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De todos, Marcelo

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Ele só tem um olho, o outro foi perdido. O braço direito está por um fio, a boca, quando aberta, deixa aparecer a marca de uma canetinha vermelha. Um dos braços tem uma espécie de plástico por dentro, o outro não – motivo de um mistério insondável, descoberto só muitos anos mais tarde. Ao fundo da boca, uma peça dura, que também sempre fez parte do mistério.
Assim descrevo o meu brinquedo de infância predileto, que me foi dado no meu aniversário de um ano. Mas foi só com uns cinco que o batizei. O cachorrinho de pelúcia passou a ser Marcelo, nome do vizinho da nossa sorveteria, com quem eu brincava todo dia.
Nunca mais ouvi falar do Marcelo, o garoto, que hoje deve ter bem uns 30 anos. O cachorrinho continua lá, na minha ex-cama, posto de destaque frente às dezenas de brinquedos que povoam as prateleiras. Marcelo é bem menos conservado que as bonecas, as barbies, todas bem penteadas e sem um pingo de pó, fruto do trabalho minucioso da minha mãe, que não deixa por nada a gente doar os brinquedos de infância.
Marcelo, entretanto, é o preferido. O único que eu carregaria comigo, se me mudasse para sempre (enquanto ainda mudo temporariamente ele continua lá, reinando sobre minha ex-cama).
Sempre o considerei único, diferente dos brinquedos que meu pai trazia para mim do Paraguai, dos quais sempre existiam outras cópias para serem vendidas na loja que tínhamos em casa. Qual não foi minha surpresa, porém, quando conheci um outro Marcelo, esse sim bem conservado. Uma companheira de apartamento trouxe o Marcelo dela, com os dois olhos intactos, um lacinho vermelho no pescoço e (choquei) um mecanismo pelo qual ao apertar a mão esquerda, ele abria a boca. Desfeito o mistério, o Marcelo original era cheio de artimanhas.
Mas não olhei para o Marcelo da companheira de apartamento com nem um pingo de inveja. Foi por ter brincado com meu cachorrinho de pelúcia preferido até dizer chega, foi por ter arrastado ele pelo chão encardindo todos seus pelos brancos, obrigando minha mãe a lavá-lo na máquina de lavar, que hoje ele é o que é para mim. E eu sou o que sou. Uma menina de 25 anos que arrasta um cachorrinho de pelúcia entre suas lembranças.



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A chegada

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Não foi agradável a viagem. A menos que você considere que desagradável é uma palavra muito forte para definir onze horas de voo dividindo o banco com as pernas dobradas da mulher ao lado, que se esparramou para dormir no colo do marido. A menos que desagradável seja uma palavra muito forte para exprimir a vontade irreprimível de ir ao banheiro e enquanto você espera na fila, uma mineira puxa um papo interminável e no exato momento em que você consegue escapar e anuncia a sua nova amiga de que vai entrar no banheiro, a aeromoça grita: Agora todo mundo sentado que tem turbulência!
Assisti a um filme em italiano, para matar a saudade antecipada da língua que eu me esforcei a aprender nesse meio tempo. E com sorriso disfarçado nos lábios, me dei conta que entendi tudo (salvo uma palavra e outra) como se estivesse assistindo em português. Fora o filme e os minutos dedicados à refeição (se você considerar desagradável uma palavra muito forte para definir uma comida, finja que não leu essa parte), tive muitos momentos em que seria possível a minha cabeça trabalhar bastante, algo comum nos meus silêncios. Mas abandonei as reflexões interiores durante a viagem. Não quis pensar nos meus próximos passos, nem mesmo no plano número um de devorar uma coxinha assim que aterrasse os pés em terras brasileiras (melhor dizendo, os pés no aeroporto brasileiro, onde para comer uma coxinha é necessário penhorar um órgão). Quis transformar esse momento no ar em uma pausa fluida e gelatinosa como flutuar no ar dentro de uma bolha. Sem ponto de partida, nem ponto de chegada, um devaneio.
Mas assim que o avião pousou e o comandante anunciou que éramos bem-vindos em São Paulo, eu ouvi os acordes de Luz Negra, do Cazuza. Mal tive tempo de distinguir a música e o grupo evangélico que estava no avião, voltando de uma excursão à Terra Santa, puxou uma calorosa salva de palmas. Assim que deixei de bater uma mão na outra, aproveitei para enxugar minhas lágrimas, que não respeitaram minha intenção de devaneio. Elas pousaram antes de mim.

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Envelheço na cidade (eterna)

