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Mostrando postagens de 2011

Católica apostólica romana

Sim, eu tenho fé e às vezes me cansa um pouco ter que justificá-la. Eu tenho uma crença em um Deus onipotente e onipresente, em um Jesus de amor e em uma Nossa Senhora que me dá forças quando eu preciso. Eu não me considero burra ou alienada, é minha escolha e sou feliz com ela. Eu rezo o terço quando lembro, eu professo a oração do Santo Anjo quando sinto medo, eu confesso que rezo bem mais quando eu preciso do que quando as coisas estão bem. Eu agradeço o que eu tenho, eu peço saúde a minha família. Eu mal fui à missa este ano e acho que me fez falta, muita falta.


Eu não quero que você tenha a mesma fé, eu não posso nem quero decidir por você. Eu te amo do jeito que você é, com suas escolhas. Independente delas vou continuar rindo das suas piadas, vou continuar te ouvindo, vou continuar te respeitando. E nesse você eu incluo qualquer pessoa que se espanta com a fé que eu carrego. Esse você eu respeito, só peço o mesmo respeito de volta. Não quero mudar sua visão, mas também não que…

Proposital

Coisa que cutuca Caótica, calada, crua Coisa que cavuca Confusa, cansada, gatuna Coisa que gasta Gritada, gorfada, grossa
Coisa que combina Goethe, Camus, Kant Coisa que encarna Corroída, regredida, carcomida
Coisa que engole Come, cala, cansa Coisa que encrespa Crava, pinica, crema Coisa que me completa Coça, cutuca, cobra
Gosto da coisa
Do incômodo, do grave e do corte Gosto da coisa que grita o desgosto Gosto da coisa que clama meu grito Gosto da coisa
Do escuro, do cuspe e do gozo

Sobre o amor

Nunca fui muito ligada ao futebol. Perguntaram-me por que esses dias, na aula de inglês. Não soube responder. Nem em português eu sei responder. Caio sempre naquela que meu pai nunca foi fã de bola, nunca torceu com afinco, e eu não herdei isso. Mas, sem importar os motivos, posso não gostar de futebol, mas respeito bastante quem gosta. Posso não entender de mata-mata, pontos da rodada, o que acontece se aquele time ganhar ou perder, mas eu entendo o amor de quem torce. E o meu amor, talvez por sofrer bastante por um time perdedor, diz sempre que não gosta só do Palmeiras. Gosta de bola. E eu acabei de entender o que ele quis dizer quando passei a mão no telefone para contar para ele a notícia que tinha acabado de ler. Depois do silêncio, ele disse: - Vou torcer para o Corinthians hoje. O Corinthians tem que vencer. Gostar de bola é reconhecer a importância de um grande craque, independente da camisa que ele vestiu. Gostar de bola é torcer pelo adversário numa final ao entender o que sign…
Cortei os cabelos, de um jeito que precisava. Cortei os cabelos para me libertar do escudo que armei em volta de mim, da defesa certa quando a vergonha e a insegurança me jogavam atrás das cortinas. Rasguei minhas cortinas para mostrar meu rosto, para mostrar quem eu quero ser, minha cara emoldurada, o susto que ainda levo ao ver aquela moça diferente de relance no espelho. As pessoas na rua me olham diferente e sinto-me como as centenas de paulistanos que não me conheciam e para quem eu continuo uma anônima. Sou essa imagem daqui para a frente. Libertei-me da aparência de menina, da aparência que me acompanha desde que me entendo por gente. Cortei os fios longos e hoje tenho as costas nuas, hoje meu “Alea jacta est” está à mostra. Hoje sou mais eu, ou pelo menos sou eu tentando descobrir quem sou. Fiquei mais jovem e mais moderna, dizem. Não sei. Fiquei mais feliz. Não me escondo. Não consigo me esconder dos meus fios curtos e bagunçados. Não sou mais Sansão, não preciso mais da forç…

