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Mostrando postagens de Março, 2010

De como evitar traumas e tristezas

Por muito tempo achei que sofrer era uma opção. Hoje eu sei que não é assim.

Quando eu era pequena, pensei em inventar um manual para não ficar triste nunca. Pode parecer uma ideia ingênua, mas quem sabe não foi esse o estalo de quem criou o gênero da autoajuda? Eu poderia estar riquíssima hoje, mas, bem... As coisas não funcionam assim.
Constato depois de pouco mais de 24 anos de vida que somos feitos de alegrias curtas e tristezas longas, estas cortadas vez ou outra por uma alegriazinha. É como se a tristeza fosse a linha inteira daquele aparelho que marca a batida do coração. As alterações mais agudas para cima seriam as alegrias. E a vida segue sempre como uma tristeza quase sempre que presente, interrompida por uns estampidos de alegria e depois, bem, depois tudo volta ao normal. Até chegar à linha desenhada intermitentemente reta.
Porque é difícil ver alegria na rotina. É mais fácil encontrar alegria em mudanças bruscas, na notícia de uma gravidez esperada, na conquista de um empre…

O jacarezinho

- Criei um monstro...
Isso correspondeu ao ‘alô’ do meu pai ontem.
- Pai, eu ia ligar, mas acabou acontecendo um monte de coi...
Fui interrompida.
- Quando você vai escrever um livro?
Nessa hora, mil hipóteses passaram pela minha cabeça. Ele poderia estar se referindo a diversas possibilidades com essa pergunta misteriosa. Quando ia perguntar, ele desvendou.
- Li seus textos. (Meu pai, na internet? Ele nem sabe pra que serve o mouse!) Sua tia lá do Rio de Janeiro ligou aqui e falou que lê sempre (Ah, alguma coisa tinha que ter...) Li vários, o das coleções, o da mulher que fica segurando o cu na mão. Tatiana, não é feio escrever cu? Ânus não seria melhor?
- Mas aí não imprime o caráter de revolta que eu queria, pai.
- Ah...

Depois dessa, ele disse que eu tinha que lançar um livro. Lembrei que, logo que aprendi a escrever, criei uma singela história cujo título era “O jacarezinho”. Meu pai leu e ficou emocionado. Não lembro do conteúdo, só lembro que não tinha grande apelo dramático, a…

Meu coração navegador

Nunca fui de coleções. A de tazos dos salgadinhos foi um fiasco, a do chocolate Surpresa me dava vergonha e foi um custo eu ter todos os bichinhos de uma das séries do Kinder Ovo – as tartarugas, as únicas que tiveram um exemplar de cada na minha estante. A existência da Batida, uma tartaruga com um coco na mão, irritou-me profundamente, porque a bicha não vinha em chocolate algum. Quando veio, também, encerrou minhas tentativas de preencher minha vida com o Kinder Ovo.
Mais tarde parti para as coleções que não precisavam necessariamente ter um fim, um objetivo a ser alcançado. A possibilidade de frustração era menor, uma vez que seria só reunir exemplares e mais exemplares de uma mesma espécie. Assim, dediquei-me a colecionar adesivos, depois papéis de carta, cartões telefônicos e selos. Todas as coleções, abandonadas, acabaram pouco a pouco sendo jogadas num canto do guarda-roupa.
A única que vingou foi a de postais. Como nunca tive mania de jogar coisas fora, acabei juntando alguns p…

A mulher que eu quero ser (e a que eu não quero)

Quero ter a garra de Maria, a mulher que eu entrevistei esses dias para o jornal. Em uma casa simples, escondida numa rua que ninguém do bairro foi capaz de me explicar onde era, ela fabrica suas sacolas. Com firma registrada e tudo. Maria, 65 anos. Uma entre tantas Marias, destacou-se e colocou seu sobrenome lá, na plaquinha em frente à casa simples de madeira, comprada com o suor do seu trabalho.
“Quando vim pra cá, acharam que eu tinha invadido, mas eu comprei”, disse-me ela. Foi babá, diarista. Criou filhos dos outros. Mas ela tem três e foi para eles que montou a fábrica. Anda de chinelo de dedo e ônibus. Trabalha para mostrar que tudo, tudo se conquista com trabalho. Foi boia-fria, também. Com marido na cama, filhos pequenos, colhia com a mão a soja, juntava as batatas, reunia o milho. O trabalho, que lhe rendia o sustento, era para o patrão que não deixava ninguém sair antes de dar o horário, debaixo de chuva ou tendo doença. Maria, a mulher guerreira, hoje é empresária.
Quero te…

Rícecla

A ingenuidade, cavada em doses de paciência. Noutras a perspicácia. Saber mais até que as entrelinhas. Entre os dedos, as frestas. A vontade de desmoronar, arrasar moinhos, queimar as velas. Eu sou maior que a minha fome, a sede das coisas terrenas e abstratas. Ou sou aquela pequena. Demasiado pequena para o tamanho dos passos. Sou o meu esmalte púrpura ou a cara amassada da manhã? A fragilidade da porcelana, o acorde seco, o ritmo compassado dos passos na manhã gélida. O estopim da prisão. O café solúvel, a armadora volúvel, a firmeza nas opiniões. A incompreensão. O desenrolar, o porto. A sombra. Sou a maquiagem impecável e o desalinho. O ontem, o amanhã. A unha roída, o urro de dor. Sou o dedo que adianta os ponteiros. O sal do almoço, a falta de açúcar no café da manhã. Sou o peso das sacolas. O xis nas datas, o arrancar das folhas. Sou o mastigar. O verde que passa a marrom. A espinha, a dorsal e a do queixo. A pressa. A gueixa. A pétala despedaçada, que, secando, encolhe. A cora…