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Acho que consigo me lembrar de todos os aniversários que tive, desde os da mais tenra idade, graças às fotos das festas idealizadas pela minha mãe. Do 1º ao 8º ano foram superproduções, com vestidos-bolos, bolos-castelos, decorações dignas de carros alegóricos e um minucioso registro fotográfico. A partir do 9º aniversário minha irmã nasceu e virei gata borralheira.
Mesmo assim nenhum aniversário passou em branco. Sempre tive bolos para cortar, velas para apagar e amigos para receber. Virou uma espécie de ritual não deixar o aniversário ser uma data qualquer. Acho engraçado quando alguém diz que não gosta do seu aniversário. Eu adoro os meus, são como a demarcação, com outra pedra fundamental, de uma fase que começa e, principalmente, do inferno astral que termina. Eu festejo a cada ano meu nascimento, teria por que não festejar?
Este ano envelheci sozinha. Demarquei a chegada dos 25 anos em Roma, a cidade eterna, que não acaba de ter coisas para mostrar. Quando se acredita que toda a história já foi desvendada, alguém escava e descobre mais um monumento. Tem outra cidade lá embaixo. Mas em Roma, senti pela primeira vez o peso de uma história. Não só da minha, mas a história dos lugares que visitei. Imaginei tudo que se desenvolveu ali, há um punhado de séculos, naquele espaço que eu estava serpenteando como turista. Eu estive no lugar onde se acredita que foi assassinado o homem que disse a frase que tenho tatuada nas costas. Até hoje as pessoas depositam flores em homenagem a um morto milenar. Olhar para as rochas que resistem ao tempo dessa forma produz a estranha sensação de se ouvir as vozes dos antigos romanos. Um pouco assustador.
No meu último aniversário, pedi que dali um ano eu não estivesse no mesmo lugar. Deu certo. Estou onde sempre quis estar e onde jamais imaginei estar. Contraditoriamente, pela primeira vez envelhecer me entristeceu. Foi só dar meia-noite que chorei sozinha sentindo o peso das coisas, das costas, dos custos. Do quanto custa saber. Quem se é, aonde se quer chegar e se a gente está disposto a morrer um pouquinho para conseguir. Sonho e sangue, como diria o Belchior. Falta só voltar à América do Sul.

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Sob o azul

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Cenário: um campo cheio de olivas de um lado, casas bonitas e bem cuidadas do outro.

Horário: final de uma tarde esplendorosamente azul.

Personagens: eu e o bebê, mas o bebê dormia.

Ato: conduzir o carrinho por uma rua estreita, a última da vila.

Trilha sonora: o som do carrinho no asfalto.

O espetáculo: o sol quase se pondo a Oeste e, ao girar a cabeça perpendicularmente a Leste, encontrar a lua crescente que despontava, tímida, quase transparente no azul. No meio dos dois astros, rastro de nuvens em um céu, repito, esplendoroso. E embaixo eu, movendo a cabeça lentamente de um lado a outro.

Conclusão: um dos meus raros momentos de paz. Uma injeção de ânimo. E saber que não estou sozinha enquanto tenho meus olhos, meus cúmplices.
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Na garganta

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Foi quando eu tinha uns 12 anos. Estava visitando meus tios no Rio de Janeiro e voltava da casa de um deles perto do meio-dia. Prestes a entrar no prédio da minha outra tia, onde passava a maior parte do tempo, aconteceu. Uma força estranha e invisível me arremessou para trás. Senti uma dor na garganta e quando passei a mão constatei: sangue.
Descobri minutos mais tarde que não era uma força invisível e sim uma linha esticada onde garotos tinham lambuzado de cerol. A mistura de cola e vidro moído me cortou a garganta, mas foi de levinho. Claro que fiquei assustada, mas o que mais me deixou espantada foi a voracidade com que minha tia, quando descobriu, avançou sobre a linha e esbravejou contra os moleques. Ela destruiu todo o trabalho.
Tenho a cicatriz até hoje. Para mostrar àqueles que duvidam quando eu conto a história, mais uma “das que aconteceram comigo”. Anos mais tarde, a garganta quase me matou de novo. Tive uma hemorragia séria depois de uma cirurgia e achei que daquela vez ia mesmo.
Uma amiga, estudiosa dos mistérios do corpo e curas naturais para seus males, vive me alertando que as constantes dores de garganta querem me dizer algo. Certa vez ela citou algo como “coisas que eu não me permito exprimir e, não sendo despejadas para fora, ficam abafadas na garganta”. Concordo.
Seria exagero dizer que habita duas dentro de mim e ainda mais clichê afirmar que todos nós temos duas faces opostas coexistindo no mesmo ser. Mas isso exprime bem o que quero dizer. Porque embora na maior parte do tempo a Tatiana boazinha toma as rédeas do espetáculo, também existe a Tatiana má, que espera na coxia a sua hora de entrar em cena. E na maior parte das vezes, a boa não deixa.
A Tatiana boa é doce e quase serva. Insegura, acha que tem que se doar por completo, e além do completo, porque não é boa o suficiente. Deixa-se levar, sofre abusos de autoridade, perde seu tempo com os outros e no final ainda se conforma com a vida, que, ora, é assim mesmo. Enquanto isso a Tatiana outra grita, urra. Não gosta da outra, mas depende dela, por isso lhe faz advertências, mil súplicas... De nada adianta.
Talvez minha amiga tenha feito o diagnóstico mais preciso de sua vida. Há três ou quatro dias eu ando com uma gripe/resfriado meio estranha. Parece que nunca tive isso antes. Sinto o pulmão cheio e quase obstruído de (desculpe aqueles que têm nojinho) catarro e nem a tosse mais tuberculosa o tira de lá. A garganta arranha, dói, lateja. Tenho me armado de receitas caseiras, mas não passa.
Desconfio que é a Tatiana má mandando seu sinal. Ela nunca quis falar tanto quanto antes. Precisa de atenção, precisa de luz focando seus trejeitos e descobertas. Necessita, ainda mais, que os expectadores falem português. Ela não consegue.
Temo que ela nunca estará satisfeita. Porque mais difícil que expurgar esse catarro do pulmão, é ainda pior extirpar o outro, o da alma.
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Prece