Minha prece em favor dos incompreendidos

Estive pensando numa boa definição para insegurança. É quando sua autoestima é tão baixa, mas tão baixa, que você deixa os outros definirem o que você é, mais do que você mesmo. Aos inseguros não basta gritar bem alto quem são. Os outros gritam por eles, apontando o dedo em riste, cuspindo suas características mais vãs, justamente aquelas que não os definem bem.Porque ninguém é uma coisa só. Embora a capacidade humana seja mestre em generalizar, para ficar mais fácil digerir as cenas, são as pessoas que mais se orgulham de sua capacidade analítica as que mais cometem erros. Porque essas têm a péssima tendência de atirar em cheio seus diagnósticos, sendo seu melhor alvo os inseguros azarados em lhes dar ouvidos. E o pior de lhes cravar a irremediável marca do que são, os pseudoanalistas ainda despejam suas opiniões como se as características fossem imutáveis. E mais, a origem de todo e qualquer desconforto.Nada pior para os inseguros (pior ainda do que se perder o direito de se dizer q…

Advertência

Cada vez que você clica em notícias como: "Famoso tal aproveita o feriado na praia", "Fulana de tal flagrada aos beijos com Anônimo" e "Celebridade X leva o filho ao parquinho" você contribui para o tráfico da informação, a invasão de privacidade e a prostituição no jornalismo.

Sem caminhos

Moro bem perto de um aeroporto, mas nunca viajei por meio dele. Minha mais recente viagem e primeira inaugurando minha passagem por ali faz uns 15 dias. Na volta, fiquei com medo de ser enganada pelo taxista e liguei para minha companheira de apartamento para saber as indicações de como voltar para casa pelo caminho mais curto. "Pega a avenida tal, a rua tal, depois a rua tal..." Entrei no taxi, falei meu endereço e dei uma de malandra: - O senhor vai pela avenida tal? E depois pega aquela rua? - Não. Como assim, fiquei me perguntando, com aquele medo de ser enganada mas sem muitos argumentos. Ele perguntou que caminho era aquele que eu estava apontando, um absurdo, onde já se viu pegar tal avenida, onde você aprendeu esse caminho? Tive vergonha de dizer que pedi arrego. Contei que tinha feito o caminho com outro taxista. Então ele explodiu numa gargalhada. "É claro que ele te enganou". E riu mais. - Deu mil voltas com você, ou você mesmo pediu esse caminho a ele? Não, …

Eu te juro, Augusta

A Augusta, desgraçada, raptou-me a bolsaOs óculos de sol e os de enxergar bemA Augusta, pilantra, roubou meus cartões do bancoMinha identidade, meus remédios, meus florais
A Augusta, safada, carregou meu MP3Meu dinheiro, as chaves, os boletosA Augusta, cachorra, me fez trocar a fechaduraObrigou-me a prestar queixaFez da minha vida um caosJusto eu que a amava tanto
Não contente, a Augusta, calhorda, furtou meu celularE, insolente, fez uma ligação pro PeruA Augusta, covarde, gastou todo meu créditoA puta.
Ainda bem que Augusta me deixouUm amor e dois amigos profetasPra me consolar E emprestar o ombro, Um dinheiro e o celular.
Mesmo assim, Augusta, bandida, ainda me pagasPor não me deixar imune Por me incluir nas estatísticasPor todos os protocolosPor ser tão cheia de gente, tão confusaE tão cosmopolita.

Corpo

Quando a atropelaram, os carrosEm alta velocidade não pararamPedestres reviraram suas coisasForam-se uns trocados, o celularEm vão pediram-lhe números de corLigaram, mas ninguém atendeuOs pais moram longe, o namorado sem sinalAs amigas ignoram desconhecidosO corpo e o murmúrio ficaram estendidos No chão, os olhos quase se fecharam
Foi aí que ela pensou:Como é tristeMorrer na cidade grande

