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Foi a saudade que me trouxe pelo braço

Nunca vim a Recife antes. Dessa forma, como não é logicamente possível ter saudade do que nunca se teve, o título deste escrito pode não fazer sentido. Mas é possível, sim, sentir saudade do que já se conheceu. E eu conheço Recife de tanto ouvir falar.
Quando eu dizia que minha mãe era pernambucana, geralmente voltava do interlocutor uma cara de espanto. Soava como exótico. Seguia-se aí o relato do casal - ela pernambucana, ele sul-rio-grandense - que se conheceu em terras cariocas, casou e teve um filho. Os dois decidiram ir embora para o Sul, nasceu mais duas meninas e depois de cerca de 36 anos que a pernambucana demandou do Nordeste a menina mais velha decidiu conhecer sua terra.
E toda a saudade do que nunca viu lhe veio.
Não tenho minha mãe comigo na viagem, mas a certeza de que me pareço mais com ela a cada dia me grita forte, principalmente quando conheço os pedaços que um dia ela chamou de terra e que eu revisito agora. Digo revisito porque eu já conheci tudo isso pelos seus olhos. Olhos que deixaram a terra natal para trás aos 17 anos e só retornaram, de passagem, mais de 25 anos depois. De moradora, ela passou, anos mais tarde, a turista.
Em Recife a gente come pão com manteiga na chapa, não que isso seja privilégio daqui, mas no Sul não tem isso não. A gente lê cuscuz em quase todo cardápio de café. Pamonha se compra em qualquer padaria, exposta bem ao lado de onde se compra pão francês. Não tem que esperar a feira de exposição que chega à cidade uma vez por ano para comer pamonha. Canjica também não.
Tubarão também não precisa ver na televisão. Na praia tem muito aviso para tomar cuidado, porque em mar aberto, onde não tem recifes, os bichinhos estão à solta.Obrigada, conhecer tubarão ao vivo eu dispenso. Em Recife, as pessoas colocam a negativa no final da frase. “Moça, tem desse tipo aqui vermelho?” “Amor, desse tipo vermelho tem não”.
Tapioca não se faz em dia especial, tapioca tem todo dia. A gente acorda e esquenta banana, joga canela e açúcar por cima e come com café. A praia fica logo ali, dá pra ver da janela. Minha madrinha (que também é pernambucana) me falou uma coisa esses dias que no fundo eu já sabia, mas nunca tinha verbalizado. No mar, a gente fica perto de Deus. Vá lá que em Guaratuba ou Caiobá não dá para sentir a entidade divina na sua frente, mas sempre gostei de praia e a partir de hoje explico meu gostar dizendo que ver o mar me mostra que existe um ser onisciente olhando por todos nós.
Na praia, o tiozinho que vende picolé vem oferecer e desfia a lista de sabores: “tem picolé de cajá, graviola, mangaba, dona”. Eu nunca tinha visto uma graviola de verdade na minha frente. E vi, tem em qualquer mercado. Ou na feira, onde se prefere comprar. Lembrei da minha mãe repetindo a velha história de que antes de fazer almoço ela ia dar um mergulho no mar. Praia e peixe fresco, ao contrário de como é para seus filhos, não era luxo de férias. Para minha mãe, era rotina.
Eu passei em um dos colégios onde ela estudou. Conheci o bairro de pescadores onde ela cresceu. “Mãe, você se emocionou quando foi lá? Porque até eu me emocionei...” Ela sempre me contou do frevo, da música do sinal que ela aprendeu na escola, da vez que ela assistiu o show do Roberto Carlos bem pertinho quando ele foi cantar no internato que ela estudava. Um bolo de memórias que ela fazia questão de contar, para não se perder.
E hoje, aqui, tudo que eu vejo, como, sinto tenho vontade de contar para ela. Para não se perder. Para ela se lembrar, para a gente, eu e ela, cada vez mais, se conhecer.

Comentários

João disse…
Nossa, é tão bom conhecer um pedacinho de nossa origem! Como faz falta isso na vida da gente!
E que legal não precisar ir à feira pra comprar pamonha!
E o mar... aí deve ser mais bonito ainda (com o porém dos tubarões).
De agora em diante, você vai ter mais motivos para ter saudade e dizer "Voltei, Recife".
Aproveita aí, que eu te espero aqui.
Da próxima vez, me leva na roda do avião! rsrs
Diangela disse…
Depois dessa até eu fiquei com saudade do Recife... ai ai!
FABI disse…
Bem que eu avisei p/ vc ficar longe dos tubarões... eles podem levar seus membros embora!
.lucas guedes disse…
e eu tou aqui no hellcife também. ainda não deu tempo de ver nada disso, mas ainda tem muuuuito tempo... ;-)
Jo disse…
Lindas palavras! Até eu me emocionei... Rs
Michele Matos disse…
Ai ai ai menina que faz a gente se emocionar!
Lindo tatiii!
Oooo saudade de você!
glauce disse…
Lindo e emocionante o que escreveu sobre minha terrinha, fico feliz em ter compartilhado esses momentos com vc. que amo tanto.
Quando falei que no mar vemos Deus, isso é real, sempre que vou caminhar falo com Ele olhando lá no final onde meus olhos possam alcançar, agradeço e tenho respostas.
Agora tenho uma certeza, vc. vai voltar e será a saudade que vai lhe trazer pelo laço.
Ediane disse…
Eu sinto saudades do que não tive, do que não conheci. Uma saudade estranha e, no mínimo, diferente da que sinto por aquilo que já conheço bem e que parece estar mais perto de mim, perto do toque. Sinto saudade de lugares que talvez eu nunca venha a conhecer pessoalmente; e de pessoas que, possivelmente, só tenham estado ao alcance dos meus olhos uma vez, poucas vezes. Sinto saudade dessas coisas e pessoas que passam pelo caminho e, mesmo anos e anos depois, ainda nos deixam o gosto da falta que fazem...

Bjos, Tati. Te visitar aqui me faz bem. Boa semana!
CHEIRO DE FLOR disse…
Oi Tatiana, obrigada por me fazer voltar á terrinha pelo menos em pensamento!!!
tenho muitas saudades de lá!
vou seguir seu blog!
xeros pra ti!!!
paulete miletta disse…
ai,ai,menina... nunca fui à recife. mas tenho um amor por lá que nem sei de onde.
linda.
e gosto tanto de você, já falei,né?

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