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Quando eu peço a Ele “livrai-nos do mal”, na oração que gosto de rezar, está incluído no pedido que afaste de mim pessoas que não são do bem. Aquelas que carregam maldade em seu peito, aquelas invejosas, aquelas que não sabem amar. Pessoas doentes, pessoas que fogem, pessoas que imaginam que neste mundo ter a si mesmo é o que basta, que se vendem por pouco, que se deixam dominar por um orgulho cego, que se arrastam pela vida guiadas por sentimentos malévolos. Desse tipo de gente, Deus, eu quero mesmo é distância.
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A lua

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Se me perguntassem, aos dois anos de idade, qual era meu maior medo, eu responderia: a lua. Foi motivo de muitas gargalhadas do meu pai, que gostava de atiçar meu temor. Ele me punha em frente a uma janela larga, que se estendia por quase toda a sala do nosso apartamento, sem cortinas, e se divertia com minha cara de pânico diante da lua.
Eu não sei explicar por que ela me incomodava. Talvez por ela ser grande, única e majestosa, reinando branca num império negro de servas estrelas. Ela parecia me olhar de um jeito impositivo, desafiando-me a mostrar quem eu era. E aos dois anos acho que eu não tinha muita ideia da minha real identidade. Nem que isso existisse.
Venci, aos poucos, meu medo da lua. Adquiri outras fobias, mais normais, como de répteis ou de altura. A lua voltou a me desafiar quando parti da casa dos meus pais rumo a terras estrangeiras. Quando viajei, digamos assim, ao encontro do meu voo mais alto.
Enquanto eu chorava pela saudade antecipada que já estava sentindo de quem eu deixava, dos medos, da insegurança de trilhar um caminho muito antes desejado, mas nem tampouco fácil, a lua me fitava pela janela do ônibus. Ao contrário da minha infância, não perguntou mais quem eu era. Questionou-me apenas o que é maior: a saudade ou o desejo.
Pois eu respondo, dona lua, nenhum é e nem deve ser maior que o outro. Estarão sempre permeando nosso caminho, ora interferindo, ora apenas observando, como um astro a brilhar por nós de longe, no céu.
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Meu

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O sonho trago embalado aqui dentro
Por vezes esqueço de o embalar e ele ressurge
Lembra-me de tudo o que quis e que é possível
O sonho é meu, apenas meu de ser, embora haja torcida
Trago apenas a esperança de compartilhá-lo

Hoje, porém, acordei com gosto amargo de sonho distante
De sonho longe, acenando para mim do navio
Quem parte é o sonho e não eu, o que me deixa partida
E mesmo sofrendo não posso deixar de avistá-lo

O sonho que me embala é o sonho que eu embalo
Eu faço o que posso, peço arrego, peço ajuda
Sem esse sonho me sinto perdida, sem vontade alguma
E me desespera essa falta de sonho, essa falta de vida

O sonho que me embala é o sonho que eu embalo
Sozinha.
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CUIDADO! Baixe os olhos ao passar por ele (a)

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Tem gente que deveria andar com uma placa assim pendurada no pescoço: CUIDADO, baixe os olhos quando passar por mim. Tenho um(a) namorado(a) demente. Nem todos os “privilegiados” têm essa feliz ideia. É aí que surgem os barracos astronômicos, na imensa maioria das vezes sem razão de ser. Quem passa por ridículo... bem, não é difícil de imaginar, né?
O primeiro sintoma do possessivo doente é venerar seu objet... digo, seu(a) namorado(a). Considera-o mais amado e idolatrado do universo, save salve. Sendo assim, é claro que todas as fêmeas de um raio de 100km, quiçá do universo inteiro (não esqueçamos das facilidades virtuais), não fazem outra coisa na vida a não ser desejar seu macho. E, em sua doente fantasia, não excluem da lista nem a mãe dele e nem a cadela de estimação.
Parece exagero, mas não é. Já ouvi casos de namoradas que armam pitis absurdos porque o rapaz deu ração para o cachorro antes de telefonar para a amada passando o relatório diário. Casos de namorados que jogam o parceiro contra a família inteira são mais comuns que alimentos com glúten.
A psicologia explica. A veneração e o medo constante de perda e traição se baseiam num sentimento comum a todas as pessoas: a insegurança. Por não perceber as próprias qualidades, atribui ao parceiro(a) virtudes quase que irreais. Como eu disse antes, insegurança é comum e perfeitamente aceitável. Mas para os possessivos doentes, isso vai muito além dos limites considerados saudáveis. Vira doença.
O fato de perder as estribeiras pode ter a ver com não se garantir, ter tido uma infância traumática ou até problemas familiares. Uma amiga minha, que nunca conheceu o pai, confessou-me que todos os seus namorados funcionavam como substituto paterno. Além do ciúme exacerbado, acreditava que o namorado poderia deixá-la a qualquer instante (como o pai havia feito). Anos de terapia e hoje leva uma vida normal.
Engana-se, porém, quem pensa que apenas uma parte do casal esta errada. Quem consente com essas cenas catastróficas de ciúme sem limite, na minha opinião, merece levar uma vida de eterno(a) cachorrinho(a). O mais espantoso é que tem gente que gosta.
Pena. Não aprendem que o mais gostoso de um relacionamento é a confiança que a gente ganha ao longo do tempo. Viver na corda bamba, futricar a vida do outro na Internet à procura de vestígios, enxergar rivais no poste, isso não é vida. É doença. Além do mais, o casal perde amigos, convites, oportunidades de dividirem bons momentos e até empregos.
Já ouvi histórias de gente que foi proibido pela namorada de terminar a faculdade por causa de um colega “risco”. Um amigo tinha uma namorada que pedia a ele dar um toque no telefone de casa quando chegasse. Ele mandava o irmão mais novo fazer isso e continuava na balada. Conheci gente que atendia o telefone fazendo cocô, manobrando o carro, no dentista, porque se demorasse dez segundos, geraria desconfianças.
Aliança, promessa de casamento, ligações frequentes, choro, ranger de dentes, manipulação, chantagens, jogar-se no chão, nada disso prende ninguém. Aos possessivos doentes de plantão, quem sabe vale a pena recomendar dar ao parceiro um sonífero e prendê-lo em grades bem fortes. Ou, quem sabe, duas passagens ao Alasca.