Pedido da Filha do Papai Noel

Pessoal, como muitos de vocês já sabem (e quem não sabe vai ficar sabendo agora hehe) meu pai é Papai Noel do Brasil (http://papainoeldobrasil.com.br/). Ele faz esse trabalho há 12 anos, com chegadas de helicóptero nas cidades do Sul do Brasil, além de resposta a todas as cartinhas enviadas para seu CEP próprio (89990-960 Sim, as cartas chegam todas em minha casa!). Já foram mais de 1 milhão de cartas respondidas, cerca de 150 mil por ano.
Depois de contar sobre sua paixão que inspira no TEDxPortoAlegre e de como seu trabalho transforma cidades no TEDxCuritiba, agora ele está concorrendo a uma vaga no TEDxESPM, que vai acontecer dia 29 de setembro aqui em São Paulo. Meu pai (Elio Lazzarotto) está concorrendo com outras 4 pessoas para palestrar nesse evento. Cada uma delas escreveu uma ideia que gostaria que fosse compartilhada. A do meu pai é pedir que as crianças enviem cartinhas contando o que os adultos podem fazer pra transformar a vida das crianças mais feliz! Depois ele vai faze…

menino

Corre o dia inteiro pra me ver e dorme. O chão capota sob seus pés, o sono o pisoteia e conversa com ele sonâmbulo. Descansa os pés sobre minhas pernas e reclama, reclama e boceja. A vida no hospital é difícil, mas dá bombons e adoça, é doce e amarga. Inventa desculpas para não dispensar mísero esforço e se atém à preguiça maldita, pálpebra maldita, preguiça. Passa 24 horas acordado com outros amigos que não vê há tempos e comigo, relaxa, relaxa e briga. Acha que minha carência é frescura e condena, condena e serpenteia pelas ruas com carrinho, malas e colchão. Meu grito sai tardio, sussurrado, arredio. Vem cá que eu te nino, vai.

Água

Da minha casa inundada nada lembro Sou de um lugar onde água é rio, lento Minha infância qualquer deságua, fatia A mãe me grita da beirada, desanuvia
O sol seca minha poça de lágrimas, eternizo Eu consolo a tempestade disforme, granizo Nunca me afoguei, nem soube nadar, covarde Sonhei com portos distantes e laranjas, é tarde
O suor das coisas, de todas as coisas, morde Minha sina é não ter de lutar tanto, sorte Mergulhei amores e temores em copos rasos, tardia Agarrei minha correnteza intempestiva, adia

Entrecortes

- Mãe, ele tem cama? - Ele quem? - Jesus - perguntou o moleque, subindo a rua Loefgren.
O ruim de morar em São Paulo é isso. Você anda tão rápido que nem consegue ouvir as respostas. Aí as conversas ficam assim, pela metade. Mas o pior de tudo é ficar desse jeito, no vácuo. Eu também queria saber, moleque.
Nunca fui boa com jogos. Jogos de tabuleiros, baralhos, pinos, controles. Fui sempre um zero a esquerda em tudo, excluindo aí o Alladin e o jogo da memória de quadros amarelos, por supuesto, os mais simples de se ganhar. Tive um período bom com cartas na mão. Poker e truco, embora muito se deva a pose e grito. Nunca fui boa com estratégias, jogadas ensaiadas. Sou de jogar o copas em cima de gato, impensadamente, no afã do momento. Sou de jogar muita besteira em cima de muita besteira, quando o caldo já entornou. Sou de chorar o caldo entornado, sabendo antes que ele pode se esparramar, sou de chorar meu caroço.Não sou boa com jogos porque talvez deteste admitir que perdi, embora o faça agora. Porque não sou mais a carta mais alta do baralho. Perdi porque faz tempo que não vem carta. Porque não consigo ganhar de virada. Perdi porque até admitindo que perdi eu perco. Perdi porque apostei e blefei. Pediram para mostrar as cartas. E eu ando sem nenhuma.

