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Minha breve vida de ciclista

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Esses dias acordei cedo num domingo e me peguei, distraidamente, assistindo a uma competição de ciclismo na televisão. Não posso negar que nas últimas voltas da corrida parei de bocejar e passei a achar o negócio emocionante, porque quem estava lá atrás de repente estava liderando, e quem tinha vantagem por todo o percurso de repente comia poeira e eu me vi torcendo, tensa, nos momentos finais.
Reparei nas pernas dos ciclistas e de repente me ocorreu que a bicicleta seria a única solução para, enfim, eu ter pernas iguais às da Ivete Sangalo. Recuperei mentalmente imagens da minha infância andando sobre duas rodas e acabei lembrando que eu adorava andar de bicicleta. Minha mãe costumava dizer que eu passava mais tempo pedalando que andando com as próprias pernas.
Claro que essas lembranças me trouxeram também o episódio que me fez para sempre me afastar do guidão.
A bicicleta, minha fiel escudeira, era uma Cecita Pink, daquelas de meninininha, com direito à garupa e cestinha. Eu andava com ela por todo o canto, passava a manhã e às vezes o fim de tarde e início da noite pedalando, ostentando um adorável desejo de liberdade. Ela veio com rodinhas e eu, heroicamente, consegui me equilibrar a ponto de não precisar mais delas. Uma companheira leal, que compartilhou inúmeros momentos felizes.
Em um Natal minha mãe teve a infeliz ideia de me dar uma bicicleta nova. Na manhã do dia 25, encontrei o pacotão contendo: tchanan! Uma bicicleta 18 marchas, daquelas masculinas, cor vermelha. Fiz cara de quem gostei e até tentei me animar, mas desde o começo soube que não ia dar certo. Eu implicava com o tal do pau que ficava no meio das pernas, não via graça nas marchas, achava a bicicleta desengonçada, morria de medo de me estatelar no chão.
Quando minha mãe notou que eu repudiava seu presente, entrou em cena a fúria nordestina. “Ahhhh, MAS VOCÊ VAI andar nessa bicicleta, AH SE VAI!”. Mas mesmo sua determinação feroz não foi capaz de me fazer me equilibrar sobre aquelas massacrantes duas rodas. Além do mais, minha mãe precisava cuidar da casa, da loja, atender telefone, e o espaço reservado para o aprendizado era a garagem do nosso prédio, três andares abaixo do nosso apartamento. Importante frisar que paciência nunca foi o forte da minha mãe.
Como sempre, meu irmão foi incumbido da tarefa. E, marrento como sempre foi, já começou sua nova ocupação puto. Se eu ameaçava me desequilibrar, ele berrava: “Tatiana, é só pedalar, como você não consegue? Pedal, freio, Tatiana. Não tem o que ensinar, é só pedalar”. Ele, indignado com minha falta de técnica, eu, tensa por não conseguir me equilibrar naquele monstro. Mais fácil seria caminhar na corda bamba, eu pensava. Minha mãe às vezes descia as escadas para conferir a evolução e voltava, desolada.
No segundo dia, sem chances de desistir, sob ameaças de morte da minha mãe dizendo que eu só voltaria somente após andar garbosa sobre o banco e pedais, voltamos à tortura na garagem. Nem notei que havia um senhor, um ser jurássico, pintando calmamente o muro da garagem sentado em um banquinho baixo. Os movimentos dele eram tão pacientes quanto do Daniel San, o que impressionava, porque a garagem era realmente grande. Ele demoraria bastante para concluir o serviço.
O ancião não atrapalhava minha “aula” porque a garagem era larga, passava dois carros paralelamente e ainda sobrava espaço. De modo que não havia justificativa para acontecer o que houve em seguida.
Não sei, juro que não sei, por que cargas d’água acabei saindo da linha reta na qual pedalava vagarosamente e avancei para o local onde estava sentado o velhinho. Meu irmão não teve tempo nem de gritar. Quando viu, já estava formada a cena, mais trágica que pitoresca, diga-se.
Não foi um atropelamento. Eu simplesmente pedalei até parar ao lado do senhorzinho grisalho e calmamente caí com a bicicleta sobre ele. Meu irmão bateu a mão na testa, prevendo o desastre. Uma criança obesa, uma bicicleta 18 marchas, caindo em cheio em cima de um idoso? “Morreu o véio”, na certa pensou.
Ele ajudou o pintor senil a se levantar, pediu mil desculpas e me dirigiu o olhar fuzilante. “Sobe”. “Não vai me ajudar com a bicicleta?” “Não”.
Claro que minha mãe fez um escândalo, mas me vi livre e aliviada por não ter que me entregar ao desafio tortuoso de me equilibrar naquela bicicleta demoníaca. Não lembro, após esse dia, ter subido outra vez em uma.
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Histórias dos pequenos

