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Mostrando postagens de Junho, 2010

Encaixotando a vida

A sensação não deixa de ser estranha. Em pouco tempo, você vê tudo o que você tem se transformar em pilhas, em caixas, sacolas amontoadas pelos cantos. A intenção era organizar, mas o que sinto é justamente o contrário. Ao revirar papéis, fotos, escritos de uma vida que já foi e que insisto em guardar comigo, sinto-me como que espalhada pela casa, por cada cantinho dela. A casa não é mais minha. Sou apenas uma hóspede que divide lugar com nostalgias que flutuam pelo ar, com a ausência de tudo que já vivi. Sobra pouco espaço para a expectativa do que ainda está por se descortinar. Junto com as caixas e sacos devidamente organizados, estou eu, como que fragmentada. Estou dividida, porque em cada coisa carregada está um pedaço meu, uma lembrança. Arrumar a mudança mexeu comigo. Uma porque o que eu nutria pela cidade era um sentimento de derrota. Era como se tivesse perdido para o lugar, uma vez que não havia conseguido ser dele. Talvez, nunca tenha me esforçado o suficiente. Mas o cont…

Sangre

É pela dor e pela falta. Sei muito sangrar quando as coisas não vão bem. Pode ser difícil as lágrimas rolarem, mas elas vêm, ah vêm. O atraso me incomoda, me incomoda ainda mais a impotência. Eu passei dias sem entender a irracionalidade humana. Sem entender porque as pessoas precisam machucar o outro para se redimir. Eu me senti fraca para cumprir as obrigações, porque cumprir obrigações é o que há de mais chato nessa vida. Eu precisava sangrar, de raiva, de falta de coragem. Tudo explodiu hoje, com a ressaca desse dia cinza, um dia de folga, de festa, dia de euforia, de encontro. Para mim o dia virou dia útil, dia de trabalho, de se sentir sozinha, pequena, esquecida, raivosa. Dia de sangrar. Eu ainda planejo como encontrar quem me deixou sem resposta, mas acho que quando esse dia vier, ficarei quieta. Setenta vezes sete. Engoli a dor, a incompreensão, mas preciso de ajuda. Até para sangrar eu preciso de ajuda. Não sou nada independente. Preciso que alguém me explique que machucados…

Rumo ao total

Eu não vou me eximir. Já contei inúmeras histórias únicas. Já me deixei levar por visões unilaterais, já deixei que uma raça, origem, status classificassem uma pessoa, muito antes dela própria. Enganei-me, na maioria das vezes. Aprendi, em todas elas.
Chimamanda fala da imagem construída de povos, mas a gente pode ampliar o reino de histórias únicas para muitos outros campos. Eu, por exemplo, quando pequena, consumia contos de fadas em que o único final feliz era o casamento. E para conquistá-lo, a mulher deveria ser uma bela e doce princesa. Agradeço por alguns outros livros terem cruzado meu caminho, pessoas me alcançado e que novas percepções tenham me sido mostradas. Não me considero isenta de construir e crer em histórias únicas, mas uma pequena porção de algumas particularidades já se descortinou ante meus olhos.
Hoje mesmo (um dia depois de eu assistir ao vídeo), um colega de trabalho comentou que o gol da seleção sul-africana seria reproduzido no país pelos próximos quatro anos.…