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O destino de Cauã

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Na rodoviária, esperava o lanche absorta em pensamentos, quando os devaneios foram interrompidos por uma vozinha de criança.

- Tia, meu cabelo está bonito?

Não pude deixar de rir. Um garoto lindo, como aqueles de comercial. Os olhos azuis, bem azuis. As bochechas rosadas e um sorriso capaz de abalar qualquer ranzinza. Disse que sim, estava bonito, mas ele retrucou dizendo que não, estava feio.

O pai riu e me falou que não deu tempo de cortar o cabelo do filho antes de viajar. “Aproveitei meu único dia de folga para fazer isso, mas o lugar estava fechado. Vai chegar ao Paraná cabeludo, não tem outro jeito”.

Reparei nas malas, pouca coisa.

-Vão passar pouco tempo lá?

Então ele me contou a história toda. O senhor O.J., como o chamarei aqui, separou da mulher poucos meses antes de Cauã nascer. A mãe ficou com a criança, mas quando tinha 1 ano e 6 meses, Cauã foi encontrado pelo pai cheio de hematomas e uma infecção no ouvido. Levou-o embora para São Paulo. Lá não recebeu ajuda de ninguém. “Nem meu pai acreditou em mim, disse que eu roubei o menino”.

Éramos interrompidos, vez ou outra, pelas travessuras de Cauã. Perguntou meu nome umas três vezes, se eu ia comer, quando eu ia comer, falou do cabelo de novo, quis tomar coca, não quis mais tomar coca, devorou as batatinhas, quis mostarda, odiou a mostarda, recusou o sanduíche.

Quando chegaram em São Paulo, os dois moraram em hotel, até O.J. ter dinheiro para juntar três meses de aluguel e poder alugar uma casa. Trabalhava em dois empregos, direto, sem dormir. Chorou em uma creche para poder deixar Cauã durante todo o dia por R$ 150,00. À noite, ele ficava na casa de uma amiga do pai. Ainda dói para O.J. aceitar emprego aos finais de semana, porque é o único tempo que pode ficar com o filho.

O motivo da viagem dos dois é a audiência, marcada para hoje, que vai decidir o destino de Cauã. E levar a questão à Justiça foi desejo do pai. “Não quero que ele cresça e pense que eu fiz a coisa errada, que eu não dei chance de ele morar com a mãe”. O conformismo dele, de entregar o filho a uma mulher acusada de maus tratos, que inclusive perdeu a outra filha ao Conselho Tutelar, perturbou-me. Mas por trás do discurso, O.J. estava, sim, inconformado. “Sou calmo, mas se o juiz disser que ele tem que ficar lá, sei lá o que faço, sou capaz de fugir com o menino”, disse mais tarde. Tentei acalmá-lo e convencê-lo de que qualquer juiz daria a guarda a ele, pelo histórico da mãe.

Estava cada vez mais cativada por Cauã. Brinquei com ele até fazê-lo dar umas boas mordidas no sanduíche, em troca de uns goles de soda limonada. Limpei-lhe a boca, fiz carinho nos cabelos. Se em meia hora eu já queria o garoto para mim, imagina ficar mais de três anos – hoje Cauã tem quatro – e estar diante da possibilidade de perdê-lo?

O.J. falou para o filho, no caminho para a rodoviária, que ele poderia morar com a mamãe. O menino chorou. Até eu quase chorei, quando ele contou isso. Depois, o pai disse algo como “dizem que a criança tem que ficar com a mãe e eu admito que eu não sei cuidar dele direito, sou mole para dar ordens, mas o amo muito”.

Hoje, como falei, é a audiência que vai definir o futuro do Cauã. Talvez até já tenha acontecido. Sei que pensei nisso o dia todo. Talvez pela tranquilidade de O.J., uma mistura de confiança e fé, sem desesperos. Ouvi apenas a sua versão e sei que isso não engloba a história inteira. Mas antes de entrar no meu ônibus, olhei os dois aguardando o embarque. Deparei-me com um garotinho dormindo serenamente no colo do pai, repousando a cabeça no ombro do seu protetor e segurando no braço dele com suas mãozinhas. Nesse momento, desejei fortemente que Cauã e O.J. ficassem juntos. Porque é assim que tem que ser.

