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A mulher que eu quero ser (e a que eu não quero)

Quero ter a garra de Maria, a mulher que eu entrevistei esses dias para o jornal. Em uma casa simples, escondida numa rua que ninguém do bairro foi capaz de me explicar onde era, ela fabrica suas sacolas. Com firma registrada e tudo. Maria, 65 anos. Uma entre tantas Marias, destacou-se e colocou seu sobrenome lá, na plaquinha em frente à casa simples de madeira, comprada com o suor do seu trabalho.
“Quando vim pra cá, acharam que eu tinha invadido, mas eu comprei”, disse-me ela. Foi babá, diarista. Criou filhos dos outros. Mas ela tem três e foi para eles que montou a fábrica. Anda de chinelo de dedo e ônibus. Trabalha para mostrar que tudo, tudo se conquista com trabalho. Foi boia-fria, também. Com marido na cama, filhos pequenos, colhia com a mão a soja, juntava as batatas, reunia o milho. O trabalho, que lhe rendia o sustento, era para o patrão que não deixava ninguém sair antes de dar o horário, debaixo de chuva ou tendo doença. Maria, a mulher guerreira, hoje é empresária.
Quero ter a força de Marisa, a mãe que perdeu o filho de 14 anos de parada respiratória em um dia cinza de agosto. Decidiu doar os órgãos. Não se arrepende. O único receptor que conheceu foi João, 67 anos, que a chama de mãe. O coração do menino falecido foi para seu João, que levou Marisa para conhecer o mar. Depois de contar sua história, a mãe me abraçou. E chorou. Duas outras filhas para criar, casada de novo, ela engravidou da terceira menina, a irmãzinha mais nova do seu João. Cinco anos depois, a dor, sempre ali. E a vida tem que continuar.
Não quero ser a mulher vazia, que teme a Deus, mas não teme seus próprios pensamentos. Que ri, aquela risada fanha e desengonçada, risada de deboche. Que ri dos erros dos outros, que ri ao ver alguém se dando mal. Coitada, não sabe se alegrar com o que a vida oferece de bom.
Dispenso de ser aquela que reduz a sua vida a um homem e, principalmente, à procura dele. Que se contenta a ler a série do Crepúsculo e esperar seu vampiro. A mulher que só é feliz se tiver alguém para ostentar ao lado. Sem o seu macho acessório, ela fica vazia. Contenta-se a achar defeitos nas outras mulheres, naquelas que, no fundo, ela queria ser. Não quero ser a mulher que vira o rosto para fazer cara feia quando vê a mulher ao lado brilhando mais que ela. Nem que destila seu veneno contra quem sabe tomar as rédeas da própria vida, ao invés de, como ela, bater continência ao mesmo tempo em que segura o cu na outra mão.
Nem desejo ser a mulher que doa cesta básica para a pastoral, mas não sabe ser gentil com o colega ao lado. Que faz cara feia quando vê outra mulher rindo alto e se embebedando, porque sua mãe, aquela a quem reserva um profundo rancor, ensinou-lhe que não é assim que uma moça casadoira faz.
Passo a vez de ser a mulher que, ao perceber sua vida vazia, saca sua máquina fotográfica para registrar o quanto está se divertindo. Para mostrar para os outros o quanto ela é feliz. No fundo, para tentar maquiar a verdade. Para esconder dela mesma que aquele instante foi tão superficial quanto seu sorriso.

Também quero ser Gal, com toda sua sensualidade

Comentários

Olavo disse…
O cara faz um esforço desgraçado para ficar rico pra quê?
O sujeito quer ficar famoso pra quê?
O indivíduo malha, faz exercícios pra quê?
A verdade é que é a mulher o objetivo do homem.
Tudo o que eu quis dizer é que o homem vive em função de você.
Vive e pensa em você o dia inteiro, a vida inteira. Se você,mulher, não existisse, o mundo não teria ido pra frente.
Homem algum iria fazer coisa alguma na vida para impressionar a um outro homem, para conquistar um sujeito igual a ele, de bigode e tudo.
Um mundo só de homens seria o grande erro da criação. Já dizia a velha frase que "atrás de todo homem bem-sucedido existe uma grande mulher". O dito está envelhecido. Hoje eu diria que "na frente de todo homem bem-sucedido existe uma grande mulher".
É você, mulher, quem impulsiona o mundo.
É você quem tem o poder, e não o homem. É você quem decide a compra do apartamento, a cor do carro, o filme a ser visto, o local das férias. Bendita a hora em que você saiu da cozinha e, bem-sucedida, ficou na frente de todos os homens.
E, se você que está lendo isto aqui for um homem, tente imaginar a sua vida sem nenhuma mulher. Aí na sua casa, onde você trabalha, na rua.
Só homens.
Já pensou?
Um casamento sem noiva? Um mundo sem sogras?
Enfim, um mundo sem metas.

Feliz dia
Grandes verdades, Tati!
Somos o que somos e azar se "as outras" não gostam do nosso jeito. Somos muito mais que "aparências".
beijinhos
Eduardo Araújo disse…
É incrível essa música!
Ionara Andrade disse…
mente evoluída, parabéns
Ionara Andrade disse…
mente evoluída, parabéns

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