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Mostrando postagens de Abril, 2010

O Muro Azul

Pegar no sono foi uma das coisas mais temíveis de uma determinada época da minha infância. Eu ouvia o silêncio da casa, e ficava intacta, debaixo das cobertas, torcendo para que o dia raiasse. Meu quarto, pequeno e lotado de bonecas e quinquilharias, dava margem aos meus medos, pois era comum as bonecas me olharem com olhares maquiavélicos e ursos se transformarem em criaturas assassinas.
Minha mãe dizia que tudo era besteira e me recomendava rezar antes de dormir. “Senhor, queria agradecer pelo meu dia e que eu consiga dormir hoje, amém”. Nunca adiantava. Era só terminar o cochicho que o silêncio se apossava e qualquer ruído se transformava em pretextos para se fechar os olhos com força, tapar os ouvidos. Foi aí que aprendi a técnica do Muro Azul.
Imaginava um muro azul, bem azul, sem fim. Olhava para todos os lados e não conseguia enxergar onde terminava o muro. Mas ele estava ali, na minha frente, bem azul. E eu não sei por que cargas d’água olhar para o muro me deixava em paz. Talv…

Provocação

Se é esta a época da história em que mais se prega o respeito às diferenças, a importância de se acabar com preconceitos contra as minorias, engraçado como muitos dos “cabeças abertas” ainda se mostram mordazes diante de alguém que tenha qualquer tipo de crença.
Vivemos um período em que todos devem ser tratados como iguais, independentemente. Por isso, aplaudimos a iniciativa de se acabar com qualquer intolerância. Incentiva-se a ação de organizações, políticas públicas, líderes quando estes pretendem promover a igualdade, a inclusão. Achamos bonito ter uma vasta gama de gente ao nosso redor, com gostos, preferências sexuais, raças e posições políticas diferentes. Julgar alguém que escreve ou fala diferente da norma considerada certa hoje é chamado de preconceito linguístico.
Parece estranho então, um grupo ficar marginalizado. Em uma época que o ateísmo ou agnosticismo é tido como a verdade absoluta, aqueles que levantam as mãos para o céu, que praticam sua religião de qualquer forma …

Múltipla

Ainda não sei se sou a Rebeca, a Amaranta ou a Renata Remedios, do Gabo. Porque não sei definir se sou aquela que arrasta ossos, que costura uma mortalha ou a que se apaixona por borboletas amarelas.

Fico me perguntando se eu sou a Maria ou a Gabriela, do Tom Jobim (a Garota de Ipanema tenho a certeza que não). Porque, como a primeira, eu preciso partir, eu preciso deixar. E da mesma forma que a segunda me perdem por aí.

Também não sei se sou a Rosa, a Rita ou a Morena de Angola, do Chico. Porque posso arrasar projetos de vida (incluindo o meu), posso causar perdas e danos. Mas o que mais me intriga é não saber se mexo o chocalho ou se é ele que mexe comigo.