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- Ei, você tem filha?
Parecia ter uns 6 anos de tão mirrada, mas tinha 8, descobri depois. Era morena de praia, magrinha, com biquini rosa da Moranguinho. No meio das ondas ela ainda esperava minha resposta.
Apontei para minha barriga e perguntei:
- Por quê? Parece?
Ela balançou a cabeça afirmativamente.
- Você acabou com minha autoestima agora – respondi.
Ela riu, mesmo sem saber o que era autoestima. Mergulhou numa onda e perguntou de novo:
- Você tem mãe?
- Claro, todo mundo tem.
- Eu não – ela falou, sem tristeza na voz.
Não respondi. Enfiaria minha vergonha no bolso, se tivesse um.
Ela pegou na minha mão e decretou que a gente mergulharia em todas as ondas, depois que jogou água em mim porque eu relutava em me molhar.
Perguntou meu nome, disse que o dela era o mesmo. Mentira, o primo dela, Arian, um pouco mais velho, me contou mais tarde que ela se chamava Ana Alicia.
Ana Alicia era espevitada. Não cansava nunca. Não largou da minha mão um segundo e me perguntou tanto que soube mais da minha vida do que muita gente que vive comigo.
Depois de um tempo eu disse a ela que precisava ir. Era meu último dia de praia. Ela me acompanhou até meu lugar na areia, sorriu e disse tchau. Ana Alicia sem mãe e eu sem filha. Queria ter dito que, se eu tivesse uma pequena, queria que fosse tão esperta quanto ela.

**

Não sei se em todas as praias é assim, mas no litoral catarinense, quando uma criança se perde da família, todo mundo na praia bate palmas para chamar a atenção. Seja quem achou a criança como quem está perto dos pais. Eu estava próximo da mãe quando ouvi o som compassado.
Ela, desesperada, batia as mãos incansavelmente e gritava o tanto que seus pulmões permitiam.
- Thiago! Thiago!
Eu caminhava na beira da praia com minha irmã e a mulher, andando rápido, estava no mesmo ritmo que a gente. Como eu e Verônica chegaríamos ao outro lado da praia, perguntei à mulher como o menino estava, porque, se o encontrasse, iria reconhecê-lo.
- Ele está com uma sunga preta do Homem-Aranha. E tem 7 anos. Ele estava com frio, não deve estar na água.
O desespero dela me angustiava. Comecei a olhar por todos os cantos e quase ia gritar junto: Thiago!, quando o pequeno apareceu. Assustado, puxado pela mão por dois adultos, na certa conhecidos da mãe. Quando ela o avistou, saiu correndo na nossa frente. Abraçou o filhote com força e quando se virou eu pude ver suas lágrimas. Ainda com ele no colo, passou pela gente e disse baixinho:
- Obrigada.
Embaixo dos óculos escuros, eu chorei.

**

Tinha um painel gigante, cheio de cartas. Peguei a primeira:
“Oi, Papai Noel, meu nome é Wesley, tenho 9 anos e queria um skate”.
Devolvi. Não sei por que, mas senti que não era aquela. Aí encontrei:
“Papai Noel, meu nome é Francisco, tenho 10 anos, passei para a 5ª série e gostaria de pedir material escolar. Tenho mais duas irmãs na escola e minha mãe é empregada doméstica. Ela tem que pagar água, luz, aluguel e não pode comprar para nós. Por favor, Papai Noel, eu preciso muito de material. Se não puder me trazer, agradeço por tudo que já me deu. Um abraço, Francisco.”
Com essa cartinha, o pequeno Chico me ganhou. Não tinha ideia do que uma criança precisava na 5ª série. Há muito tempo não comprava material escolar. Mas a menina da papelaria sabia. Trouxe várias caixas para a gente escolher. “Se eu fosse um menino de 10 anos, ia gostar de qual tesoura? E de qual borracha?” Acabei me rendendo aos carros, menino que é menino gosta de carros. Compramos tudo. Antes de sair da loja, pacotão em punho, lembrei da mochila. Chico precisaria de uma mochila. Compramos uma preta, grande. Faltava, então, só mais um presente. Um livro. O escolhido foi o Mágico de Oz. Abri a primeira página e escrevi:
“Francisco, que este livro lhe incentive sempre a acreditar nos seus sonhos. Feliz Natal! Um abraço, Papai Noel”.

**

Dois dias depois, fui acompanhar Sebastião, o Papai Noel dos Correios, e o carteiro Jeannilton na entrega dos presentes para as crianças atendidas. Não achei o presente do Chico, já havia sido entregue, segundo previram os dois. Fomos a três bairros, cinco casas. Lugares distantes, pouca estrutura, casas que pareciam barracos prestes a desmoronar, ruas de lama, sem acesso. Entregamos móveis de uma casinha de brinquedo para Helaine, uma bicicleta nova para o Deivid, outra para a Juliana e três bonecas para três irmãs. Graças a alguém, elas ganharam presentes de Natal, confessou-me a mãe. Mas o que mais me emocionou foi Felipe, que pediu um violão. Podia ser usado, disse na carta. Ganhou um novo, embaladinho. Quando recebeu nas mãos, Felipe, pequeno, chorou. Chorava e esfregava os olhos, dizendo que a mãe disse a ele desistir de um violão, ninguém ia dar. O irmão pediu um sapato e havia ganhado um dia antes. “Mas eu sabia que Papai Noel ia me dar”.
- Como pode - disse Sebastião para mim, enquanto voltávamos ao carro - uma mãe desestimular o filho desse jeito? Se nós, adultos, vivemos de sonhos, imagina as crianças?
O Papai Noel decidiu voltar. Iria falar com aquela mãe.
Ela não estava, o pai atendeu. Sebastião disse a ele incentivar o garoto na música. Felipe, ainda com lágrimas nos olhos, abraçava o pai, que, também emocionado, apertava o filho orgulhoso e dizia. “Ele já toca, e vai muito bem!”.
Eu, tomando nota de tudo, aprendi o quanto eu mesma, pequena, também vivo de sonhos.

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