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Histórias dos pequenos

- Ei, você tem filha?
Parecia ter uns 6 anos de tão mirrada, mas tinha 8, descobri depois. Era morena de praia, magrinha, com biquini rosa da Moranguinho. No meio das ondas ela ainda esperava minha resposta.
Apontei para minha barriga e perguntei:
- Por quê? Parece?
Ela balançou a cabeça afirmativamente.
- Você acabou com minha autoestima agora – respondi.
Ela riu, mesmo sem saber o que era autoestima. Mergulhou numa onda e perguntou de novo:
- Você tem mãe?
- Claro, todo mundo tem.
- Eu não – ela falou, sem tristeza na voz.
Não respondi. Enfiaria minha vergonha no bolso, se tivesse um.
Ela pegou na minha mão e decretou que a gente mergulharia em todas as ondas, depois que jogou água em mim porque eu relutava em me molhar.
Perguntou meu nome, disse que o dela era o mesmo. Mentira, o primo dela, Arian, um pouco mais velho, me contou mais tarde que ela se chamava Ana Alicia.
Ana Alicia era espevitada. Não cansava nunca. Não largou da minha mão um segundo e me perguntou tanto que soube mais da minha vida do que muita gente que vive comigo.
Depois de um tempo eu disse a ela que precisava ir. Era meu último dia de praia. Ela me acompanhou até meu lugar na areia, sorriu e disse tchau. Ana Alicia sem mãe e eu sem filha. Queria ter dito que, se eu tivesse uma pequena, queria que fosse tão esperta quanto ela.

**

Não sei se em todas as praias é assim, mas no litoral catarinense, quando uma criança se perde da família, todo mundo na praia bate palmas para chamar a atenção. Seja quem achou a criança como quem está perto dos pais. Eu estava próximo da mãe quando ouvi o som compassado.
Ela, desesperada, batia as mãos incansavelmente e gritava o tanto que seus pulmões permitiam.
- Thiago! Thiago!
Eu caminhava na beira da praia com minha irmã e a mulher, andando rápido, estava no mesmo ritmo que a gente. Como eu e Verônica chegaríamos ao outro lado da praia, perguntei à mulher como o menino estava, porque, se o encontrasse, iria reconhecê-lo.
- Ele está com uma sunga preta do Homem-Aranha. E tem 7 anos. Ele estava com frio, não deve estar na água.
O desespero dela me angustiava. Comecei a olhar por todos os cantos e quase ia gritar junto: Thiago!, quando o pequeno apareceu. Assustado, puxado pela mão por dois adultos, na certa conhecidos da mãe. Quando ela o avistou, saiu correndo na nossa frente. Abraçou o filhote com força e quando se virou eu pude ver suas lágrimas. Ainda com ele no colo, passou pela gente e disse baixinho:
- Obrigada.
Embaixo dos óculos escuros, eu chorei.

**

Tinha um painel gigante, cheio de cartas. Peguei a primeira:
“Oi, Papai Noel, meu nome é Wesley, tenho 9 anos e queria um skate”.
Devolvi. Não sei por que, mas senti que não era aquela. Aí encontrei:
“Papai Noel, meu nome é Francisco, tenho 10 anos, passei para a 5ª série e gostaria de pedir material escolar. Tenho mais duas irmãs na escola e minha mãe é empregada doméstica. Ela tem que pagar água, luz, aluguel e não pode comprar para nós. Por favor, Papai Noel, eu preciso muito de material. Se não puder me trazer, agradeço por tudo que já me deu. Um abraço, Francisco.”
Com essa cartinha, o pequeno Chico me ganhou. Não tinha ideia do que uma criança precisava na 5ª série. Há muito tempo não comprava material escolar. Mas a menina da papelaria sabia. Trouxe várias caixas para a gente escolher. “Se eu fosse um menino de 10 anos, ia gostar de qual tesoura? E de qual borracha?” Acabei me rendendo aos carros, menino que é menino gosta de carros. Compramos tudo. Antes de sair da loja, pacotão em punho, lembrei da mochila. Chico precisaria de uma mochila. Compramos uma preta, grande. Faltava, então, só mais um presente. Um livro. O escolhido foi o Mágico de Oz. Abri a primeira página e escrevi:
“Francisco, que este livro lhe incentive sempre a acreditar nos seus sonhos. Feliz Natal! Um abraço, Papai Noel”.

