Pular para o conteúdo principal

Na garganta

Foi quando eu tinha uns 12 anos. Estava visitando meus tios no Rio de Janeiro e voltava da casa de um deles perto do meio-dia. Prestes a entrar no prédio da minha outra tia, onde passava a maior parte do tempo, aconteceu. Uma força estranha e invisível me arremessou para trás. Senti uma dor na garganta e quando passei a mão constatei: sangue.
Descobri minutos mais tarde que não era uma força invisível e sim uma linha esticada onde garotos tinham lambuzado de cerol. A mistura de cola e vidro moído me cortou a garganta, mas foi de levinho. Claro que fiquei assustada, mas o que mais me deixou espantada foi a voracidade com que minha tia, quando descobriu, avançou sobre a linha e esbravejou contra os moleques. Ela destruiu todo o trabalho.
Tenho a cicatriz até hoje. Para mostrar àqueles que duvidam quando eu conto a história, mais uma “das que aconteceram comigo”. Anos mais tarde, a garganta quase me matou de novo. Tive uma hemorragia séria depois de uma cirurgia e achei que daquela vez ia mesmo.
Uma amiga, estudiosa dos mistérios do corpo e curas naturais para seus males, vive me alertando que as constantes dores de garganta querem me dizer algo. Certa vez ela citou algo como “coisas que eu não me permito exprimir e, não sendo despejadas para fora, ficam abafadas na garganta”. Concordo.
Seria exagero dizer que habita duas dentro de mim e ainda mais clichê afirmar que todos nós temos duas faces opostas coexistindo no mesmo ser. Mas isso exprime bem o que quero dizer. Porque embora na maior parte do tempo a Tatiana boazinha toma as rédeas do espetáculo, também existe a Tatiana má, que espera na coxia a sua hora de entrar em cena. E na maior parte das vezes, a boa não deixa.
A Tatiana boa é doce e quase serva. Insegura, acha que tem que se doar por completo, e além do completo, porque não é boa o suficiente. Deixa-se levar, sofre abusos de autoridade, perde seu tempo com os outros e no final ainda se conforma com a vida, que, ora, é assim mesmo. Enquanto isso a Tatiana outra grita, urra. Não gosta da outra, mas depende dela, por isso lhe faz advertências, mil súplicas... De nada adianta.
Talvez minha amiga tenha feito o diagnóstico mais preciso de sua vida. Há três ou quatro dias eu ando com uma gripe/resfriado meio estranha. Parece que nunca tive isso antes. Sinto o pulmão cheio e quase obstruído de (desculpe aqueles que têm nojinho) catarro e nem a tosse mais tuberculosa o tira de lá. A garganta arranha, dói, lateja. Tenho me armado de receitas caseiras, mas não passa.
Desconfio que é a Tatiana má mandando seu sinal. Ela nunca quis falar tanto quanto antes. Precisa de atenção, precisa de luz focando seus trejeitos e descobertas. Necessita, ainda mais, que os expectadores falem português. Ela não consegue.
Temo que ela nunca estará satisfeita. Porque mais difícil que expurgar esse catarro do pulmão, é ainda pior extirpar o outro, o da alma.

Comentários

Ariane disse…
é... só sobrevivemos se o chachorro mal está mais alimentado e forte que o cachorro bom...
Diangela disse…
quer falar português comigo?? da última vez só eu falei ;/ te cuida, tatica. saudade.
Camila Rufine disse…
Ai, Tati... agora entendo o que vc disse no messenger. Bom, a sua Ruthinha interior precisa da sua Raquel. Uma complementa a outra e não vai ser qualquer Da Lua falando outro idioma que vai fazer com que essa mistura (que resulta na Tati que conhecemos)desande.
Força e muito vick vaporub!
Klaus Pettinger disse…
"Catarro da Alma" ("Cat Arrow of the Soul", Fox Filmes, com Tatilazz e Pus Damon), conta a história de uma jovem talentosíssima a procura do seu destino glorioso. O drama possui comédias que nem a melhor combinação de diclofenaco + azitormicina poderá amenizar. Em breve, no seu blog preferido!

PS1: Qual era mesmo a personagem de "100 Anos" que vivia reações físicas às penitências da alma? Ah é, todas...

PS2: Escreva só "pus" e dê um "espaço" no google e veja a primeira sugestão que ele te dá...

Postagens mais visitadas deste blog

Das esperanças

Hoje consegui parar em frente ao computador e com um pouquinho de tempo para responder às suas angustiantes letras. Hoje, esperando que você esteja melhor, parei para te escrever que, sim, acredito no amor. Com o tempo, os tombos, os tropeços e as cravadas na saída (qual ginasta olímpica), com as fichas caídas, os choros copiosos e soluçados para os meus travesseiros... Passado tudo isso, posso dizer que, mesmo que mais 200 relacionamentos meu acabem daqui para frente, sim, acredito no amor. Aprendi que o amor não acaba, ele só muda de rosto. O amor é nosso, amiga. A gente entrega para quem estiver mais disposto, para quem estiver atento no lance, para quem se encaixar com a gente. Por enquanto é essa neblina, esse tempo turvo, que parece que não vai desanuviar nunca, mas ó. Vai passar. E te diria isso mesmo sem estar em um relacionamento. Te diria isso numa manhã de fevereiro, antes e depois do carnaval, quando eu ainda nem  o conhecia. Diria isso mesmo depois de ter perdido um ou…

O reinado dos Castelões

Existem lugares que são verdadeiros achados, residindo insuspeitos no meio do caminho. Castelões é um deles. Num domingo quente e sem planos, topei com ele em uma rua deserta do Brás, onde morei por um ano e meio. Nesse tempo, acostumei-me, embora muita gente torcesse o nariz, às ruas feias do bairro que já chegou a ser mais conhecido na Itália que a própria São Paulo. Hoje o Brás perdeu um pouco do encanto e o título de ‘berço’ italiano acabou ficando para a Mooca, entre os menos entendidos. Para o Brás, sobrou a fama de sujo, feio, perigoso e casa de um Arnesto meio esquecido.
Por isso, nem me abalei quando meu então namorado sugeriu que almoçássemos num lugar que de longe tinha aparência meio duvidosa.No Brás tudo tem esse quê de capenga. Mas Castelões foi um engano nesse sentido. Ao chegar perto você percebe que sim, está diante de um lugar raro. A placa é de 1924 e não é mentirosa. O restaurante existe lá desde então. Trata-se do local mais antigo funcionando ininterruptamente n…

Prece de inverno

Minha mãe diz que arrumar a cama todo dia faz a gente ficar protegido. Confesso que nem sempre lembro. Às vezes é escolher entre a cama, lavar a louça do café ou assistir um pouco de tevê. A coberta meio embolada, o pijama jogado no canto, travesseiro caído no chão. Hoje numa calçada encontrei um morador em situação de rua arrumando a dele. Confesso que nem sempre reparo neles. Às vezes é a pressa, noutras estou resolvendo alguma coisa na tela, em algumas estou de olho nas vitrines. Eu meio distraída, desviando dos senhores, das senhoras e de suas casasmóveis. O homem arrumava a cama com tanto zelo que prendeu meu olhar. Confesso que uma partezinha de mim pensou para que tanto cuidado em arrumar algo que qualquer um podia bagunçar. Vi sua mão colocando a coberta azul bem certinha embaixo do colchão fininho, dobrando bonito perto do travesseiro, passando a mão por cima para tirar toda ruga. Eu pensando que aquela cama era toda a sua casa, tanto esmero que valia.
Desejei aquele cuid…