os filhos do que propriamente uma fonte de renda. Tomei tanto suco Dellis aquela época (vinham em latas de cinco litros) que até hoje enjoo ao sentir cheiro de suco de uva. Quando era pequena, planejávamos ficar acordados até o sol nascer, porque um primo meu disse que, a certa altura da noite, as estrelas se juntavam, formando um cavaleiro montado em uma cobra. Todas as noites dormíamos antes, de modo que nunca encontramos o cavaleiro celeste. Mas na tentativa de ficarmos de pé, assistíamos muitos filmes, os quais eu sempre procurei deixar arraigados na minha memória, mas com o tempo ela foi falhando. Porém, impressionou-me que, há pouco tempo, eu comentei com meu irmão sobre as histórias transmitidas nas madrugadas e ele também lembrava.
Eu achava o máximo, aos sete anos, ter um canal de comunicação com meu irmão, uma gambiarra com walk-talkies que ele inventou, enchendo de fios o espaço entre as janelas dos nossos quartos. Toda noite, antes de dormir, na mesma casa, conversávamos e era sagrado eu dar boa noite a ele antes de pegar no sono. Um dia eu falei uma besteira na frente das visitas e, com raiva de mim, ele destruiu tudo.
Se me perguntarem qual foi o momento em que mais me senti próxima do meu irmão, direi que foi há uns quatro anos, férias de julho, quando fui visitá-lo. Voltávamos de um bar e, trôpegos, quase dançávamos na rua. Ele me abraçou, seguimos andando e meu irmão me confessou que gostava da menina com quem tínhamos acabado de beber. Perguntou o que eu achava dela. E, desde então, sempre pediu minha opinião sobre garotas. A dele eu não peço, porque nunca é séria. Quase sempre, ao lhe falar de alguém, vem a reprimenda: “não tá dando pra ele não, né?”.
Meu irmão sempre foi assim. Um babaca. Capaz de me arrancar gargalhadas com coisas ridículas e de me fazer arder de raiva por causa de rusguinhas igualmente ridículas. A infância passou, passsou a adolescência, chegamos à fase adulta e tenho a impressão que nossas brigas continuarão sendo de eternas crianças.
Se você leu até aqui, gostaria de pedir desculpas pelas vezes que te fiz acreditar que nunca seríamos amigos. Cada vez mais acredito que o que se vive na infância perdura para sempre. Então, quero o walk-talkie, os filmes de Spielberg, os sucos de uva, o abraço depois do bar. Quero o melhor de nós.

Quero que você seja feliz.

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My heroes

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Ao telefone

Pai: Parabéééééns, minha filha!

Eu: Pelo quê?

Pai: Pelo dia do jornalista!

Eu: Ihh, pai, foi em abril!

Pai: [silêncio] Ah, eu inventei isso só para te ligar. E aí, como vão as coisas?


Chegando de viagem

Eu: Oi, mãe!!!!

Mãe: Oi, menina

Eu: Nossa, nem parece que faz três meses que a gente não se vê! Não está com saudade?

Mãe: Pois, é. Eu senti falta de um pintinho mesmo.

Eu: [...]

Mãe: Mas eu ouvi a Xuxa dizendo que ele estava na montanha. Sabia que ele ia voltar. [risos]

Pai: É patinho.

Mãe: Que seja.



Voltar a minha casa faz bem. É a casa dos meus pais, mas minha também. E nem é pelo peixe com leite de coco que minha mãe faz. Divino. E não só pelo arroz que eu nunca consigo fazer igual. Não é pelo meu pai esperando o momento certo de me pedir para corrigir “umas coisinhas”. Nem para matar a saudade da minha irmã, que até esses dias era uma menininha e agora passa esmalte nas minhas unhas e insiste para eu ensiná-la a se maquiar.

Para viajar, desafio até meu sono de pedra e decido encarar o ônibus que sai mais cedo. Mesmo com as cervejas da noite anterior, que me fazem chegar tarde e arrumar a mala mais sem lógica, trazendo coisas que nem sei como foram parar lá dentro. Não importa, aqui estou. Em casa.

Um dia antes recebi a mensagem: “amanhã quer que eu te acorde para não perder a hora papai”. Assim mesmo, sem ponto. A gente se entende. Disse que sim, mesmo sem saber se ele leria. Não podia perder esse ônibus, não dessa vez. No final das contas, tive quatro criaturas para me tirar da cama. Do outro lado da linha, gente que queria que eu não me atrasasse, mesmo que fatos anteriores mostrassem ser isso a lógica natural das coisas.

Mas consegui. Cinco minutos antes, lembrei de pegar um jornal no qual publiquei a foto da minha irmã. Precisava carregá-lo para que ela o guardasse. Carreguei-o na mão e viajei com ele no colo dentro do ônibus.

Com a cabeça na lua, esqueci o dito cujo. Lembrei da bolsa, ao menos. E fui me lembrar do jornal esquecido só tempos mais tarde, quando já estava no carro com meu pai, em direção a nossa casa. Voltamos. Nem insisti, ele que sugeriu. Parecia entender que aquilo era importante. Mesmo meneando a cabeça, na certa pensando: essa menina ainda vai perder os filhos pela rua. Nada do ônibus. Fomos à garagem. “O que você esqueceu, moça?”. Não tive coragem de dizer que era só um jornal do mês passado. “Uma pasta de documentos”. Mas o ônibus já estava sendo lavado, em um posto do outro lado da cidade.