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Lagarta

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Sabe quando eu te pergunto se a vontade de largar tudo passou e sabe quando você me responde que não, sabe que isso me conforta? Ontem eu vim aqui e conversamos só um pouco, mas o suficiente para te ver feliz. E isso também me conforta.
Eu estou um pouco mais retraída, mas isso não tem a ver com ciúme. Ou brabeza. É só um tempo que eu preciso para parar, entender e absorver. Faz parte do meu aprendizado olhar alguém como você e ver que tudo dá certo. Que gente inconformada também tem manhãs de sol, planos para um futuro próximo e uma sorte que transforma poça de água em chafariz.
Eu queria te acrescentar o tanto que você me acrescenta, eu queria te chacoalhar como a sua amizade me chacoalha e eu queria te inspirar como você me inspira. Eu queria ainda ter essa sua humildade profissional em se espantar quando alguém escancara que você é competente e imperdível. Eu queria, mas não posso. Não hoje, nesse dia de quietude. Hoje eu preciso ficar sozinha, ou então ficar acompanhada, mas só ouvir. E aprender.

"Quem é você?", perguntou a lagarta.
Alice retrucou, bastante timidamente. "Eu, eu não sei muito bem, Senhora, no presente momento - pelo menos eu sei quem eu era quando levantei esta manhã, mas acho que tenho mudado muitas vezes desde então".
(Lewis Carrol, Alice no país das maravilhas)
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Depois a gente vê

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Recebi um e-mail do meu pai hoje, encaminhando a resposta que ele recebeu de um grupo de comunicação. Veio sem explicação nenhuma para mim, mas a mensagem mostrava um e-mail enviado por ele, contando que era o Papai Noel, o trabalho desenvolvido, etc e oferecendo uma parceria. A pessoa do tal grupo respondeu perguntando qual era o tipo de parceria, para aí avaliar se havia interesse.

À noite meu pai me ligou e perguntou se eu havia recebido o e-mail. “Sim, pai, mas que parceria é?”. E ele: “pois é, isso que eu queria ver contigo, você tem alguma ideia?”

Meu irmão resumiu bem esses rompantes que costumam atacar o Papai Noel: “Pai, é como se eu visse uma placa de aluga-se em uma sala comercial, aí pedisse as informações de preço e acertasse tudo. Então eu te ligo e pergunto: e aí, pai, o que você acha que eu coloco na sala?”

Não posso culpá-lo. Vez em quando outra faço essas loucuras. E a mania começou cedo. Por volta dos 10 anos de idade, decidi colocar um anúncio no gibi do Zé Carioca fazendo propaganda de um clube, uma rede de amigos. O nome era Bud’s Line. Recebi uma cartinha logo depois, dizendo que o anúncio tinha sido aprovado. Comprei o gibi e achei o anúncio, impresso, com meu endereço. Orgulho.

Mas o porquê do nome, qual era a do clube ninguém sabia. Muito menos eu. E essas eram as perguntas das cartas que chegavam lá em casa, aos montes, do Brasil todo. Um dia meu irmão disse que o carteiro perguntou a ele o que tinha lá em casa, pra tanta carta chegar ao nosso endereço, direcionadas a um negócio de nome esquisito.

Eu nem lembro o que falei quando chegou a hora de responder aos novos integrantes do Bud’s Line. Devo ter sido sincera, que não sabia patavinas por que coloquei o nome, muito menos o que dizer naquele momento. De maneira que poucas pessoas retornaram as cartas.

A única que me lembro se chamava Ione e morava no Rio Grande do Sul. Viramos grandes amigas, através das linhas escritas, por anos. Nesse tempo, Ione jogou handebol em um campeonato, me contou de namorados e ficou grávida do Pablo. Tudo isso ela compartilhou pelas cartas. Gostava tanto da Ione que bordei umas toalhinhas com o nome do filho dela e mandei pelo Correio.

Da amizade com ela surgiram outras, desencadeadas por espécies de correntes enviadas por cartas, em um tempo que nem se falava em Internet. A gente escrevia o nome e o endereço em uma espécie de caderninho de amigos, que rodava o país. Nesses bloquinhos, conheciam-se muitas pessoas que se dedicavam às cartas. Gente que entendia a mágica de enviar e receber um escrito pelo Correio, gente que ficava feliz com notícias de pessoas com as quais nunca havia se encontrado. Foi assim que fiz outros amigos, o Augusto, a Renata e a Alice, que esses dias até me encontrou no Orkut. Com os outros, restou apenas a lembrança. Não há mais contato. Não lembro como minguou a amizade, ou se foi apenas a vida que mudou.

E pensando nisso, percebi que, sem saber e sem querer, a minha ideia do Bud’s Line resultou mesmo em uma rede. Uma corrente de gente do bem, que se fez bem mutuamente por um período.

É por isso que eu acredito, piamente, nas ideias loucas do meu pai.

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Encaixotando a vida

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A sensação não deixa de ser estranha. Em pouco tempo, você vê tudo o que você tem se transformar em pilhas, em caixas, sacolas amontoadas pelos cantos. A intenção era organizar, mas o que sinto é justamente o contrário. Ao revirar papéis, fotos, escritos de uma vida que já foi e que insisto em guardar comigo, sinto-me como que espalhada pela casa, por cada cantinho dela.

A casa não é mais minha. Sou apenas uma hóspede que divide lugar com nostalgias que flutuam pelo ar, com a ausência de tudo que já vivi. Sobra pouco espaço para a expectativa do que ainda está por se descortinar. Junto com as caixas e sacos devidamente organizados, estou eu, como que fragmentada. Estou dividida, porque em cada coisa carregada está um pedaço meu, uma lembrança.

