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Ismália

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Percebeu que estava entrando em depressão quando notou que todo mundo, ou todo o mundo, era mais contente que ela. Por que toda a gente, uma vez dividindo o mesmo cenário e as mesmas possibilidades de angústias, sorria? Por que se saber contente se Ismália sofria? Lembrou-se de uma professora de Literatura que dizia que o depressivo era o ser mais egocêntrico, porque achava que o universo girava em torno dele. E Ismália, de repente, se encaixou nessa definição.

Começou a chorar todo dia. Terminava o filme e ela chorava. Assistia à televisão e ela chorava. O debulho das lágrimas era insuportável, porque a angustiava de uma forma inexplicável. Era como se tentase conter com as mãos a água toda querendo sair das comportas de uma hidrelétrica. Sem água falta luz. Mas o choro, inexplicável, não conseguia libertar Ismália das amarras da alma.

A angústia parecia ter dia certo para se tornar mais intensa. No domingo. No domingo à noite. Ela não sabia se era pela programação da tevê, pela iminência da segunda ou pela confusão mental instalada. A tristeza de se sentir só, mesmo acompanhada. Paradoxal. Ismália tinha vontade de sumir, de buscar o porto.

O porto nunca foi bonito, ela sabia, mas o considerava atraente. O porto é a intermediação do passado e do futuro. O presente. No porto só se deixa o que passou e só se busca o que há de vir. Nada mais. Haveria no mundo um porto infinito? Somente um porto absurdamente grande poderia abarcar os sonhos de Ismália.

Seu sonho, naturalmente, era ir. Como era difícil a dor da partida e as despedidas lhe agrediam a alma, Ismália planejava explodir para que suas partículas se reencontrassem longe dali. A mágica do seu sonho a libertava de uma mutação de si. Seu sonho era perfeito, mas Ismália, querendo ir, no fundo era ciente que seu desejo era aquela velha tentativa. Tentativa de fugir.

Deixar o porto, abandonar o presente. Como no porto só é possível um trajeto – é impossível comprar um bilhete em direção ao passado – Ismália concluiu que seu sonho era o futuro. Mas ela chorava porque aonde quer que fosse a mancha do presente a acompanhava. Estava presente, a insígnia, sempre com ela. Encalacrada, a marca do agora encobria Ismália como um véu. Por baixo do véu ela era só saudade e sonho. Por cima, o presente, encobrindo o caminho. Por dentro, a vontade de ser só ela. Ismália quis chorar mais uma vez. Ismália, confusa, dormiu.

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Palhaçada

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- Tatiana, lembra do Beto?
- Que Beto?
- Aquele que te acertava com machado inflável na minha festinha de 3 anos!

Lembrei na hora. Tudo o mais se tornou irrelevante perto da massacrante lembrança daquela tarde. Inclusive o que minha irmã queria falar sobre o tal Beto, que hoje deve estar gigante. Eles se reencontraram num show esses dias, 12 anos depois do episódio do machado. “Legal”, comentei. “Nossa, tinha uma multidão e a gente se encontrou!”. “Hmm, legal”.
Para comemorar os três anos da caçula, minha mãe retomou sua veia de promotora de eventos perdida depois da minha última grande festa, de 7 anos. Com 8 a caçula nasceu, as vacas emagreceram e fazer festa ficou mais difícil. Entretanto, houve uma sobra e deu para organizar uma festinha em sala de aula para celebrar o terceiro ano da minha irmã. O que era para ser simples, um bolinho com refrigerante, tornou-se um megalomaníaco evento. Com direito a vestido vermelho de veludo para a aniversariante, distribuição de brinquedos infláveis para os convidados, decoração montada com papel crepom, isopor... e um palhaço. Sim, era imprescindível ter um palhaço, para alegrar (?) a festa.

- Mãe, eu não vou.
- Tatiana, por favor. Você coloca a roupa, fica um pouquinho e depois se veste normal. Só para ficar mais divertido.

Ela, como sempre, me convenceu. Diz meu pai que numa festa do meu irmão sobrou para ele ser o palhaço. Como ele não pôde comparecer à festa de 3 anos da caçula, eu não podia alegar que ele tinha mais experiência e deveria encarnar o papel. Meu irmão arrumou uma desculpa para não ir porque imaginou que iria sobrar para ele.
Lembro-me que a parte mais divertida foi se arumar. As professoras se mobilizaram, vieram com maquiagem, prenderam meu cabelo, deram dicas. Prontinha estava eu em sala de aula quando trouxeram a tropinha de pestes.
O primeiro que entrou me viu, começou a chorar copiosamente, agarrou-se na professora e assim permaneceu até o final da festa. E não pensem vocês que era um chorinho. Era um choro de pânico, o mesmo pânico da minha cara olhando para minha mãe. “O que eu faço, mãe?” “Fica longe dele”.
Os outros agiram normalmente. Ou seja, nem deram bola para a palhacinha que tentava, em vão, chamar-lhes a atenção. A professora ajudava e estimulava brincadeiras. Galinha que põe, cabra cega, roda cotia e o que mais a imaginação lhe ajudava a inventar. O garotinho chorão continuava afastado dos demais.
Uma hora as brincadeiras se esgotaram e Beto, o infernal (foi esse o apelido que lhe dei) teve a ideia de malhar o palhaço. Durante as rodas eu já tinha notado que ele me olhava de soslaio, com um risinho maroto. Mas achei que era a maquiagem. Não. Beto começou a implicar comigo e (lembra dos brinquedos infláveis?) começou a martelar a porcaria de um machado inflável em mim. No começo era de leve, depois começou a ficar pesado. Eu olhava com desespero para minha mãe, que achava bonito, chamava os outros para ver.
Outros pestinhas gostaram da brincadeira. No começo eu gritava “aiai” escandalosamente, a la “Os Trapalhões”. Eles se divertiam. Depois os gemidos eram de verdade, porque eles começaram a apelar para beliscões e tapas. O espaço da sala de aula ficou pequeno. Uma hora me escondi embaixo da mesa da festa, tamanha a insistência. Eles me encurralavam e Beto, o líder, ficava do outro lado me esperando, machado em punho. Muito da minha maquiagem ficou no brinquedo. O cabelo se soltou, a peruca caiu. No final eu parecia mais uma assombração que um palhaço. O garotinho do começo já devia ter desmaiado ao se deparar comigo daquele jeito, não me lembro mais.
Depois que terminou a festa, minha mãe tratou de recolher os restos. Docinhos, refrigerante, o que sobrou do bolo e o que sobrou de mim, que estava só o pó. Acabada, destruída por um bando de endiabrados que mal tinham saído das fraldas. Jurei para mim mesma que minha mãe não me pegaria de novo nessa. E que iria venerar todos os palhaços que cruzariam meu caminho.

