A chegada

Não foi agradável a viagem. A menos que você considere que desagradável é uma palavra muito forte para definir onze horas de voo dividindo o banco com as pernas dobradas da mulher ao lado, que se esparramou para dormir no colo do marido. A menos que desagradável seja uma palavra muito forte para exprimir a vontade irreprimível de ir ao banheiro e enquanto você espera na fila, uma mineira puxa um papo interminável e no exato momento em que você consegue escapar e anuncia a sua nova amiga de que vai entrar no banheiro, a aeromoça grita: Agora todo mundo sentado que tem turbulência!
Assisti a um filme em italiano, para matar a saudade antecipada da língua que eu me esforcei a aprender nesse meio tempo. E com sorriso disfarçado nos lábios, me dei conta que entendi tudo (salvo uma palavra e outra) como se estivesse assistindo em português. Fora o filme e os minutos dedicados à refeição (se você considerar desagradável uma palavra muito forte para definir uma comida, finja que não leu essa parte), tive muitos momentos em que seria possível a minha cabeça trabalhar bastante, algo comum nos meus silêncios. Mas abandonei as reflexões interiores durante a viagem. Não quis pensar nos meus próximos passos, nem mesmo no plano número um de devorar uma coxinha assim que aterrasse os pés em terras brasileiras (melhor dizendo, os pés no aeroporto brasileiro, onde para comer uma coxinha é necessário penhorar um órgão). Quis transformar esse momento no ar em uma pausa fluida e gelatinosa como flutuar no ar dentro de uma bolha. Sem ponto de partida, nem ponto de chegada, um devaneio.
Mas assim que o avião pousou e o comandante anunciou que éramos bem-vindos em São Paulo, eu ouvi os acordes de Luz Negra, do Cazuza. Mal tive tempo de distinguir a música e o grupo evangélico que estava no avião, voltando de uma excursão à Terra Santa, puxou uma calorosa salva de palmas. Assim que deixei de bater uma mão na outra, aproveitei para enxugar minhas lágrimas, que não respeitaram minha intenção de devaneio. Elas pousaram antes de mim.

7 comentários:

{ Paula de Assis Fernandes } at: 30 de novembro de 2010 05:40 disse...

Ai, Tati, que lindo. E que triste. Mas ó, bem-vinda de volta. E que os ares brasileiros te façam tão bem quanto fizeram os estrangeiros. Bjo

{ Klaus Pettinger } at: 30 de novembro de 2010 07:08 disse...

Que mania repugnante vc tem de parar de escrever no final do texto... Alias, q mania de terminar seu textos. Mesmo assim ri com varias passagens (entendeu? Passagens? Ha!). Ah, aprenda 2 coisas: coma td q te dao no aviao, é 'de graça', pra evitar os 5reais por uma agua. E aviao é terra de ninguém, belisque a folgada do seu lado e ignore a aeromoça - só não ignore a turbulencia!haha Bem vinda ao Brasil!

{ Tatiana Lazzarotto } at: 30 de novembro de 2010 08:14 disse...

Poxa, Klaus, quando eu escrevo demais você reclama, quando eu escrevo "pouco" você reclama. O que faço, excluo o blog? Huahauahaah

Paulinha, a tristeza foi bem passageira, as lágrimas pousaram e evaporaram assim que eu mastiguei o primeiro grão d feijão! Hehe Beijo!

{ isa_kagueyama } at: 30 de novembro de 2010 09:42 disse...

Ai Tati q lindo!
Seja mto bem-vinda de volta!!!

Mas fazer uma viagem ao lado de gente folgada, ninguém merece... ainda bem q tanto na ida qto na volta, sentei ao lado de dois homens normais, q nem puxavam papo, nem me incomodavam...

Nem falei, mas meus pais perderam a hora pra me pegar no aeroporto, rsrs. Fiquei esperando quase uma hora por eles... isso é q é saudade! kkkkkkkk XD

Bjão e "a presto"

{ Michele Matos } at: 30 de novembro de 2010 16:51 disse...

Ai ai ai, chorei. E que bom te ter de volta nesse Brasil, vem aqui me ver depois e contar tudo!
Eu dou aula de locução no sesc, é divertidooo! =)

{ Finito Carneiro } at: 1 de dezembro de 2010 12:59 disse...

Legal, legal... Foi bonito...

{ Eduardo Machado Santinon } at: 6 de dezembro de 2010 15:54 disse...

E as minhas deram uma folguinha quando você chegou.

 

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