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Sob o azul

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Cenário: um campo cheio de olivas de um lado, casas bonitas e bem cuidadas do outro.

Horário: final de uma tarde esplendorosamente azul.

Personagens: eu e o bebê, mas o bebê dormia.

Ato: conduzir o carrinho por uma rua estreita, a última da vila.

Trilha sonora: o som do carrinho no asfalto.

O espetáculo: o sol quase se pondo a Oeste e, ao girar a cabeça perpendicularmente a Leste, encontrar a lua crescente que despontava, tímida, quase transparente no azul. No meio dos dois astros, rastro de nuvens em um céu, repito, esplendoroso. E embaixo eu, movendo a cabeça lentamente de um lado a outro.

Conclusão: um dos meus raros momentos de paz. Uma injeção de ânimo. E saber que não estou sozinha enquanto tenho meus olhos, meus cúmplices.
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Na garganta

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Foi quando eu tinha uns 12 anos. Estava visitando meus tios no Rio de Janeiro e voltava da casa de um deles perto do meio-dia. Prestes a entrar no prédio da minha outra tia, onde passava a maior parte do tempo, aconteceu. Uma força estranha e invisível me arremessou para trás. Senti uma dor na garganta e quando passei a mão constatei: sangue.
Descobri minutos mais tarde que não era uma força invisível e sim uma linha esticada onde garotos tinham lambuzado de cerol. A mistura de cola e vidro moído me cortou a garganta, mas foi de levinho. Claro que fiquei assustada, mas o que mais me deixou espantada foi a voracidade com que minha tia, quando descobriu, avançou sobre a linha e esbravejou contra os moleques. Ela destruiu todo o trabalho.
Tenho a cicatriz até hoje. Para mostrar àqueles que duvidam quando eu conto a história, mais uma “das que aconteceram comigo”. Anos mais tarde, a garganta quase me matou de novo. Tive uma hemorragia séria depois de uma cirurgia e achei que daquela vez ia mesmo.
Uma amiga, estudiosa dos mistérios do corpo e curas naturais para seus males, vive me alertando que as constantes dores de garganta querem me dizer algo. Certa vez ela citou algo como “coisas que eu não me permito exprimir e, não sendo despejadas para fora, ficam abafadas na garganta”. Concordo.
Seria exagero dizer que habita duas dentro de mim e ainda mais clichê afirmar que todos nós temos duas faces opostas coexistindo no mesmo ser. Mas isso exprime bem o que quero dizer. Porque embora na maior parte do tempo a Tatiana boazinha toma as rédeas do espetáculo, também existe a Tatiana má, que espera na coxia a sua hora de entrar em cena. E na maior parte das vezes, a boa não deixa.
A Tatiana boa é doce e quase serva. Insegura, acha que tem que se doar por completo, e além do completo, porque não é boa o suficiente. Deixa-se levar, sofre abusos de autoridade, perde seu tempo com os outros e no final ainda se conforma com a vida, que, ora, é assim mesmo. Enquanto isso a Tatiana outra grita, urra. Não gosta da outra, mas depende dela, por isso lhe faz advertências, mil súplicas... De nada adianta.
Talvez minha amiga tenha feito o diagnóstico mais preciso de sua vida. Há três ou quatro dias eu ando com uma gripe/resfriado meio estranha. Parece que nunca tive isso antes. Sinto o pulmão cheio e quase obstruído de (desculpe aqueles que têm nojinho) catarro e nem a tosse mais tuberculosa o tira de lá. A garganta arranha, dói, lateja. Tenho me armado de receitas caseiras, mas não passa.
Desconfio que é a Tatiana má mandando seu sinal. Ela nunca quis falar tanto quanto antes. Precisa de atenção, precisa de luz focando seus trejeitos e descobertas. Necessita, ainda mais, que os expectadores falem português. Ela não consegue.
Temo que ela nunca estará satisfeita. Porque mais difícil que expurgar esse catarro do pulmão, é ainda pior extirpar o outro, o da alma.
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Prece

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Quando eu peço a Ele “livrai-nos do mal”, na oração que gosto de rezar, está incluído no pedido que afaste de mim pessoas que não são do bem. Aquelas que carregam maldade em seu peito, aquelas invejosas, aquelas que não sabem amar. Pessoas doentes, pessoas que fogem, pessoas que imaginam que neste mundo ter a si mesmo é o que basta, que se vendem por pouco, que se deixam dominar por um orgulho cego, que se arrastam pela vida guiadas por sentimentos malévolos. Desse tipo de gente, Deus, eu quero mesmo é distância.
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