Cenas patéticas do cotidiano

Procurei no dicionário ‘aurelinho’, deixado por uma das minhas ex-companheiras de apê, o significado de patético. Que produz ou denota forte emoção, trágico, sinistro. Nunca usei a palavra dessa forma. Para mim, patética é aquela cena em que você balança a cabeça, com ar de reprovação, acompanhado de um ‘tsc, tsc’ ou até mesmo uma batida estrondosa na testa. Patético, na minha concepção, soava até como patetice.
Eu sempre fui propensa a essas cenas. Tinha uma amiga minha que costumava dizer que se eu fosse a um lugar, uma festa, por exemplo, a história mais estranha da noite aconteceria comigo. Bom, minhas cenas patéticas nem sempre são sinônimas de estranhas, como no dicionário. Geralmente, são histórias que eu conto e que são devolvidas com risos e o velho comentário: “só você mesmo”.

Cena 1
Segunda reprovação no exame da carteira de habilitação. Cabeça erguida, ou levemente erguida, dirigi-me ao ponto de ônibus. Para não correr o risco de desabar em lágrimas na frente de estranhos, decidi ir a pé. Só para constar, o Detran fica a léguas da minha casa. Não é exagero não. Sabe a puta que pariu? Pra lá.
Liguei o mp3 e a primeira música que toca é O Mundo é um moinho, do Cartola. Comecei a ouvir, os olhos marejaram (essa música sempre me põe triste como o diabo) e senti uma súbita empolgação. O que era apenas um dedinho martelando compassadamente na calça jeans transformou-se em uma cantoria em berros: preste atenção, queridaaaaa, preste atenção, o mundo é um moiiinhoo, vai triturar teus sonhos tão... mesquiiinhos, vai reduziiir... as ilusões a póó...
Acabou a bateria do mp3. Olhei para o lado, uns garotinhos que brincavam estavam parados olhando para mim. Na certa, tentando entender o que eu dizia por trás da desafinação. Tirei o fone, limpei as lágrimas, pigarreei e segui em frente. Ainda bem que eu estava longe de casa.

Cena 2
Porta do metrô em São Paulo. Sabe aquela voz metalizada que diz: atenção, não tente embarcar ou desembarcar após o sinal? Então, ela merece ser escutada. Fui desembarcar do metrô lotadaço após o pii. Péssima escolha. Pressenti que algo daria errado antes mesmo do PAAAAM. A porta me prensou. Uma parte de cada lado. Antes que eu seguisse adiante o trajeto presa para o lado de fora do trem, consegui me desvencilhar. Cabeça erguida, meio zonza. “Doeu?” “Não” (os ombros latejando)” “Não doeu mesmo?” “Não, amanhã acho que vou sentir (os braços quentes)”. Merda de metrô.

Cena 3
Festa à fantasia, anos 70. Eu toda bonitinha no meu vestido feito especialmente para a ocasião, faixinha no cabelo. Curti o Sidney Magal em pessoa, ao vivo, joguei os cabelos para frente e para trás na parte seus cabelos muito negros, mas até aí, tudo bem. A cena patética vem depois, quando, sem motivo, iniciei algo parecido com capoeira com uma amiga. Eu tento me lembrar quem teve a ideia e, concluo, toda vez, que só pode ter sido eu. Não contente, ainda entoava um Paranauê, paranauê, Paraná, desafiando o Abba que cantava enlouquecidamente no som mecânico. Pra quê, eu me pergunto...

Cena 4
Recife, Praça do Arsenal.
Quase no fim do Carnaval, aquela coisa, todo mundo meio liso e naquela fase da vida que você quer ficar louco bem rápido, pra aproveitar todos os momentos plenamente, curtir toda a folia do Carnaval do jeito que a vida manda, uhul, e tal, decidimos tomar uma cachaça pura. A escolhida para pedir a cana na barraquinha, adivinha? Nem sabia como pedir, mas meus companheiros me orientaram. Dirigi-me ao balcão e falei, quase num sussurro:
- Um quartinho de Pitu, por favor...
O rapaz nem me ouviu, tamanho o furdunço na barraca. Falei um pouco mais alto e um pouco mais, um pouco mais. Aí o cara se vira pra mim, para a pessoa toda arrumadinha, maquiadinha, com essa cara de 15 anos que não muda, e solta, em tom de espanto:
- Osh, e você bebe cana, é?
Ao meu lado, umas três pessoas olhavam pra mim, igualmente aguardando a resposta. Tratei a pergunta como retórica, peguei o copo de plástico e vazei.

9 comentários:

{ Marcela Prado } at: 25 de fevereiro de 2010 12:45 disse...

ah, vc foi uma das manes que ficam presas na porta? tsc tsc

eu sou uma das manes que ficam viajando,e nem sabem que estacao estacao estao, ai a estacao passa, e la vai eu ter q pegar um metro pra voltar

{ Klaus } at: 25 de fevereiro de 2010 13:42 disse...

PQP Tati, eu juro que não lembrava mais do Paranauê!! Eu lia uma palavra e algo como "peraí, eu lembro disso" me vinha à mente. De nada, eu incentivei o batuque e... PQP Tati! Lembrei! Eu "tocava" o berimbau! Eu não teria lembrado sozinho...
Ah, esse formato Luis Fernando Veríssimo é ótimo, manda mais dessas quando da sua terceira reprovação no Detran, blz? Sou seu fã! A pé e escrevendo...

{ paulete miletta } at: 25 de fevereiro de 2010 16:22 disse...

ah, foi de leve. rs.

{ Tiozaum } at: 26 de fevereiro de 2010 06:06 disse...

Eu tb ja fiquei preso na porta do metrô :(

{ FABI } at: 26 de fevereiro de 2010 10:34 disse...

Não sei se vc sabia mas o metrô pode ser muito traiçoeiro!!

{ Gabriel } at: 26 de fevereiro de 2010 15:52 disse...

Pitú, mania de brasileiro!!!

{ Ava E. } at: 28 de fevereiro de 2010 06:59 disse...

Preste atenção, querida
de cada amor tu herdarás só o cinismo
quando notares estás à beira do abismo
abismo que cavastes com teus pés


buá!

{ João } at: 28 de fevereiro de 2010 11:57 disse...

Qdo comecei a ler a cena da capoeira na festa, pensei que vc fosse contar sobre a câmera (não) perdida! rsrs
Da minha parte, eu teria uma cena 6, de um moço que vai para a aula da pós em Ponta Grossa e fica sabendo ao chegar que a aula foi cancelada.
Mas isso já é pra outro blog (isso quando eu tiver um pc disponível pra escrever, pq o meu não colabora mais comigo).
Sobre o texto, não preciso nem falar o quão agradável foi a leitura...

{ Diangela } at: 1 de março de 2010 09:39 disse...

Eu ri mais com a cena da Pitú!hahaha

 

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