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Sem ponto

Não é sem ponto final não. Eu quero ser sem ponto, mas é sem ponto de costura. Aquele ponto como quando a mãe diz: é simples, é só dar um pontinho. Não, não dá não. Quero ser uma roupa sem costuras, uma roupa que se desdobra em uma, em mil. Quero estar sempre bem vestida para quando o frio chegar, casacos de pele, casacos de lã, capote pesado até o pé. E que nos trópicos o que eu visto vire uma roupa fresca, daquelas leves para levar o sol na cara. E que dê para mergulhar. Quero uma roupa própria para navegar. Minha veste é túnica, vestido de festa ou decote. Minha roupa é amarela, cor de fogo, ou do céu, ou de todas as cores, cores do jardim que eu deixei. Quero roupa que dá para desmanchar, arrancar. Quero roupa sempre limpa, sempre nova. Quero me renovar a cada porto novo. Em cada porto, sem porto final.


(...)

Naus partem — naus não, barcos, mas as naus estão em mim,

E é sempre melhor o impreciso que embala do que o certo que basta,

Porque o que basta acaba onde basta, e onde acaba não basta,

E nada que se pareça com isto devia ser o sentido da vida...

(...)

(Álvaro de Campos – A Casa Branca A Nau Preta)

Comentários

Klaus disse…
Wow! Que sacudida de poeira! Gostei! Curto, grosso, sensível e gostoso! Eu ia dizer que me identifiquei, mas não é o caso... hahaha! Continua nessa vibe!
FABI disse…
Espero que o mundo não baste p/ vc!
Espero que vc seja sem ponto e sem porto mas que aporte por estas bandas de novo!
Dulcinéia disse…
Bem minha cara teu texto.
E costurar também não é pra mim.
eu nunca sei se sei dar um ponto simples. eu invento um ponto.

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