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De todos, Marcelo

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Ele só tem um olho, o outro foi perdido. O braço direito está por um fio, a boca, quando aberta, deixa aparecer a marca de uma canetinha vermelha. Um dos braços tem uma espécie de plástico por dentro, o outro não – motivo de um mistério insondável, descoberto só muitos anos mais tarde. Ao fundo da boca, uma peça dura, que também sempre fez parte do mistério.
Assim descrevo o meu brinquedo de infância predileto, que me foi dado no meu aniversário de um ano. Mas foi só com uns cinco que o batizei. O cachorrinho de pelúcia passou a ser Marcelo, nome do vizinho da nossa sorveteria, com quem eu brincava todo dia.
Nunca mais ouvi falar do Marcelo, o garoto, que hoje deve ter bem uns 30 anos. O cachorrinho continua lá, na minha ex-cama, posto de destaque frente às dezenas de brinquedos que povoam as prateleiras. Marcelo é bem menos conservado que as bonecas, as barbies, todas bem penteadas e sem um pingo de pó, fruto do trabalho minucioso da minha mãe, que não deixa por nada a gente doar os brinquedos de infância.
Marcelo, entretanto, é o preferido. O único que eu carregaria comigo, se me mudasse para sempre (enquanto ainda mudo temporariamente ele continua lá, reinando sobre minha ex-cama).
Sempre o considerei único, diferente dos brinquedos que meu pai trazia para mim do Paraguai, dos quais sempre existiam outras cópias para serem vendidas na loja que tínhamos em casa. Qual não foi minha surpresa, porém, quando conheci um outro Marcelo, esse sim bem conservado. Uma companheira de apartamento trouxe o Marcelo dela, com os dois olhos intactos, um lacinho vermelho no pescoço e (choquei) um mecanismo pelo qual ao apertar a mão esquerda, ele abria a boca. Desfeito o mistério, o Marcelo original era cheio de artimanhas.
Mas não olhei para o Marcelo da companheira de apartamento com nem um pingo de inveja. Foi por ter brincado com meu cachorrinho de pelúcia preferido até dizer chega, foi por ter arrastado ele pelo chão encardindo todos seus pelos brancos, obrigando minha mãe a lavá-lo na máquina de lavar, que hoje ele é o que é para mim. E eu sou o que sou. Uma menina de 25 anos que arrasta um cachorrinho de pelúcia entre suas lembranças.



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