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O destino de Cauã

Na rodoviária, esperava o lanche absorta em pensamentos, quando os devaneios foram interrompidos por uma vozinha de criança.

- Tia, meu cabelo está bonito?

Não pude deixar de rir. Um garoto lindo, como aqueles de comercial. Os olhos azuis, bem azuis. As bochechas rosadas e um sorriso capaz de abalar qualquer ranzinza. Disse que sim, estava bonito, mas ele retrucou dizendo que não, estava feio.

O pai riu e me falou que não deu tempo de cortar o cabelo do filho antes de viajar. “Aproveitei meu único dia de folga para fazer isso, mas o lugar estava fechado. Vai chegar ao Paraná cabeludo, não tem outro jeito”.

Reparei nas malas, pouca coisa.

-Vão passar pouco tempo lá?

Então ele me contou a história toda. O senhor O.J., como o chamarei aqui, separou da mulher poucos meses antes de Cauã nascer. A mãe ficou com a criança, mas quando tinha 1 ano e 6 meses, Cauã foi encontrado pelo pai cheio de hematomas e uma infecção no ouvido. Levou-o embora para São Paulo. Lá não recebeu ajuda de ninguém. “Nem meu pai acreditou em mim, disse que eu roubei o menino”.

Éramos interrompidos, vez ou outra, pelas travessuras de Cauã. Perguntou meu nome umas três vezes, se eu ia comer, quando eu ia comer, falou do cabelo de novo, quis tomar coca, não quis mais tomar coca, devorou as batatinhas, quis mostarda, odiou a mostarda, recusou o sanduíche.

Quando chegaram em São Paulo, os dois moraram em hotel, até O.J. ter dinheiro para juntar três meses de aluguel e poder alugar uma casa. Trabalhava em dois empregos, direto, sem dormir. Chorou em uma creche para poder deixar Cauã durante todo o dia por R$ 150,00. À noite, ele ficava na casa de uma amiga do pai. Ainda dói para O.J. aceitar emprego aos finais de semana, porque é o único tempo que pode ficar com o filho.

O motivo da viagem dos dois é a audiência, marcada para hoje, que vai decidir o destino de Cauã. E levar a questão à Justiça foi desejo do pai. “Não quero que ele cresça e pense que eu fiz a coisa errada, que eu não dei chance de ele morar com a mãe”. O conformismo dele, de entregar o filho a uma mulher acusada de maus tratos, que inclusive perdeu a outra filha ao Conselho Tutelar, perturbou-me. Mas por trás do discurso, O.J. estava, sim, inconformado. “Sou calmo, mas se o juiz disser que ele tem que ficar lá, sei lá o que faço, sou capaz de fugir com o menino”, disse mais tarde. Tentei acalmá-lo e convencê-lo de que qualquer juiz daria a guarda a ele, pelo histórico da mãe.

Estava cada vez mais cativada por Cauã. Brinquei com ele até fazê-lo dar umas boas mordidas no sanduíche, em troca de uns goles de soda limonada. Limpei-lhe a boca, fiz carinho nos cabelos. Se em meia hora eu já queria o garoto para mim, imagina ficar mais de três anos – hoje Cauã tem quatro – e estar diante da possibilidade de perdê-lo?

O.J. falou para o filho, no caminho para a rodoviária, que ele poderia morar com a mamãe. O menino chorou. Até eu quase chorei, quando ele contou isso. Depois, o pai disse algo como “dizem que a criança tem que ficar com a mãe e eu admito que eu não sei cuidar dele direito, sou mole para dar ordens, mas o amo muito”.

Hoje, como falei, é a audiência que vai definir o futuro do Cauã. Talvez até já tenha acontecido. Sei que pensei nisso o dia todo. Talvez pela tranquilidade de O.J., uma mistura de confiança e fé, sem desesperos. Ouvi apenas a sua versão e sei que isso não engloba a história inteira. Mas antes de entrar no meu ônibus, olhei os dois aguardando o embarque. Deparei-me com um garotinho dormindo serenamente no colo do pai, repousando a cabeça no ombro do seu protetor e segurando no braço dele com suas mãozinhas. Nesse momento, desejei fortemente que Cauã e O.J. ficassem juntos. Porque é assim que tem que ser.

Comentários

Graci Polak disse…
Ai, Tati. Que coisa. Não deu pra não arrepiar e conter as lágrimas.

Tô torcendo que o destino do Cauã seja continuar com esse amor todo.

=)
Tati, que história linda!
Tomara que o Cauã continue com o pai, se toda essa história é verdade. E você não pegou nenhum contato pra saber o resultado?!
Fiquei curiosa(íssima)!!!
Tantas crianças que tem seus destinos assim, decidido em tribunais...
Ainda bem que o pai ama muito esse menino...
Espero um dia poder conceder um pouco que seja do amor que existe em mim a alguma criança que não tem a mesma sorte...
E que os dois permaneçam juntos sempre!

Não só uma bela história, uma bela escrita também!
xero.
FABI disse…
Só você mesmo hein... chego a choro!
Camila Rufine disse…
Ai, Tati. Agora me senti parte da história do Cauã também. Será que não tem como descobrir? Belo texto. A história ficou ainda mais bonita contada por voce, aposto.
Bjo
Renata Caleffi disse…
Eu queria acreditar q ficou com o pai..mas ultimamente, nessa Grande Justiça brasileira, tenho quase certeza q eele acabou com a mãe. E isso não será nada bom pra nenhuma das partes. Texto lindo tati, lindo de mais! Caiu uma lágrima mesmo sem querer!
Eita, lembrei do filme até, 'a procura da felicidade', rs. Mas veja como a vida é, cinco minutos de atraso e você nem conheceria o Cauã e tudo isso.
Tarini disse…
Ahhh caramba! Ja sou curiosa...
E agora o Cauã ta com quem??
Pode descobrir, se vira nos 30 neguinhaa!
Não quero ficar na curiosidade não!!!
Ediane Battistuz disse…
Quero acreditar, com todas as minhas forças, que o Cauã ficou com seu pai. Como você não pegou nenhum telefone do OJ pra ligar outra hora, mulher do céu??? Agora eu to com vontade de sair procurando esse indivíduo pra saber.... pense só, ele te contou toda a história! Não ia negar um número de telefone.... ai, que curiosidade, que torcida....
Mauricio Toczek disse…
Também fiquei curioso. É triste pensar que uma família que poderia encontrar a felicidade juntos no nascimento de uma criança acabe dessa forma. Estou adorando seu blog.
Solange disse…
você me emocionou...

desejo do fundo da minha alma que ele fique com o pai, porque é ele afinal, que é sua mãe !!!!

beijos

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