Meu pai nem cogitou desistir da ideia. Tomamos rumo. Cheguei lá, ainda deu tempo. Recuperei as páginas amassadas e rasgadas, mas a que mais importava ainda estava lá. Inteira.

Chegamos em casa só mais tarde e nem quis sair debaixo da asa deles. Também nem precisei abrir a mala, aquela sem nada realmente necessário. Aqui, na minha casa, tem tudo o que eu preciso. A paciência da minha mãe, suas histórias divertidas de trocas de palavras e sua comida de lamber os beiços. A inquietude da minha irmã, sua ânsia de querer me falar tudo de uma só vez e o orgulho que eu me vejo sentindo por ela. Meu pai, as respostas certas para tudo o que eu pergunto e a vontade de me fazer lutar, pelo que quer que seja.

Minha irmã não consegue tirar direito o excesso de esmalte das minhas unhas. Minha mãe só gosta de filme dublado. Meu pai é mais cabeça dura que eu, e insiste em viajar de ônibus, mesmo que de carro seja mais rápido e barato. Mas eles são capazes de salvar meu final de semana. E de ser o que eu mais preciso nesse momento.

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Dez

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É o número que dá início a contagens regressivas. O primeiro que a gente grita no Ano Novo. É o tanto de dedos que a gente tem na mão. Mas só um deles, o indicador, eu uso para contar no calendário quantos dias faltam. Dez. As coisas que a mocinha detesta naquele cara, aquele que já morreu, no filme. Os negrinhos daquele livro, da Agatha Christie. Aquele que eu nunca li. As teclas do telefone, sem contar a estrelinha e o jogo da velha. Dez são os botões de números, que, teclados na ordem certa, transportam-me para a conversa de todo o dia. A conversa dá saudade. São dez os risquinhos, no relógio, entre um número e outro. O ponteiro tem passeado por eles devagar, o desgraçado. Dez mandamentos. Demorei um tanto para decorá-los. O número do mês do meu aniversário. Dez unhas, as do pé, para cortar. O total de letras do meu sobrenome gigante. A nota que a gente quer tirar, isso se o sistema não for sacana e considerar o máximo cem e não dez. Aí dez vira um. Mesmo sem a vírgula no meio, meu amigo, dez vira um. O número de linhas de cada número da tabuada para decorar na 3ª série. O total de minutos a mais de sono em cada apertada de soneca no celular. Dez era o tanto de aniversários que eu tinha quando a gente se mudou e quando a gente ganhou os cachorros. Dez era o número de vagas da casa de praia das últimas férias, mas a gente apertou e entraram onze. Se eu fosse paciente, dez eram os anos em que eu ia demorar para concluir as graduações e a pós, com um espaço de folga, porque ninguém é de ferro. Mas como eu queria ser de aço, decidi terminar tudo em metade disso. E hoje me sinto como se tivesse dez anos a mais. Um décimo, uma década, decágono. Pensei no dez porque faltam dez dias para te rever. Mas pensei tanto que já é dia dez. E agora só faltam nove. Ainda bem.
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Luto

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Em quatro teclas, a palavra se configura na tela. E externa a palavra com uma letra a mais, a que costuma deixar tudo sem explicação. Acredito que luto tenha esse nome porque é palavra homônima do verbo lutar conjugado na primeira pessoa do singular. Eu luto. Porque enfrentar um luto é batalhar para aceitar, embora sua vontade seja não acreditar e escapar do que seus olhos lhe apresentam.
Eu sei que epistemologicamente luto não vem daí. Mas para mim faz sentido. Porque luto é singular. Quem está de luto, e luta, recebe o abraço, o apoio, a palavra amiga de gente disposta a mostrar que está ali. Mas o luto é só dele. Só ele poderá vivê-lo. Só ele é capaz de sentir completamente a dor que os milhares de cumprimentos desejam dividir. Dividir para distribuir o peso, para que se saiba que quem fica possui gente ao seu redor, disposta a ajudar a seguir em frente.
Mas a presença, a simples presença do outro, para quem luta no singular, conforta. Um abraço, um leve afago, um silêncio pronto a ouvir, um olhar para consolar. Estive disposta a tudo isso. Mas não é fácil presenciar a cena mais triste da sua vida e continuar com o propósito da fortaleza. Você desmorona, mas de preferência baixinho, para que ninguém veja. Porque é preciso. É necessário você ali.
Tentar viver o que sente alguém que sofre a morte do ente é atitude em vão. Porque você, você é o ser que fica. O que faz parte do mundo que fica. E segue, paralelamente, mas em vias muito próximas. E embora as palavras que você pensa em dizer escapem, embora tudo a ser dito pareça ser óbvio, você sabe do porquê de se estar ali.
A gente vê pessoas jovens morrendo sem sentido em todos os canais. A gente lê, fica horrorizado. Mas não imagina a dimensão quando se está lado a lado. A história dramática está passando diante de mim como um filme triste, tenso e com um final não definitivo, mas que se desenrola dia a dia, desolador.
O novelo da saudade e da dor que chega em diversas proporções não vão terminar. A lembrança fica. E fica mais. Mais de quem se foi permanece. Seja a vontade de conhecer o mar, o mundo, as letras. E o amor. Pouco tempo só, raros encontros, uma empatia espontânea. Tudo isso foi o suficiente. Para rasgar de tristeza. Para ensinar. Para deixar a dor melancólica, a dor por quem não vai voltar.

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