**

Dois dias depois, fui acompanhar Sebastião, o Papai Noel dos Correios, e o carteiro Jeannilton na entrega dos presentes para as crianças atendidas. Não achei o presente do Chico, já havia sido entregue, segundo previram os dois. Fomos a três bairros, cinco casas. Lugares distantes, pouca estrutura, casas que pareciam barracos prestes a desmoronar, ruas de lama, sem acesso. Entregamos móveis de uma casinha de brinquedo para Helaine, uma bicicleta nova para o Deivid, outra para a Juliana e três bonecas para três irmãs. Graças a alguém, elas ganharam presentes de Natal, confessou-me a mãe. Mas o que mais me emocionou foi Felipe, que pediu um violão. Podia ser usado, disse na carta. Ganhou um novo, embaladinho. Quando recebeu nas mãos, Felipe, pequeno, chorou. Chorava e esfregava os olhos, dizendo que a mãe disse a ele desistir de um violão, ninguém ia dar. O irmão pediu um sapato e havia ganhado um dia antes. “Mas eu sabia que Papai Noel ia me dar”.
- Como pode - disse Sebastião para mim, enquanto voltávamos ao carro - uma mãe desestimular o filho desse jeito? Se nós, adultos, vivemos de sonhos, imagina as crianças?
O Papai Noel decidiu voltar. Iria falar com aquela mãe.
Ela não estava, o pai atendeu. Sebastião disse a ele incentivar o garoto na música. Felipe, ainda com lágrimas nos olhos, abraçava o pai, que, também emocionado, apertava o filho orgulhoso e dizia. “Ele já toca, e vai muito bem!”.
Eu, tomando nota de tudo, aprendi o quanto eu mesma, pequena, também vivo de sonhos.

Comentários

Contos de Fada? disse…
Pelo que vejo, Papai Noel também te entregou o mais belo presente! Adorei! Beijos!
Tiozaum disse…
Lindo. Fiquei emocionado.

Parabéns, Tati, por ter vivido essas histórias e mto obrigado por compartilhá-las.

Tocou meu coração :)
paulete miletta disse…
linda tati.
sempre choro quando passo por aqui.
Você é tão linda que chega a doer.
Lubi disse…
Tati,
amei muito esse pôuste.
lindo.

Obrigada por isso.
Beijo.
P. disse…
ê coisa boa começar o dia lendo uma lindeza dessas!

;)
Feliz ano novo, Teits Maria.
Michele Matos disse…
Eu não estava preparada pra chorar hoje. Chorei. lindo, Tati.
Elinha disse…
Impossivel passar por aqui e nao se emocionar...
Adroei!
xerooooooooo
Klaus disse…
Se escrever bem faz chorar, obrigado por me fazer chorar! Se chorar faz bem, obrigado por me fazer bem.
Lindas histórias, hei de lembrá-las por muito tempo! Beijo
Camila Rufine disse…
Você quase, mas quase mesmo, me fez chorar. E isso é um puta elogio, pois é muito difícil me fazer chorar.

=*
FABI disse…
Chorei tbm... Francisco foi um felizardo de ganhar material escolar, mochila, livro e uma dedicatória sua!
Retratos disse…
Agora fiquei aqui, com cara de boba, sozinha em casa, olhando o computador e chorando que nem menino pequeno.
Acabou de nascer uma nova fã de seus escritos.
Klaus Pettinger disse…
Que coisa, Tati! Três anos depois e o efeito desses textos é o mesmo! Obrigado! :D Beijo

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