Arrumar a mudança mexeu comigo. Uma porque o que eu nutria pela cidade era um sentimento de derrota. Era como se tivesse perdido para o lugar, uma vez que não havia conseguido ser dele. Talvez, nunca tenha me esforçado o suficiente. Mas o contato com as lembranças me fez voltar de novo o olhar para a cidade. Sim, ela me acolheu. E aqui eu pude ser feliz.

Os pedaços felizes não se sobrepõem aos tristes, nem o contrário. Sou o que sou porque nesses sete anos se mesclou todo tipo de experiência. E os sete se juntaram aos outros dezessete. Sou o que resultou disso e volto com a consciência tranquila. Ainda bem que a mudança me fez entender isso. A casa vazia, a vida encaixotada, tudo segue. Roupas foram doadas, papéis foram descartados, mimos continuarão guardados, mas em outros porões. Esvaziei a mente de lembranças porque elas estavam me atordoando.

Agora eu voltarei às ruas, calçadas, praças da cidade com os olhos de quem por aqui já viveu, mas agora precisa ir. Não é carinho o que sinto. Talvez nem agradecimento. Saudade sim, de quem deixei. Mas o que salta a tudo isso é essa coisa que me instiga, essa coisa que cutuca. Essa coisa de estrangeira.

Desse céu eu sempre vou sentir saudade



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Sangre

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É pela dor e pela falta. Sei muito sangrar quando as coisas não vão bem. Pode ser difícil as lágrimas rolarem, mas elas vêm, ah vêm. O atraso me incomoda, me incomoda ainda mais a impotência. Eu passei dias sem entender a irracionalidade humana. Sem entender porque as pessoas precisam machucar o outro para se redimir. Eu me senti fraca para cumprir as obrigações, porque cumprir obrigações é o que há de mais chato nessa vida. Eu precisava sangrar, de raiva, de falta de coragem. Tudo explodiu hoje, com a ressaca desse dia cinza, um dia de folga, de festa, dia de euforia, de encontro. Para mim o dia virou dia útil, dia de trabalho, de se sentir sozinha, pequena, esquecida, raivosa. Dia de sangrar. Eu ainda planejo como encontrar quem me deixou sem resposta, mas acho que quando esse dia vier, ficarei quieta. Setenta vezes sete. Engoli a dor, a incompreensão, mas preciso de ajuda. Até para sangrar eu preciso de ajuda. Não sou nada independente. Preciso que alguém me explique que machucados estancam, eles não sangram para sempre. Depois vêm outros machucados, e outros curativos, intermitentes, cíclicos. O mundo inteiro evita sangrar. Eu evito coagular. Acho sangrar mais digno. Apenas você pode sangrar a sua dor, ao invés de depositar nos outros a sua solidão, a sua indignação e revolta, a sua falta. Mas até para sangrar eu preciso de ajuda...


El miedo es una mierda
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Rumo ao total

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Eu não vou me eximir. Já contei inúmeras histórias únicas. Já me deixei levar por visões unilaterais, já deixei que uma raça, origem, status classificassem uma pessoa, muito antes dela própria. Enganei-me, na maioria das vezes. Aprendi, em todas elas.
Chimamanda fala da imagem construída de povos, mas a gente pode ampliar o reino de histórias únicas para muitos outros campos. Eu, por exemplo, quando pequena, consumia contos de fadas em que o único final feliz era o casamento. E para conquistá-lo, a mulher deveria ser uma bela e doce princesa. Agradeço por alguns outros livros terem cruzado meu caminho, pessoas me alcançado e que novas percepções tenham me sido mostradas. Não me considero isenta de construir e crer em histórias únicas, mas uma pequena porção de algumas particularidades já se descortinou ante meus olhos.
Hoje mesmo (um dia depois de eu assistir ao vídeo), um colega de trabalho comentou que o gol da seleção sul-africana seria reproduzido no país pelos próximos quatro anos. E acrescentou: “na única televisão que eles tem lá”. Perguntei se ele gostaria que pensassem o mesmo do Brasil. No que ele retrucou: “Ora, mas eles vivem em um país de terceiro mundo!” “E você não?”.
O interessante no relato de Chimamanda é que ela não cai na armadilha de contar apenas as histórias únicas que contaram sobre ela. Ela fala ainda das próprias histórias únicas que construiu. Mas fala também que, em tempo, descobriu o paraíso.


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Capítulo

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Um sábado à noite sozinha faz a gente pensar em muita coisa. Ao som de Janis Joplin, os pensamentos voam e a gente quase se teletransporta. Quando canso do passeio, desligo o som, ligo a televisão e só escuto o final da novela. Nunca assisto, mas incrivelmente sei tudo que está havendo. Tudo faz sentido.
Lembrei de quando eu assistia a novelas e da sensação que me dava quando eu ouvia a música da abertura ao final do último capítulo. Era uma coisa estranha, de algo sendo visto e ouvido pela última vez. Tanta coisa passou até todo mundo casar, ter filho, até todo mundo (com exceção de um ou outro vilão), quase em uníssono, decretar: esse é o dia mais feliz da minha vida. Pronto, a felicidade aportou.
Lembrei também de um churrasco ao qual fui, onde um dos convidados tocava violão e uma menina arriscou cantar Janis. Primeiro timidamente, depois com a força toda dos seus pulmões. Gostei de ouvi-la. Nunca mais voltei àquele lugar e talvez jamais volte. Mas ficou a sensação.
Talvez, a vida seja isso. Sensações, lembranças de sensações e a devida importância que damos a elas. A sensação atual é de um limbo, um vazio, algo estranhamente situado entre um lugar onde se esteve e outro, aonde se vai chegar. Talvez, eu nunca aprenda a enxergar a beleza de um estado de transição. Falta algum sentido, sempre falta. E o que mais incomoda é não ver o sentido de se estar aqui, ainda, e de não estar lá, ainda.
Talvez, o ainda seja só uma forma de ver as coisas. Talvez, eu ainda não tenha encontrado a beleza no trajeto.

