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Envelheço na cidade (eterna)

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Acho que consigo me lembrar de todos os aniversários que tive, desde os da mais tenra idade, graças às fotos das festas idealizadas pela minha mãe. Do 1º ao 8º ano foram superproduções, com vestidos-bolos, bolos-castelos, decorações dignas de carros alegóricos e um minucioso registro fotográfico. A partir do 9º aniversário minha irmã nasceu e virei gata borralheira.
Mesmo assim nenhum aniversário passou em branco. Sempre tive bolos para cortar, velas para apagar e amigos para receber. Virou uma espécie de ritual não deixar o aniversário ser uma data qualquer. Acho engraçado quando alguém diz que não gosta do seu aniversário. Eu adoro os meus, são como a demarcação, com outra pedra fundamental, de uma fase que começa e, principalmente, do inferno astral que termina. Eu festejo a cada ano meu nascimento, teria por que não festejar?
Este ano envelheci sozinha. Demarquei a chegada dos 25 anos em Roma, a cidade eterna, que não acaba de ter coisas para mostrar. Quando se acredita que toda a história já foi desvendada, alguém escava e descobre mais um monumento. Tem outra cidade lá embaixo. Mas em Roma, senti pela primeira vez o peso de uma história. Não só da minha, mas a história dos lugares que visitei. Imaginei tudo que se desenvolveu ali, há um punhado de séculos, naquele espaço que eu estava serpenteando como turista. Eu estive no lugar onde se acredita que foi assassinado o homem que disse a frase que tenho tatuada nas costas. Até hoje as pessoas depositam flores em homenagem a um morto milenar. Olhar para as rochas que resistem ao tempo dessa forma produz a estranha sensação de se ouvir as vozes dos antigos romanos. Um pouco assustador.
No meu último aniversário, pedi que dali um ano eu não estivesse no mesmo lugar. Deu certo. Estou onde sempre quis estar e onde jamais imaginei estar. Contraditoriamente, pela primeira vez envelhecer me entristeceu. Foi só dar meia-noite que chorei sozinha sentindo o peso das coisas, das costas, dos custos. Do quanto custa saber. Quem se é, aonde se quer chegar e se a gente está disposto a morrer um pouquinho para conseguir. Sonho e sangue, como diria o Belchior. Falta só voltar à América do Sul.

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