No começo, sorridente
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Da arte de não ser estonteante

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Pode ser que eu não me encaixe nas “muito feias” que devem perdoar Vinicius, mas definitivamente não tenho algo de flor, algo de dança ou algo de haute couture. Sou daquelas que se encaixam no grupo que ele denomina como coisa impossível: o meio-termo.
Daquelas que acordam cedo para dar um empurrão na natureza, mas que precisam de muita sorte para que o cabelo colabore, para que a roupa caia bem justamente naquele dia e para que a impaciência não as faça romper laços defitivamente com o espelho.
É difícil encontrar uma mulher estonteante, mas isso não quer dizer que seja coisa rara, muito menos impossível. Você não irá encontrá-la em qualquer esquina, mas, se reparar bem, em cada turma de amigos há de se ter uma, para desgraça das demais. Mulher estonteante chama a atenção, rouba olhares. É bela por si só, sem esforço. A bicha fica bonita fazendo careta em foto, não há fotogenia que explique. Passa xampu Palmolive e creme de pentear Neutrox, seca o cabelo ao vento e, ao final, parece só faltar uma moldura em volta. As estonteantes, ô racinha, costumam dizer: “o quê? Nem fiz nada, só bati o cabelo e saí”. Fica bela com cabelo preso com caneta Bic. É acordada no susto, lava o rosto e sai correndo e, quando chega, parece adentrar o recinto como um monumento. O âmbar de uma tarde.
O rosto da mulher estonteante de Vinicius parece um templo e as estonteantes que eu conheço não sofrem com espinhas, maquiagem borrada ou imperfeições no sorriso. Elas sabem da sua beleza e, por vezes, até se envergonham da vantagem que possuem. Um presente dos deuses, entregue de bandeja.
Não sou feia que não possa casar, como bradou Adélia Prado. Mas, após terminar de ler a receita de mulher de Vinicius, percebo que sou como um bolo embatumado, um arroz empapado ou uma carne tostada nas extremidades. Dá para encarar, mas... Algo deu errado na minha receita e não busco aqui um trocadilho infame com o verbo comer. Muito menos pretendo um tom de autodesprezo flagelante na minha colocação, entenda-se.
As mulheres cuja receita deu certo, cuja fôrma foi devidamente untada e enfarinhada, que o forno não foi aberto antes de 30 minutos e, claro, que o fermento não passou da data de vencimento, sim. Essas são estonteantes. E o pior. As desgraçadas não se esforçam para tal.
Tento imaginar qual é a desvantagem que uma mulher estonteante deve ter em sua vida. Todas as roupas provadas ficarem perfeitas no corpo? Até imagino a indecisão da coitadinha, diante de tantas peças, dentro do provador opressor. Ou ser alvo de intrigas por não-estonteantes invejosas? Um perigo.
A mulher estonteante, sendo um conjunto de virtudes, carrega em si não só a beleza do frescor da manhã, mas a elegância, a educação e a doçura. Uma lady.
“O que você prefere, ser chamada de linda ou de inteligente?” “Inteligente”, respondi sem pestanejar. Mas uma parte de mim gritava, sufocada, que linda é o elogio, aquele elogio capaz de preencher sorrisos, mesmo os tímidos, de canto de boca. Gostosa pode ser vulgar, dependendo da hora e do interlocutor. Bonitinha, valha-me Deus, é uma feia gente boa. Estonteante não consegue exprimir tudo o que seu significado expressa. É uma palavra tão grande e desengonçada que parece um origami sendo desmontado. Bela é tão pouco usado na nossa língua que o elogio nem é tão utilizado. Lembra mais nome de cadela poodle ou loja de cosméticos.
Já linda é como se fosse a expressão da beleza mais pura e singela, que diz tudo por si só, como no refrão do Caetano Veloso. Linda desliza por entre os lábios, como se a palavra dita fosse quase uma afronta. É muito pouco para toda a beleza escancarada na sua frente. São apenas cinco letras para definir a, palavras de Vinicius, coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.
Mas ela deve ter algum defeito, diga que tem. Não há imperfeição incalculável, dear Moraes.


Uma delas:
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