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Herança

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No último encontro, lembramos do quanto nunca tivemos um pai típico, daqueles que assistem ao futebol, levam para dirigir, gostam de fórmula 1. Tirando a Copa do Mundo, não me lembro do meu pai parando na frente da televisão para assistir a um jogo, tomando uma cerveja. Ele nem bebe.
Talvez, por essa falta de influência, não aprendemos certas coisas. Não nos apegamos a certas coisas. Na infância, a imagem que eu tenho do meu pai é trabalhando. Saindo de viagem ou chegando de viagem. Indo dormir. Brigando, algumas vezes. Passando a mão na cabeça, outras.
O pai faltando na feira de ciências porque tinha que atender gente em casa. O pai se desculpando por não ter embrulhado o presente. Não importava, sempre tínhamos os melhores.
Não aprendemos a torcer pelo futebol ou pela fórmula 1, mas aprendemos coisas que outras crianças não sabiam da existência. Fomos filhos de um comerciante que vendia tudo em casa, que viajava três vezes por semana. Aprendi, desde criança, a ouvir notícias sobre fiscalização na Ponte da Amizade com o coração na mão. No final de semana ele queria dormir ou tinha que separar mercadorias, não dava para ver futebol.
Época de Natal era o período do caos, como sempre foi, ao longo da nossa vida, pois de viajante ele passou a ser Papai Noel. Assim, desde pequenos eu e meu irmão aspirávamos aquele pó de terras paraguaias e convivíamos com gente estranha em casa. Desde pequenos a gente sabe fazer troco, contar mercadorias, embrulhar presente, calcular porcentagem, fazer mercado. A gente aprendeu a fazer depósito, recuperar cheque devolvido, pedir e dar desconto.
Teve uma vez que ele comprou cinco lojas. Ninguém entendeu. Cada um pegou uma chave e ficou responsável por cuidar de uma. Enquanto todo mundo aproveitava as férias, eu acordava cedo para abrir a loja. Enquanto todo mundo estava de férias, a gente respondia cartinhas (milhares), de crianças do país todo.
Não guardamos nada de ruim desse tempo. No nosso último encontro, lembramos dessas coisas e rimos de outras. Sempre soubemos que o pai ensinou o que pôde.
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A derrota

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O despertador. A noite comprida. Medo de perder a hora.
- Vamos lá?
Fui, nem tava tão nervosa. Testei a ré, consegui.
- Agora só esperar.
Duas longas horas de espera. Ansiedade batendo já.
Ouvi as regras, entendi as regras. O primeiro do trio foi, voltou todo torto.
- Ih, tenho certeza de que reprovei – disse ele quando voltou.
- Ah, passou sim – respondi eu distraída, olhando para o segundo.
Ele ainda puxou assunto. Não respondi direito, nervosismo martelando no peito.
Fui chamada. Entrei no carro, fiz tudo certinho. Terminei como tinham me ensinado, mas aí achei que tinha errado, que podia ser melhor (mania). Tentei arrumar o que não precisava de conserto, caguei tudo. Já vi que tava errado. A mulher veio.
- Tava certo antes, agora você errou, vai ter que fazer de novo.
Aí o coração na boca querendo saltar. Só ouvi o barulho do carro batendo no protótipo da frente.
Falta eliminatória.
- Desliga o carro e pode sair. Amanhã remarca.
Se houvesse uma imagem para a palavra derrota, seria eu. Pequenininha, percorrendo o pátio. Chorar não dava, nem tinha vontade. Demorou pra cair a ficha, precisava falar com alguém.
- Reprovou?
- É. Baliza.
- É a terceira vez que estou fazendo. Da primeira deixei morrer, da segunda...
Nem ouvi mais, porque as três moças do ponto de ônibus começaram a ficar alvoroçadas, cada uma querendo contar sua melhor/pior história. Precisava falar com alguém longe de tudo aquilo.
- Mãe...
- Tudo bem?
- Nem. Reprovei no teste de direção.
- Ah, mas é assim mesmo. Depois você faz e passa. Mas o quê? Ficou nervosa? Por que a psicóloga não te aprovou?
- Que psicóloga, mãe?
- Não era assim o teste?
- Não, esse eu já fiz. (Há muito desisti de fazer meus pais lembrarem o que eu já falei. Meu pai, quando contei a nota do TCC da pós, me perguntou se era o de Letras. “Pai, você não foi na minha formatura de Letras há meses? Como é que ia ser de Letras?” “Ah, Tatiana, você sabe que teu pai é esclerosado” ). Hoje foi com o carro, mãe. Me atrapalhei e bati no carrinho da frente. Mãe, para de rir. Mãe, não é pra rir, é pra me consolar. Mãe, fala comigo. Ai, meu Deus do céu.
- Ai, Tatiana, não consigo. Fala aqui com sua irmã.
Ela passou o telefone ainda gargalhando. Minha irmã ouviu a história toda e imaginou que eu tinha batido em todos os carros no estacionamento, de tanto que minha mãe ainda ria. Não, foi no carrinho de mentira.
Meu irmão nem riu. Só me falou que reprovou também, igualzinho, da primeira vez, na baliza. Hoje foi o dia de me contarem histórias trágicas de testes de direção. De todas as tentativas de consolo, a única que conseguiu tal feito foi de um amigo de um amigo que reprovou duas vezes, DUAS VEZES, porque esqueceu de colocar o cinto. Tá, me ganhou. Até consegui dar uma risadinha.
Amanhã remarco, vou tentar mais uma vez. E mais uma, mais uma, quantas vezes forem necessárias. E espero que não sejam muitas. Acontece, você tava nervosa, da próxima você vai bem, você verá. É só isso que eu escuto. Pode até ser. Mas enquanto esse dia, o da certeza não vem, eu quero é curtir minha fossa. Quero é ficar quietinha, sem ter que responder o porquê da tristeza. Fracassar é para poucos, fracassar com dignidade para bem menos ainda.


É, Raulzito. Nada acabou.
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