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Capítulo

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Um sábado à noite sozinha faz a gente pensar em muita coisa. Ao som de Janis Joplin, os pensamentos voam e a gente quase se teletransporta. Quando canso do passeio, desligo o som, ligo a televisão e só escuto o final da novela. Nunca assisto, mas incrivelmente sei tudo que está havendo. Tudo faz sentido.
Lembrei de quando eu assistia a novelas e da sensação que me dava quando eu ouvia a música da abertura ao final do último capítulo. Era uma coisa estranha, de algo sendo visto e ouvido pela última vez. Tanta coisa passou até todo mundo casar, ter filho, até todo mundo (com exceção de um ou outro vilão), quase em uníssono, decretar: esse é o dia mais feliz da minha vida. Pronto, a felicidade aportou.
Lembrei também de um churrasco ao qual fui, onde um dos convidados tocava violão e uma menina arriscou cantar Janis. Primeiro timidamente, depois com a força toda dos seus pulmões. Gostei de ouvi-la. Nunca mais voltei àquele lugar e talvez jamais volte. Mas ficou a sensação.
Talvez, a vida seja isso. Sensações, lembranças de sensações e a devida importância que damos a elas. A sensação atual é de um limbo, um vazio, algo estranhamente situado entre um lugar onde se esteve e outro, aonde se vai chegar. Talvez, eu nunca aprenda a enxergar a beleza de um estado de transição. Falta algum sentido, sempre falta. E o que mais incomoda é não ver o sentido de se estar aqui, ainda, e de não estar lá, ainda.
Talvez, o ainda seja só uma forma de ver as coisas. Talvez, eu ainda não tenha encontrado a beleza no trajeto.

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Carta para as amigas

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Faz tempo que tenho vontade de lhes escrever uma carta. Não um bilhete, como os da escola, que nos divertiam num fôlego na aula. Não um e-mail, aqueles que se escrevem e se leem com pressa. Mas uma carta, uma carta recheada e reveladora, como as da nossa adolescência.
Cartas que outros mais de perto não entendiam o sentido, uma vez que morávamos na mesma cidade e, muitas vezes, postávamos os escritos pelo correio, com selo no valor de um centavo. Para escrever, não era preciso muito. Umas três canetas coloridas, uns adesivos de um caderno 10 matérias, algumas divagações. Cada carta era a certeza de estar compartilhando uma certeza.
Há muito venho querendo escrever-lhes uma carta, mas sempre me atrapalho na organização dos dados. Sempre há uma novidade que motiva a partilha, mas com ela vem um punhado de outras lembranças, de outros fatos que, sozinhos, não justificam uma carta, mas reunidos dariam um romance.
Mas o que mais me impede de escrever uma carta é a incerteza. A incerteza do próximo passo, incerteza do que se sabe e do que se quer. De não saber se o que se tem é o que se quer e, se não é, se a gente tem pelo menos certeza do que se quer. Ou do que se sabe. Na carta tem que haver uma certeza, pelo menos uma. Senão não há carta.
Do contrário, a carta trará apenas a nostalgia de um tempo vestido de uniforme, ou de um tempo calçado com tênis. Ou então a carta vai vomitar as agruras do emprego de agora e a falta de coragem em admitir que sou (ou somos) diferente do que sonhamos para esta época. Os amores que passaram, os que estão nos amando. Eu nem sei mais quem venceu a aposta, afinal, alguém casou ou não?
Eu temo em não saber como estão as amigas, aquelas minhas amigas de quem eu sabia tudo, aquelas cuja roupa para a festinha eu dava palpites. Eu tenho medo de não saber mais de quem eu sabia tanto. Receio em nos encontrarmos como estranhas, dividindo o mesmo sorriso amarelo e a constatação de que amizade que não perdura não é amizade.
Hoje eu quis lhes escrever. Não uma carta, mas um projeto de. Para dizer apenas que revirei papéis, gavetas e me revirei inteira para achar uma certeza. Uma certeza para justificar o escrito.

A única certeza, amigas, é que nessa vida de agora a gente não tem certeza de nada. Que se a gente quando pequena teve certeza alguma, a vida de agora veio para deixar a gente sem certeza qualquer.
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