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Carta para as amigas

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Faz tempo que tenho vontade de lhes escrever uma carta. Não um bilhete, como os da escola, que nos divertiam num fôlego na aula. Não um e-mail, aqueles que se escrevem e se leem com pressa. Mas uma carta, uma carta recheada e reveladora, como as da nossa adolescência.
Cartas que outros mais de perto não entendiam o sentido, uma vez que morávamos na mesma cidade e, muitas vezes, postávamos os escritos pelo correio, com selo no valor de um centavo. Para escrever, não era preciso muito. Umas três canetas coloridas, uns adesivos de um caderno 10 matérias, algumas divagações. Cada carta era a certeza de estar compartilhando uma certeza.
Há muito venho querendo escrever-lhes uma carta, mas sempre me atrapalho na organização dos dados. Sempre há uma novidade que motiva a partilha, mas com ela vem um punhado de outras lembranças, de outros fatos que, sozinhos, não justificam uma carta, mas reunidos dariam um romance.
Mas o que mais me impede de escrever uma carta é a incerteza. A incerteza do próximo passo, incerteza do que se sabe e do que se quer. De não saber se o que se tem é o que se quer e, se não é, se a gente tem pelo menos certeza do que se quer. Ou do que se sabe. Na carta tem que haver uma certeza, pelo menos uma. Senão não há carta.
Do contrário, a carta trará apenas a nostalgia de um tempo vestido de uniforme, ou de um tempo calçado com tênis. Ou então a carta vai vomitar as agruras do emprego de agora e a falta de coragem em admitir que sou (ou somos) diferente do que sonhamos para esta época. Os amores que passaram, os que estão nos amando. Eu nem sei mais quem venceu a aposta, afinal, alguém casou ou não?
Eu temo em não saber como estão as amigas, aquelas minhas amigas de quem eu sabia tudo, aquelas cuja roupa para a festinha eu dava palpites. Eu tenho medo de não saber mais de quem eu sabia tanto. Receio em nos encontrarmos como estranhas, dividindo o mesmo sorriso amarelo e a constatação de que amizade que não perdura não é amizade.
Hoje eu quis lhes escrever. Não uma carta, mas um projeto de. Para dizer apenas que revirei papéis, gavetas e me revirei inteira para achar uma certeza. Uma certeza para justificar o escrito.

A única certeza, amigas, é que nessa vida de agora a gente não tem certeza de nada. Que se a gente quando pequena teve certeza alguma, a vida de agora veio para deixar a gente sem certeza qualquer.
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O Muro Azul

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Pegar no sono foi uma das coisas mais temíveis de uma determinada época da minha infância. Eu ouvia o silêncio da casa, e ficava intacta, debaixo das cobertas, torcendo para que o dia raiasse. Meu quarto, pequeno e lotado de bonecas e quinquilharias, dava margem aos meus medos, pois era comum as bonecas me olharem com olhares maquiavélicos e ursos se transformarem em criaturas assassinas.
Minha mãe dizia que tudo era besteira e me recomendava rezar antes de dormir. “Senhor, queria agradecer pelo meu dia e que eu consiga dormir hoje, amém”. Nunca adiantava. Era só terminar o cochicho que o silêncio se apossava e qualquer ruído se transformava em pretextos para se fechar os olhos com força, tapar os ouvidos. Foi aí que aprendi a técnica do Muro Azul.
Imaginava um muro azul, bem azul, sem fim. Olhava para todos os lados e não conseguia enxergar onde terminava o muro. Mas ele estava ali, na minha frente, bem azul. E eu não sei por que cargas d’água olhar para o muro me deixava em paz. Talvez tivesse a ver com a psicologia das cores, na qual o azul passa tranquilidade, ou com o fato de eu ter sido criada pela Xuxa e em um dos filmes, à procura do seu cãozinho, ela se deparava com um muro sem fim, com uma lagartixa no meio. Pode ser que tudo isso misturou na minha cabeça infantil e criou a solução para minha insônia.
Com o tempo, esqueci do muro, da mesma forma que fui deixando para trás muitas coisas da minha infância (incluindo a Xuxa). Lembrei do meu muro cor de céu hoje, num daqueles momentos de angústia que a gente tem, trancada em casa, sob as cobertas, chuva desabando lá fora, e teoremas insolucionáveis flutuando por todos os cantos. Sem sol, nem solução, nem muro azul para apaziguar.
O Muro Azul não me trouxe a paz desejada hoje. Quem sabe, funcione mais em crianças de coração puro. Os adultos, chatos, têm mania de problematizar tudo. Hoje o que vejo é, ainda, um muro, um muro sem fim, mas ele não é mais azul. É um daqueles muros que a gente pode ficar diante a vida toda, tentando imaginar um jeito para transpor.
Tem gente que passa a vida toda tentando passar para o outro lado do muro. Gente curiosa, ou inquieta. ‘Se existe um muro ele divide algo, o que será que é?’ Tem gente que passa a vida toda com medo sequer de tocar o muro. Gente medrosa, covarde, até. ‘Se existe um muro ele divide algo, se eu estou deste lado e ainda não morri, sorte a minha, deixa eu ficar quietinho do lado protegido’. E tem gente que nem se dá pela existência dos lados. Gente tranquila, em paz. Gente que contempla o muro como se fosse uma paisagem. Para esses, o muro tem até cor. É azul e é essa a pintura que basta.
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Provocação

