O Muro Azul

Pegar no sono foi uma das coisas mais temíveis de uma determinada época da minha infância. Eu ouvia o silêncio da casa, e ficava intacta, debaixo das cobertas, torcendo para que o dia raiasse. Meu quarto, pequeno e lotado de bonecas e quinquilharias, dava margem aos meus medos, pois era comum as bonecas me olharem com olhares maquiavélicos e ursos se transformarem em criaturas assassinas.
Minha mãe dizia que tudo era besteira e me recomendava rezar antes de dormir. “Senhor, queria agradecer pelo meu dia e que eu consiga dormir hoje, amém”. Nunca adiantava. Era só terminar o cochicho que o silêncio se apossava e qualquer ruído se transformava em pretextos para se fechar os olhos com força, tapar os ouvidos. Foi aí que aprendi a técnica do Muro Azul.
Imaginava um muro azul, bem azul, sem fim. Olhava para todos os lados e não conseguia enxergar onde terminava o muro. Mas ele estava ali, na minha frente, bem azul. E eu não sei por que cargas d’água olhar para o muro me deixava em paz. Talvez tivesse a ver com a psicologia das cores, na qual o azul passa tranquilidade, ou com o fato de eu ter sido criada pela Xuxa e em um dos filmes, à procura do seu cãozinho, ela se deparava com um muro sem fim, com uma lagartixa no meio. Pode ser que tudo isso misturou na minha cabeça infantil e criou a solução para minha insônia.
Com o tempo, esqueci do muro, da mesma forma que fui deixando para trás muitas coisas da minha infância (incluindo a Xuxa). Lembrei do meu muro cor de céu hoje, num daqueles momentos de angústia que a gente tem, trancada em casa, sob as cobertas, chuva desabando lá fora, e teoremas insolucionáveis flutuando por todos os cantos. Sem sol, nem solução, nem muro azul para apaziguar.
O Muro Azul não me trouxe a paz desejada hoje. Quem sabe, funcione mais em crianças de coração puro. Os adultos, chatos, têm mania de problematizar tudo. Hoje o que vejo é, ainda, um muro, um muro sem fim, mas ele não é mais azul. É um daqueles muros que a gente pode ficar diante a vida toda, tentando imaginar um jeito para transpor.
Tem gente que passa a vida toda tentando passar para o outro lado do muro. Gente curiosa, ou inquieta. ‘Se existe um muro ele divide algo, o que será que é?’ Tem gente que passa a vida toda com medo sequer de tocar o muro. Gente medrosa, covarde, até. ‘Se existe um muro ele divide algo, se eu estou deste lado e ainda não morri, sorte a minha, deixa eu ficar quietinho do lado protegido’. E tem gente que nem se dá pela existência dos lados. Gente tranquila, em paz. Gente que contempla o muro como se fosse uma paisagem. Para esses, o muro tem até cor. É azul e é essa a pintura que basta.

7 comentários:

{ Michele Matos } at: 24 de abril de 2010 21:06 disse...

O muro azul vai me fazer dormir hoje, nem vou pensar no valor da vistoria do apartamento, o muro azul irá me tranquilizar. =*

{ FABI } at: 24 de abril de 2010 21:52 disse...

Qdo estou inquieta e não consigo dormir, eu conto (mentalmente) histórias para mim mesma. É assim que surgem minhas histórias estranhas.

Ahh... e sempre penso que poderiam inventar uma máquina que escreve o que vc está pensando no momento em que pensa, sem precisar digitar.

{ Graci Polak } at: 26 de abril de 2010 05:59 disse...

Hoje eu não sei se quero pular o muro, ficar para sempre desse lado ou vê-lo azul.

E continua chovendo, chovendo o mundo inteiro.

{ jefhcardoso } at: 27 de abril de 2010 04:48 disse...

Olá Tatiana! Esta semana estou divulgando uma “nova” postagem. Trata-se de um conto; que na verdade vem a ser uma reedição de meu blog. Sua postagem original ocorreu em 13.02.09; sendo esta a minha terceira postagem no blog. Naquela ocasião este texto não recebeu nenhum comentário. O texto é “O Sr. e o Dr.”. Espero que você, tendo um tempinho, o aprecie.
Um grande abraço, minha gratidão antecipada!

Jefhcardoso do http://jefhcardoso.blogspot.com

{ va_nessals } at: 27 de abril de 2010 17:42 disse...

Que galpão?
Ah, eu me lembro desse filme da Xuxa!
E mais uma coisa: impossível nao morrer de medo naquele teu quarto cheeeeeeeio de coisas! Eh pra qualquer criança acreditar em monstros!

{ princezinha do mar } at: 28 de abril de 2010 11:39 disse...

A vida é mesmo cheia de mistérios, não sabemos o que fazer, nem por onde ir, se ficamos, somos chamados de covarde, se pulamos somos chamados de atrividos.E agora, que rumo devemos tomar!
É melhor seguir o exemplo de Zaca Pagodinho, Deixa á vida nos levar, e ver que bicho dá. bjss adorei :)

{ melhem12 } at: 11 de maio de 2010 05:53 disse...

Sem a menor dúvida hoje ainda eu testarei a técnica do muro azul... Mas eu, se fosse você, aproveitaria tanto muro e escreveria nele!!!!

 

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