Depois a gente vê

Recebi um e-mail do meu pai hoje, encaminhando a resposta que ele recebeu de um grupo de comunicação. Veio sem explicação nenhuma para mim, mas a mensagem mostrava um e-mail enviado por ele, contando que era o Papai Noel, o trabalho desenvolvido, etc e oferecendo uma parceria. A pessoa do tal grupo respondeu perguntando qual era o tipo de parceria, para aí avaliar se havia interesse.

À noite meu pai me ligou e perguntou se eu havia recebido o e-mail. “Sim, pai, mas que parceria é?”. E ele: “pois é, isso que eu queria ver contigo, você tem alguma ideia?”

Meu irmão resumiu bem esses rompantes que costumam atacar o Papai Noel: “Pai, é como se eu visse uma placa de aluga-se em uma sala comercial, aí pedisse as informações de preço e acertasse tudo. Então eu te ligo e pergunto: e aí, pai, o que você acha que eu coloco na sala?”

Não posso culpá-lo. Vez em quando outra faço essas loucuras. E a mania começou cedo. Por volta dos 10 anos de idade, decidi colocar um anúncio no gibi do Zé Carioca fazendo propaganda de um clube, uma rede de amigos. O nome era Bud’s Line. Recebi uma cartinha logo depois, dizendo que o anúncio tinha sido aprovado. Comprei o gibi e achei o anúncio, impresso, com meu endereço. Orgulho.

Mas o porquê do nome, qual era a do clube ninguém sabia. Muito menos eu. E essas eram as perguntas das cartas que chegavam lá em casa, aos montes, do Brasil todo. Um dia meu irmão disse que o carteiro perguntou a ele o que tinha lá em casa, pra tanta carta chegar ao nosso endereço, direcionadas a um negócio de nome esquisito.

Eu nem lembro o que falei quando chegou a hora de responder aos novos integrantes do Bud’s Line. Devo ter sido sincera, que não sabia patavinas por que coloquei o nome, muito menos o que dizer naquele momento. De maneira que poucas pessoas retornaram as cartas.

A única que me lembro se chamava Ione e morava no Rio Grande do Sul. Viramos grandes amigas, através das linhas escritas, por anos. Nesse tempo, Ione jogou handebol em um campeonato, me contou de namorados e ficou grávida do Pablo. Tudo isso ela compartilhou pelas cartas. Gostava tanto da Ione que bordei umas toalhinhas com o nome do filho dela e mandei pelo Correio.

Da amizade com ela surgiram outras, desencadeadas por espécies de correntes enviadas por cartas, em um tempo que nem se falava em Internet. A gente escrevia o nome e o endereço em uma espécie de caderninho de amigos, que rodava o país. Nesses bloquinhos, conheciam-se muitas pessoas que se dedicavam às cartas. Gente que entendia a mágica de enviar e receber um escrito pelo Correio, gente que ficava feliz com notícias de pessoas com as quais nunca havia se encontrado. Foi assim que fiz outros amigos, o Augusto, a Renata e a Alice, que esses dias até me encontrou no Orkut. Com os outros, restou apenas a lembrança. Não há mais contato. Não lembro como minguou a amizade, ou se foi apenas a vida que mudou.

E pensando nisso, percebi que, sem saber e sem querer, a minha ideia do Bud’s Line resultou mesmo em uma rede. Uma corrente de gente do bem, que se fez bem mutuamente por um período.

É por isso que eu acredito, piamente, nas ideias loucas do meu pai.

Comentários

Loucura é mal de família, sempre desconfiei! rs

Também tive amigos 'pen pal', só muito mais tarde, quando eles não existiam mais, é que descobri a expressão. Outro dia recebi um e-mail criticando pais que deixam os filhos usarem msn, com uma história muito dramática de uma menina que foi violentada depoiis que alguém descobriu seu endereço com base nas informações que passava. Engraçado, na nossa infância, nós contávamos o endereço, o divulgava-mos em revistas! Será que as pessoas eram melhores?

O seu pai é Papai Noel, então, por que não acreditar nas ideias dele? rs

Bjão
Camila Rufine disse…
As melhores ideias sempre sao as mais loucas. =)
Tati, demais! Eu também mandava cartinhas nessas redes de revistinha, mas sempre nas da Mônica... se vc tivesse divulgado seu clubinho lá, quem sabe não tivesse tido a sorte de te conhecer antes?!
Beijoo
Diangela disse…
Saudade do papai noel e da sua família...
Srtª Amora disse…
é... eu tbm acredito na loucura, sempre acaba saindo alguma coisa boa. beijos querida e ótimo final de semana.

srt Amora
Agora lembrei do "Nosso Amiguinho" hehe. Vai fundo nas ideias :D
Michele Matos disse…
Que saudade do tempo que se fazia amizades por cartas. E sim, viva a loucura!
Lucemary disse…
Cara...
tão bom descobrir que não se é um ET.
Além dos seus textos, descobri, adoro sua família.
:)
E o Papai Noel.
Alice Lima disse…
Amei Tati!! Aqueles caderninhos... os FB's (friend book)que chegavam aos montes. Era tão legal! Foi uma fase bem gostosa, também não sei como aos poucos foi minguando cada amizade.
Cheguei a conhecer uma das minhas correspondentes a Naty, me aventurei em SP afim de conhece la, boas lembranças.. não consigo me lembrar o que tanto eu te escrevia, porém lembro bem o que vc me escrevia. Epoca muito gostosa aquela.

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