A lua

Se me perguntassem, aos dois anos de idade, qual era meu maior medo, eu responderia: a lua. Foi motivo de muitas gargalhadas do meu pai, que gostava de atiçar meu temor. Ele me punha em frente a uma janela larga, que se estendia por quase toda a sala do nosso apartamento, sem cortinas, e se divertia com minha cara de pânico diante da lua.
Eu não sei explicar por que ela me incomodava. Talvez por ela ser grande, única e majestosa, reinando branca num império negro de servas estrelas. Ela parecia me olhar de um jeito impositivo, desafiando-me a mostrar quem eu era. E aos dois anos acho que eu não tinha muita ideia da minha real identidade. Nem que isso existisse.
Venci, aos poucos, meu medo da lua. Adquiri outras fobias, mais normais, como de répteis ou de altura. A lua voltou a me desafiar quando parti da casa dos meus pais rumo a terras estrangeiras. Quando viajei, digamos assim, ao encontro do meu voo mais alto.
Enquanto eu chorava pela saudade antecipada que já estava sentindo de quem eu deixava, dos medos, da insegurança de trilhar um caminho muito antes desejado, mas nem tampouco fácil, a lua me fitava pela janela do ônibus. Ao contrário da minha infância, não perguntou mais quem eu era. Questionou-me apenas o que é maior: a saudade ou o desejo.
Pois eu respondo, dona lua, nenhum é e nem deve ser maior que o outro. Estarão sempre permeando nosso caminho, ora interferindo, ora apenas observando, como um astro a brilhar por nós de longe, no céu.

Comentários

João disse…
Lindo! Simplesmente lindo!
Graci Polak disse…
Pois concordo, dona Tati, inteiramente, com sua resposta.

(minha mãe, sei lá por qual motivo, sempre dizia para eu e minha irmã não olharmos a lua quando éramos crianças. Eu desobedecia. Sempre fui fascinada por ela).
FABI disse…
Escreve bonito a beça vc hein...
Tati, você é incrível. Eu jamais responderia melhor. Lindo, de verdade.
Klaus Pettinger disse…
como vc faz isso, Tati? Suas metáforas são desconsertantes. Bom, enquanto não aprendo, vivo de trocadalhos e fotografias de saudades cheias e desejos minguantes! ;p
Desde criança, quando viajava deitada no banco de trás do carro (nem tinha a lei das cadeirinhas) olhando pela janela, eu ficava vidrada na lua, íamos conversando.
Bem bom seu texto, Tati :*
Michele Matos disse…
Vontade de escrever esse texto na parede do meu quarto.
Anônimo disse…
Ei, lindo texto! Escreve muito bem. Parabéns ;)

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