Um sonho de liberdade

Hermenegilda voltou. Não suporta ver estresse rangindo no peito, não suporta confusão rondando o espírito, não suporta explosão surtindo com efeito. Hermenegilda explodiu. Hermenegilda me surtou. A única pomada que serve para ela é branca. Hermenegilda me faz sentir uma surfista manca. Com uma mancha de pseudoprotetor solar, da largura de um dedo, num lado só da cara. Hermenegilda me faz ter saudade de esfregar o rosto com as mãos. Hermenegilda me fresqueia. Hermenegilda me faz tomar uns remédios terríveis, que me fazem sentir sede. Hermenegilda me faz sedenta por um atestado de 5 dias, para não me obrigar a encarar ninguém junto dela. Hermenegilda me irrita, Hermenegilda me pertence.

A trança

No trem, o celular tocou. O homem, com poucos fios na cabeça, todos já grisalhos, falava alto, bem alto. “Ô, pastor, pastor, quando posso pegar os livros?... Amanhã?... “Sem problema, sem problema.... Minha esposa pega. Deixa eu ver com ela que horas dá para passar aí”.No banco ao lado dele, ela, a esposa. Cara de índia, aquelas índias gordas e curandeiras, com duas tranças, finas, entrelaçadas desde o topo da cabeça. Cara de poucos amigos, cara de que sim, tinha problema. “Vou ao mercado com você, né?”, respondeu em tom de reprovação. A partir daí ele ficou naquela situação de tentar reverter o mau humor da pessoa que não quer fazer nada, sem poder matá-la, pelo contrário, com tom afável, ao mesmo em que segurava o pastor, homem obviamente muito ocupado, na linha. Minutos suados depois, uma solução. “Então nove horas ela bate palma aí na frente e pega tudo”. Ufa.Nesse momento me peguei pensando nesses casais de muito tempo e, principalmente, nesses casais de muito tempo com uma mulhe…

Brinde

Repara só. É só você aparecer empolgado com alguma notícia, como a mudança de casa que você tanto esperava, que aparece um punhado de gente com energia ruim. Fala mal do novo bairro, alerta sobre a violência, lamenta os preços (tão altos!) ou vem contando uma história de uma tia de uma cunhada de uma vizinha que perdeu toda a mudança por conta de uma transportadora fantasma.Ando cada vez mais convencida que felicidade incomoda. Não precisa ser um plano concreto, basta você mencionar uma ideia mirabolante ou até mesmo uma banalidade divertida que acabou de passar pela sua cabeça que os agouradores de plantão ativam o mecanismo que despeja instantaneamente a água fria, anunciando os contras, os contras, os contras. No final você fica se sentindo o Curupira, com os pés virados pra trás. Travados de medo. Eles não perdoam nem mesmo quando você conta uma história ruim. “Vocês viram o assassinato do governador? Três tiros na cabeça”, você se espanta. Eis que seu seca-pimenteira de carteirin…
Meu pai é autista e gosta de pólvora. Nunca recebi um afago, uma palavra de carinho ou a presença dele nas festinhas e feiras de ciências da escola. Sou filha de um autista e minha mãe me ensinou desde cedo que ele me ama e que esse é o jeito dele. Ou melhor, a disfunção de desenvolvimento dele. Ela também me ensinou que não posso chegar muito perto, principalmente quando ele está segurando armas de fogo. Geralmente os autistas são arredios a contatos e têm linguagem pouco desenvolvida, por isso não respondem a perguntas e se isolam quando as pessoas insistem em se aproximar. Papai atira. Até hoje contabilizamos, entre os seres atingidos pela sua pólvora, o teto da sala, a parede da garagem, um ursinho de pelúcia que cantava, três gatos e o braço do namorado da minha irmã, só porque ele errou a porta do banheiro e surpreendeu meu pai no quarto. Depois dos três gatos baleados, minha mãe desistiu de nos comprar um cachorro, mesmo com os apelos chorosos meus e da minha irmã. Se os gatos …

