De como evitar traumas e tristezas

Por muito tempo achei que sofrer era uma opção. Hoje eu sei que não é assim.

Quando eu era pequena, pensei em inventar um manual para não ficar triste nunca. Pode parecer uma ideia ingênua, mas quem sabe não foi esse o estalo de quem criou o gênero da autoajuda? Eu poderia estar riquíssima hoje, mas, bem... As coisas não funcionam assim.
Constato depois de pouco mais de 24 anos de vida que somos feitos de alegrias curtas e tristezas longas, estas cortadas vez ou outra por uma alegriazinha. É como se a tristeza fosse a linha inteira daquele aparelho que marca a batida do coração. As alterações mais agudas para cima seriam as alegrias. E a vida segue sempre como uma tristeza quase sempre que presente, interrompida por uns estampidos de alegria e depois, bem, depois tudo volta ao normal. Até chegar à linha desenhada intermitentemente reta.
Porque é difícil ver alegria na rotina. É mais fácil encontrar alegria em mudanças bruscas, na notícia de uma gravidez esperada, na conquista de um emprego que se quer, em achar nos olhos do outro a constatação do amor recíproco. Depois disso, dependendo do protagonista, tudo é um mar de normalidade, comodidade, palidez, inquietação, vontade de jogar tudo para o alto.
Tem as tristezas agudas, também, que agravam o estado do paciente. Tiram-no desse estado de apatia para lançá-lo ao fundo do poço. Tem morte, tem demissão, tem divórcio, tem rompimento, tem aborto. Tem tudo aquilo que a gente desejaria evitar, mas, meu amigo, nem lendo o alcorão e a bíblia da autoajuda você consegue conter o turbilhão que te arremessa longe e lhe derruba fatigada na cama. Com lágrimas nos olhos.
Se eu tivesse superpoderes, desejaria hoje não ser responsável por nada nem ninguém. Não teria de tomar decisões, não magoaria ninguém. Não seria nada e nada me representaria os demais. Plano igualmente impossível, uma vez que se vive. Uma vez que se convive, que se conversa, que se ama, uma vez que se pede, que se acostuma, que se sabe... Uma vez que se erra.
Sei que isso é impossível. A única forma de evitar o sofrimento é não vivendo. Porque quando se sofre, deve-se sofrer por completo, no momento que tem que ser... A gente sofre, para poder sorrir depois. Nem que for só por um pouquinho. Porque na vida, mudam-se os tempos, as vontades, as prioridades. E eu espero a hora do meu doce canto.


Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já foi coberto de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.
(Camões)

9 comentários:

{ Klaus } at: 28 de março de 2010 15:16 disse...

Sofrer não se escolhe, mas não é preciso sofrer mais do que o necessário para que o acontecimento subsequente seja tido como bom, ao menos. Aí é preciso reagir. Pro ser humano é mto cômodo ficar sofrendo, nao precisa fugir de nenhum inimigo natural... pode ficar ali, deitado, às moscas - dengue!

Só pra constar: se vc nao quer ser responsavel por ninguem, há quem queira ser responsavel por vc! E lembre-se: não importa se as oscilações são para baixo ou para cima, o eletrocardiograma só não pode parar de ter picos.
Falou Xavier, "transcreveu" Coelho, corrigiu Tati - ah não, dessa vez nao.

{ Michele Matos } at: 28 de março de 2010 16:44 disse...

Tristeza não tem fim, felicidade sim?
O bom mesmo é esquecer os porquês da tristeza.
Ótimo texto, como todos os outros!
Espero o livro do jacarezinho na livraria mais próxima =)

{ MerasChorumelas } at: 29 de março de 2010 16:40 disse...

E é por isso q compreendo os alcoólatras. Eles conseguem ter alegrias prolongadas com pequenos intervalos de tristeza (qdo estão sóbrios). E aí, vamos pro bar?

{ Diangela } at: 30 de março de 2010 04:37 disse...

Tati, eu te faço agora uma pergunta que vc me fez uma vez: meu deus, quem é vc e o que fez com minha amiga??? hahaha Não, eu sei exatamente quem é vc e esse texto, meu béééém e de uma sensatez tamanha que eu me inflou o peito #orgulho de ter vc por perto, de ser sua paciente às vezes ocupando o seu divã, enfim... vc é foda, o resto é moda!! hahaha ;***

{ Scheyla Joanne Horst } at: 31 de março de 2010 10:05 disse...

é ué, a gente só tem nosso cotidiano mesmo, e ele é ordinário. extraordinário! mas dizem que "a gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele".
Também gostei do texto do jacarezinho!!!

{ glauce } at: 31 de março de 2010 13:29 disse...

Só os loucos são felizes.
Mais louco é quem me diz, que é feliz, que não é feliz!
Amei o texto, parabéns!
gal.vidabela.

{ Siguilita } at: 1 de abril de 2010 05:07 disse...

belo..e triste...
bjo!!

{ Marcela Prado } at: 5 de abril de 2010 11:52 disse...

leitura dinâmica: quer dizer que vc esta grávida entao?

êêêêêê!! :D!

{ va_nessals } at: 5 de abril de 2010 17:12 disse...

Amor, tu ta ficando boa, hem?
:*

 

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