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O jacarezinho

- Criei um monstro...
Isso correspondeu ao ‘alô’ do meu pai ontem.
- Pai, eu ia ligar, mas acabou acontecendo um monte de coi...
Fui interrompida.
- Quando você vai escrever um livro?
Nessa hora, mil hipóteses passaram pela minha cabeça. Ele poderia estar se referindo a diversas possibilidades com essa pergunta misteriosa. Quando ia perguntar, ele desvendou.
- Li seus textos. (Meu pai, na internet? Ele nem sabe pra que serve o mouse!) Sua tia lá do Rio de Janeiro ligou aqui e falou que lê sempre (Ah, alguma coisa tinha que ter...) Li vários, o das coleções, o da mulher que fica segurando o cu na mão. Tatiana, não é feio escrever cu? Ânus não seria melhor?
- Mas aí não imprime o caráter de revolta que eu queria, pai.
- Ah...

Depois dessa, ele disse que eu tinha que lançar um livro. Lembrei que, logo que aprendi a escrever, criei uma singela história cujo título era “O jacarezinho”. Meu pai leu e ficou emocionado. Não lembro do conteúdo, só lembro que não tinha grande apelo dramático, até porque foi escrito por uma menina de 8 anos. Mas o pai, descobrindo naquele momento seu feeling editorial, acreditou que tinha nas mãos um exemplar que se tornaria sucesso de vendas.
- Vamos escrever um livro! – decretou.
A primeira pessoa do plural, nessa frase, significava que eu inventaria, escreveria, ou seja, seria a autora e ele, digamos que, coordenaria tudo.
No outro dia, comprou-me um caderno de caligrafia e a única coisa que se falou naquela casa durante algumas semanas foi o livro da Tatiana. Coitado, meu pai, no fundo, queria ganhar dinheiro com o talento de algum rebento. Contando com o ovo, antes da galinha, vislumbrou uma vida de autógrafos e glamour para a pobre escritora que mal e mal tinha saído das fraldas.
Eu, embebida no sonho da fama criado pelo meu pai, escrevia histórias e mais histórias, todas com títulos igualmente singelos e pouco criativos como o do jacarezinho. “A menininha’, ‘A casa amarela’, ‘O barquinho de papel’...
Não me aguentei e contei, empolgada, para algumas amiguinhas, contei para a professora, já era praticamente uma escritora de sucesso, sem terem minhas histórias sequer saído do caderno de caligrafia. Quando completei a última folha, pedi outro caderno ao pai, que já não estava mais tão seguro do meu sucesso. Aprendi cedo o significado da expressão fogo de palha.
Até hoje, quando ele diz que eu tenho talento para qualquer coisa, olho para ele e digo apenas:
- Aham, pai, e o jacarezinho??

Comentários

Graci Polak disse…
Ai, Tati.

Sempre o seu pai. Quem mandou ser filha de Papai Noel? Mas eu dou todo apoio para o livro, na verdade, em troca de um exemplar autografado e tudo.

Mas não custa nada trazer à vida, novamente, O Jacarezinho. Taí o primeiro passo, haha... APosto que tem gente que vai adorar.
Ontem eu li uma "estóia" chamada Lucinda, a minhoca gulosa. Mereço algo mais Tatiano.

=)
Essa tia do RJ que seu pai se refere sou eu, leio tudo que vc escreve, e cada vez mais fico imprecionada vc é maravilhosa, escreve muito bém. Nós leitores merecemos vários livros escrito por vc, sei que, o que não lhes falta é histórias nessa cabeça.
Parabéns, vc é Completa.
tia Gesa.bjs
Finito Carneiro disse…
hauhahuahua... Seu pai é o mais massa! E ainda falta a gente tirar o documentário do papel, né?
Lubi disse…
Sempre quando você fala sobre o seu pai, sinto uma saudade enorme do meu.
Queria ter uma vida longa com ele.

Um beijo.
FABI disse…
Escreva um livro e no prefácio coloque: "a história do jacarezinho - e assim tudo começou!".

Não se esqueça de colocar nos agradecimentos um "muito obrigada" p/ Fabi que deu uma idéia genial para o início do livro!rs
Contos de Fada? disse…
Sua tia e seu pai estão cobertos de razão. Um livro de contos seu eu leria com todo prazer!
Olá Tati,

PARABÉNS, estou lendo suas histórias e estou gostando muito.
Como o primo fala “o tio realmente criou um mostro”rsrsrsrs
Estou aguardando a data do lançamento do livro, que será um SUCESSO.
Estamos aguardando sua vinda ao Rio.

Beijos
Danielle
Klaus disse…
Ih Tati, agora para de escrever Cu, ameniza aí, sua família toda agora lê estas linhas. Eu ia fazer novo elogio, mas tá ficando chato, até pq vc nao elogia mais meus textos! Mas vou querer autógrafo do seu livro! Excelente... Não!droga!
Diangela disse…
bom, eu posso coordenadar a nova futura edição, que tal? eu não tenho a história do jacarezinha pra vc jogar na minha cara. hahahaha. e aí, topa?!
Siguilita disse…
hahaha...
muito boa essa Tati...
to aki na sala de casa, rindo sozinha... ]
bjus

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