Encaixotando a vida

A sensação não deixa de ser estranha. Em pouco tempo, você vê tudo o que você tem se transformar em pilhas, em caixas, sacolas amontoadas pelos cantos. A intenção era organizar, mas o que sinto é justamente o contrário. Ao revirar papéis, fotos, escritos de uma vida que já foi e que insisto em guardar comigo, sinto-me como que espalhada pela casa, por cada cantinho dela.

A casa não é mais minha. Sou apenas uma hóspede que divide lugar com nostalgias que flutuam pelo ar, com a ausência de tudo que já vivi. Sobra pouco espaço para a expectativa do que ainda está por se descortinar. Junto com as caixas e sacos devidamente organizados, estou eu, como que fragmentada. Estou dividida, porque em cada coisa carregada está um pedaço meu, uma lembrança.

Arrumar a mudança mexeu comigo. Uma porque o que eu nutria pela cidade era um sentimento de derrota. Era como se tivesse perdido para o lugar, uma vez que não havia conseguido ser dele. Talvez, nunca tenha me esforçado o suficiente. Mas o contato com as lembranças me fez voltar de novo o olhar para a cidade. Sim, ela me acolheu. E aqui eu pude ser feliz.

Os pedaços felizes não se sobrepõem aos tristes, nem o contrário. Sou o que sou porque nesses sete anos se mesclou todo tipo de experiência. E os sete se juntaram aos outros dezessete. Sou o que resultou disso e volto com a consciência tranquila. Ainda bem que a mudança me fez entender isso. A casa vazia, a vida encaixotada, tudo segue. Roupas foram doadas, papéis foram descartados, mimos continuarão guardados, mas em outros porões. Esvaziei a mente de lembranças porque elas estavam me atordoando.

Agora eu voltarei às ruas, calçadas, praças da cidade com os olhos de quem por aqui já viveu, mas agora precisa ir. Não é carinho o que sinto. Talvez nem agradecimento. Saudade sim, de quem deixei. Mas o que salta a tudo isso é essa coisa que me instiga, essa coisa que cutuca. Essa coisa de estrangeira.

Desse céu eu sempre vou sentir saudade



12 comentários:

{ João } at: 26 de junho de 2010 20:57 disse...

Lindo, como tudo que escreves... mas triste ao mesmo tempo... Se posso te dizer alguma coisa, falo para só levar as boas lembranças. As más, apague. Aquelas que têm carinho, sei que vai guardar em algum cantinho do enorme coração que tens.

{ Scheyla Joanne Horst } at: 27 de junho de 2010 10:45 disse...

Impossível esquecer esse céu... Tati, para onde você vai?

{ Paula de Assis Fernandes } at: 28 de junho de 2010 07:36 disse...

Ai, Tati, Guarapuava é uma loucura na nossa vida, né?! Também sempre me senti alheia à cidade, mas hoje me faz tanta falta. Não necessariamente pela cidade, bem sabemos.
Mas que sorte que Guarapuava teve de você ter vivido aí. Duvido que alguém tenha escrito um texto mais bonito que esse pra mostrar essa miscelânia de sentimentos que, confesso, são meus também.
Boa sorte na sua nova jornada, querida. Beijo enorme!

{ Diangela } at: 28 de junho de 2010 09:05 disse...

Uma estrangeira que encontrará seu porto. Na torcida, porque eu também entendo disso tudo...

{ Kethy } at: 29 de junho de 2010 11:37 disse...

Querida amiga!
Essa vida de mudança eu sei bem.
Também tenho várias lembranças guardadas em caixas...
A vida aqui segue, agora com um presente divino em meu ventre.
Tudo de melhor nessas novas joranadas de nossas vidas!
Bjos com carinho.
Paz e luz!!!

{ Camila Rufine } at: 30 de junho de 2010 12:01 disse...

Nossa, eu estava pensando agora nisso: em 3 meses eu tenho que fazer a minha mudança também. Vim só com uma mala e agora não sei se 2 serão suficientes para voltar. Mas é isso. Caio Fernando Abreu já escreveu uma vez sobre quando a gente sabe que vai embora, que parece que a alma da gente vai uns dias antes e a gente fica sem ela, esperando o que há por vir. Me sinto assim.
Boa sorte na nova empreitada. Pra onde vai?
Espero que continue por perto!

Beijo

{ AmoJoias } at: 1 de julho de 2010 07:16 disse...

Nosssa que lindo e tocante!
bjus

{ A.V. } at: 7 de julho de 2010 20:35 disse...

A gente sempre precisa voltar, para partirmos mais inteiras... ah, essa alma estrangeira...
Beijo, querida Amiga!

{ Michele Matos } at: 11 de julho de 2010 19:45 disse...

O que me deixa feliz é que você está feliz de verdade, e seus olhos contam isso. Mas te deixar ir embora é triste.
=/

{ Camilla Aloyá } at: 13 de julho de 2010 19:21 disse...

vc escreve muito bem, sempre achei isso.

{ glauce } at: 17 de julho de 2010 12:30 disse...

Minha estrangeira,vc. escreveu lindamente tudo aquilo que tenho em meu coração, pois é assim que estou me sentindo; sabes que estou na preparação para uma nova mudança(de cidade),e isso meche muito com o meu eu. Quanto a cidade no meu caso: É carinho o que sinto.E um grande agradecimento, por ter sido tão bem acolhida;minha terra natal.Saudades de quem deixa, mais a certeza de que voltarei muitas vezes, como visitante.
Acredito mais uma vez, que temos algo em comum... somos também estrangeira.
Parabéns e boa sorte.te adoro.

{ Ediane Battistuz } at: 26 de julho de 2010 17:43 disse...

A sua existência, em qualquer lugar por onde tenha passado, só é justificável se você deixa no ar um perfume de saudade e um rastro de lembranças. Que é o seu caso. Deus te acompanhe. Sempre.

 

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