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Carta para as amigas

Faz tempo que tenho vontade de lhes escrever uma carta. Não um bilhete, como os da escola, que nos divertiam num fôlego na aula. Não um e-mail, aqueles que se escrevem e se leem com pressa. Mas uma carta, uma carta recheada e reveladora, como as da nossa adolescência.
Cartas que outros mais de perto não entendiam o sentido, uma vez que morávamos na mesma cidade e, muitas vezes, postávamos os escritos pelo correio, com selo no valor de um centavo. Para escrever, não era preciso muito. Umas três canetas coloridas, uns adesivos de um caderno 10 matérias, algumas divagações. Cada carta era a certeza de estar compartilhando uma certeza.
Há muito venho querendo escrever-lhes uma carta, mas sempre me atrapalho na organização dos dados. Sempre há uma novidade que motiva a partilha, mas com ela vem um punhado de outras lembranças, de outros fatos que, sozinhos, não justificam uma carta, mas reunidos dariam um romance.
Mas o que mais me impede de escrever uma carta é a incerteza. A incerteza do próximo passo, incerteza do que se sabe e do que se quer. De não saber se o que se tem é o que se quer e, se não é, se a gente tem pelo menos certeza do que se quer. Ou do que se sabe. Na carta tem que haver uma certeza, pelo menos uma. Senão não há carta.
Do contrário, a carta trará apenas a nostalgia de um tempo vestido de uniforme, ou de um tempo calçado com tênis. Ou então a carta vai vomitar as agruras do emprego de agora e a falta de coragem em admitir que sou (ou somos) diferente do que sonhamos para esta época. Os amores que passaram, os que estão nos amando. Eu nem sei mais quem venceu a aposta, afinal, alguém casou ou não?
Eu temo em não saber como estão as amigas, aquelas minhas amigas de quem eu sabia tudo, aquelas cuja roupa para a festinha eu dava palpites. Eu tenho medo de não saber mais de quem eu sabia tanto. Receio em nos encontrarmos como estranhas, dividindo o mesmo sorriso amarelo e a constatação de que amizade que não perdura não é amizade.
Hoje eu quis lhes escrever. Não uma carta, mas um projeto de. Para dizer apenas que revirei papéis, gavetas e me revirei inteira para achar uma certeza. Uma certeza para justificar o escrito.

A única certeza, amigas, é que nessa vida de agora a gente não tem certeza de nada. Que se a gente quando pequena teve certeza alguma, a vida de agora veio para deixar a gente sem certeza qualquer.

Comentários

Camila Rufine disse…
=)
Acho que toda amizade entre mulheres é igual.

Lindo texto, Tati.
Diangela disse…
Caralho!! Vc disse tudo que eu queria dizer, posso encaminhar pras minhas amigas? hahaha
Beeijo, Tatiêini. Te adoro.
Vero disse…
Voce escreve muito lindo!
parabens
adorei a entrada
beijinhos
Mariáh disse…
aaaahhhhh... Saudades de tiiiii...

saudades das cartas, ahaha todos os dias era uma.. onde se tinha tanto assunto.. tenho ate vergonha ao rele-las.

to te esperandoo.. beijoss
va_nessals disse…
Amor, vc sabe que sempre que a gente se encontrar vai ser a mesma coisa. Tb sinto muita saudade daquela época das cartas e tb tenho medo de não saber mais a respeito da vida de quem eu sabia tanto... Amo muito vc minha amiga. Adorei a carta! Muuuita saudade!
Graci Polak disse…
Lindo, Tati.

E verdadeiro, tristemente verdadeiro.
Luara disse…
descobri seu blog sem querer, estou começando a fazer um tbm, mas deixar a preguiça de lado nem sempre é fácil! rs

mas quero dizer q amei teu blog, ele simplesmente TRADUZ.

beijos
e como a letra de Belchior, "No presente a mente, o corpo é diferente. E o passado é uma roupa que não nos serve mais".
Tati...

Simplismente lindo, autêntico,
porém triste, mais lindo.
vc é porreta, parece ler pensamentos.
bjsssssssss.
Michele Matos disse…
Amizade que não perdura não é amizade..não, não. Se não cuidar morre mesmo.
E certeza, a gente nem tem né...
Lindo Taticaaa!
Do que tinha gosto os chocolates da tarini? huahuhauhauahuaha

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