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Encaixotando a vida

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A sensação não deixa de ser estranha. Em pouco tempo, você vê tudo o que você tem se transformar em pilhas, em caixas, sacolas amontoadas pelos cantos. A intenção era organizar, mas o que sinto é justamente o contrário. Ao revirar papéis, fotos, escritos de uma vida que já foi e que insisto em guardar comigo, sinto-me como que espalhada pela casa, por cada cantinho dela.

A casa não é mais minha. Sou apenas uma hóspede que divide lugar com nostalgias que flutuam pelo ar, com a ausência de tudo que já vivi. Sobra pouco espaço para a expectativa do que ainda está por se descortinar. Junto com as caixas e sacos devidamente organizados, estou eu, como que fragmentada. Estou dividida, porque em cada coisa carregada está um pedaço meu, uma lembrança.

Arrumar a mudança mexeu comigo. Uma porque o que eu nutria pela cidade era um sentimento de derrota. Era como se tivesse perdido para o lugar, uma vez que não havia conseguido ser dele. Talvez, nunca tenha me esforçado o suficiente. Mas o contato com as lembranças me fez voltar de novo o olhar para a cidade. Sim, ela me acolheu. E aqui eu pude ser feliz.

Os pedaços felizes não se sobrepõem aos tristes, nem o contrário. Sou o que sou porque nesses sete anos se mesclou todo tipo de experiência. E os sete se juntaram aos outros dezessete. Sou o que resultou disso e volto com a consciência tranquila. Ainda bem que a mudança me fez entender isso. A casa vazia, a vida encaixotada, tudo segue. Roupas foram doadas, papéis foram descartados, mimos continuarão guardados, mas em outros porões. Esvaziei a mente de lembranças porque elas estavam me atordoando.

Agora eu voltarei às ruas, calçadas, praças da cidade com os olhos de quem por aqui já viveu, mas agora precisa ir. Não é carinho o que sinto. Talvez nem agradecimento. Saudade sim, de quem deixei. Mas o que salta a tudo isso é essa coisa que me instiga, essa coisa que cutuca. Essa coisa de estrangeira.

Desse céu eu sempre vou sentir saudade



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Sangre

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É pela dor e pela falta. Sei muito sangrar quando as coisas não vão bem. Pode ser difícil as lágrimas rolarem, mas elas vêm, ah vêm. O atraso me incomoda, me incomoda ainda mais a impotência. Eu passei dias sem entender a irracionalidade humana. Sem entender porque as pessoas precisam machucar o outro para se redimir. Eu me senti fraca para cumprir as obrigações, porque cumprir obrigações é o que há de mais chato nessa vida. Eu precisava sangrar, de raiva, de falta de coragem. Tudo explodiu hoje, com a ressaca desse dia cinza, um dia de folga, de festa, dia de euforia, de encontro. Para mim o dia virou dia útil, dia de trabalho, de se sentir sozinha, pequena, esquecida, raivosa. Dia de sangrar. Eu ainda planejo como encontrar quem me deixou sem resposta, mas acho que quando esse dia vier, ficarei quieta. Setenta vezes sete. Engoli a dor, a incompreensão, mas preciso de ajuda. Até para sangrar eu preciso de ajuda. Não sou nada independente. Preciso que alguém me explique que machucados estancam, eles não sangram para sempre. Depois vêm outros machucados, e outros curativos, intermitentes, cíclicos. O mundo inteiro evita sangrar. Eu evito coagular. Acho sangrar mais digno. Apenas você pode sangrar a sua dor, ao invés de depositar nos outros a sua solidão, a sua indignação e revolta, a sua falta. Mas até para sangrar eu preciso de ajuda...


El miedo es una mierda
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Rumo ao total

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Eu não vou me eximir. Já contei inúmeras histórias únicas. Já me deixei levar por visões unilaterais, já deixei que uma raça, origem, status classificassem uma pessoa, muito antes dela própria. Enganei-me, na maioria das vezes. Aprendi, em todas elas.
Chimamanda fala da imagem construída de povos, mas a gente pode ampliar o reino de histórias únicas para muitos outros campos. Eu, por exemplo, quando pequena, consumia contos de fadas em que o único final feliz era o casamento. E para conquistá-lo, a mulher deveria ser uma bela e doce princesa. Agradeço por alguns outros livros terem cruzado meu caminho, pessoas me alcançado e que novas percepções tenham me sido mostradas. Não me considero isenta de construir e crer em histórias únicas, mas uma pequena porção de algumas particularidades já se descortinou ante meus olhos.
Hoje mesmo (um dia depois de eu assistir ao vídeo), um colega de trabalho comentou que o gol da seleção sul-africana seria reproduzido no país pelos próximos quatro anos. E acrescentou: “na única televisão que eles tem lá”. Perguntei se ele gostaria que pensassem o mesmo do Brasil. No que ele retrucou: “Ora, mas eles vivem em um país de terceiro mundo!” “E você não?”.
O interessante no relato de Chimamanda é que ela não cai na armadilha de contar apenas as histórias únicas que contaram sobre ela. Ela fala ainda das próprias histórias únicas que construiu. Mas fala também que, em tempo, descobriu o paraíso.


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