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Se é esta a época da história em que mais se prega o respeito às diferenças, a importância de se acabar com preconceitos contra as minorias, engraçado como muitos dos “cabeças abertas” ainda se mostram mordazes diante de alguém que tenha qualquer tipo de crença.
Vivemos um período em que todos devem ser tratados como iguais, independentemente. Por isso, aplaudimos a iniciativa de se acabar com qualquer intolerância. Incentiva-se a ação de organizações, políticas públicas, líderes quando estes pretendem promover a igualdade, a inclusão. Achamos bonito ter uma vasta gama de gente ao nosso redor, com gostos, preferências sexuais, raças e posições políticas diferentes. Julgar alguém que escreve ou fala diferente da norma considerada certa hoje é chamado de preconceito linguístico.
Parece estranho então, um grupo ficar marginalizado. Em uma época que o ateísmo ou agnosticismo é tido como a verdade absoluta, aqueles que levantam as mãos para o céu, que praticam sua religião de qualquer forma escondem suas crenças debaixo dos panos. Não falam que foram à missa, ou ao culto, ou ao terreiro, omitem a palavra Deus (ou qualquer outra entidade em que acreditam) de suas frases. Por serem minoria ao entrar em discussões que geralmente começam com: Deus? Deus é coisa que não existe.
Estamos em uma época em que, em um território livre de preconceitos, não se ousa questionar com quem o outro se deita, em quem o outro vota, de onde o outro vem, qual é sua família. Ora, isso é retrógrado. Igualmente retrógrado é ter uma religião. É sinônimo de ignorância, burrice.
Se a gente que acredita tanto que ser hetero ou homossexual não é questão de certo ou errado, se independentemente de você ser esquerda ou direita podemos dividir a mesma mesa de bar, por que os cristãos, judeus, budistas (e outros tantos) ainda se encolhem quando o assunto passa a ser religião? Por que o medo de ser massacrado por defender o que se acredita?
É claro que é comum, ainda, ser discriminado por ser gay, ou lésbica, ou negro, ou branco, ou amarelo. Mas existem meios em que essas pessoas não sentem tanto o peso disso. Preconceito virou coisa do passado? Então, analise, com cuidado, se você não avança feroz sobre um outro que ousa dizer que reza. Contradição?
Em “respeitar os demais”, no que tanto você acredita, está incluído respeitar as escolhas. Acreditar em Deus é a minha. Nem por isso vou tentar fazer outro acreditar nele também, senão for o caso. Por isso, também não quero que me façam desacreditar. E aí, você topa uma convivência pacífica?
Uma vez, li uma definição de fé. Dizia: quando você tem, nenhuma prova é necessária. Quando você não tem, nenhuma é suficiente. Acho que isso resume bem.


Respeito mútuo: é nisso que eu acredito.


É, ele não resiste mais.
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Múltipla

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Ainda não sei se sou a Rebeca, a Amaranta ou a Renata Remedios, do Gabo. Porque não sei definir se sou aquela que arrasta ossos, que costura uma mortalha ou a que se apaixona por borboletas amarelas.

Fico me perguntando se eu sou a Maria ou a Gabriela, do Tom Jobim (a Garota de Ipanema tenho a certeza que não). Porque, como a primeira, eu preciso partir, eu preciso deixar. E da mesma forma que a segunda me perdem por aí.

Também não sei se sou a Rosa, a Rita ou a Morena de Angola, do Chico. Porque posso arrasar projetos de vida (incluindo o meu), posso causar perdas e danos. Mas o que mais me intriga é não saber se mexo o chocalho ou se é ele que mexe comigo.
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Sem ponto

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Não é sem ponto final não. Eu quero ser sem ponto, mas é sem ponto de costura. Aquele ponto como quando a mãe diz: é simples, é só dar um pontinho. Não, não dá não. Quero ser uma roupa sem costuras, uma roupa que se desdobra em uma, em mil. Quero estar sempre bem vestida para quando o frio chegar, casacos de pele, casacos de lã, capote pesado até o pé. E que nos trópicos o que eu visto vire uma roupa fresca, daquelas leves para levar o sol na cara. E que dê para mergulhar. Quero uma roupa própria para navegar. Minha veste é túnica, vestido de festa ou decote. Minha roupa é amarela, cor de fogo, ou do céu, ou de todas as cores, cores do jardim que eu deixei. Quero roupa que dá para desmanchar, arrancar. Quero roupa sempre limpa, sempre nova. Quero me renovar a cada porto novo. Em cada porto, sem porto final.


(...)

Naus partem — naus não, barcos, mas as naus estão em mim,

E é sempre melhor o impreciso que embala do que o certo que basta,

Porque o que basta acaba onde basta, e onde acaba não basta,

E nada que se pareça com isto devia ser o sentido da vida...

(...)

(Álvaro de Campos – A Casa Branca A Nau Preta)

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