Sépia

A foto na parede era a única coisa que fazia o homem sisudo rir.
Coisa estranha homem sério daqueles com foto de hippie na parede. Tinha dias que a secretária entrava e ele estava lá, contemplando. Enquanto ele assinava os documentos ela ficava de um para outro, credo. Como é que esse homem aqui já foi esse aí? Cabelo comprido, bagunçado, bermuda desfiada. Violão do lado. E será que ele sabe tocar violão? Além do mais na foto o homem parecia não ter nada a perder. Não era tranquilidade de executivo, era, Deus que me perdoe, vagabundagem. O homem atrás da mesa tinha muito a perder, comandava o mundo, imagina. Nunca perguntou. Perguntava muito pouco, aliás. O homem era por demais carrancudo. Ria pouco, só na frente da foto. Nem com os filhos ele ria. Nem no final do ano ele ria. Nem com balanço positivo ele ria.
A secretária nunca soube. A foto foi achada num sebo, dentro de um livro Ele nunca entrava em sebos. Homem rico, imagina. Comprou o livro por causa da foto, perdida dentro. Na f…

Tatiana

A primeira vez que li algo dela foi tarde, há dois anos só, e se chamava Olhos de ver. Já tinha ouvido falar da escritora muito antes, mas queria ter passado minha infância toda com ela. Descobri que Tatiana Belinky, escritora de 92 anos nascida na Rússia mas radicada no Brasil há mais de 80 anos, estaria em uma festa de aniversário de uma editora de livros infantis aqui em São Paulo. No dia e horário marcados, desci do metrô ainda me perguntando o que eu ia fazer ao chegar lá, sem conhecer ninguém, só querendo saber da Belinky. Decidi não pegar ônibus e fiz o trajeto até o lugar a pé, só pra contemplar a beleza das ruas cheias de brechós e lojas de móveis antigos. Um primor. Cheguei na festa, encontrei-me com outros escritores e ilustradores, mas Tatiana ainda não tinha dado o ar de sua graça. Eu era uma menina grande, a única que não era criança ou estava acompanhando uma, numa verdadeira festa de arromba. Tinha contação de histórias, pipoca, milho verde cozido no fogão a lenha, br…

Hoje eu escrevi no muro

Se você fica pensando que queria ter tido uma turma legal, heterogênea, louca, pronta pra qualquer parada e com pessoas de coração grande, de abrigar o mundo inteiro, morra de inveja. Eu tenho essa turma, ela me enche de orgulho e agora temos um muro pra escrevermos todos juntos.
Torço para que o muro seja bem colorido, como sempre foi. O que for cinza a chuva vem e apaga.
Texto meu, o primeiro de muitos, espero: http://murodasdivagacoes.wordpress.com/2011/06/10/firme-obstinada-teimosa-como-uma-mula/

Nostalgia

do tempo em que meu maior medo era a luaque eu espiava medonha e escondidinhadebaixo do colo protetor e risonho do meu paina frente de uma janela sem cortinas
s.f. tristeza profunda pelo leite derramado,peloque já foi e não volta maisestado melancólico da alma
do tempo em que bullying não tinha esse nomee minhaúnica inimiga se chamava kethielea mais desbocada e terrível criança que já existiuvilã até no nome
o sufixo “algia” tem raízes gregas e significa dor, afliçãooque quer dizer o resto da palavra desconheçoe prefiro continuar desconhecendo
do tempo em que eu morava na avenida brasile achava que todo mundo, mesmo os que moravam bem longe,moravam também na avenida brasil, que por ser brasil era grandee podia abrigar o mundo inteiro
os dados epidemiológicos referentes à nostalgia são bem variadospode acometer crianças, homens, mulheres e velhosespecialmente velhos, no corpo ou na alma
do tempo em que o tempo era moleque travessoe o mais curto era o tempo do recreio e o mais longo, o tempo …

Termômetro

Minhas unhas da mão e eu vivemos uma batalha incansávelTento afastá-las da boca, da tentação de consumi-las Lixo, passo esmalte, faço as unhas Como mocinha
Uma hora a ansiedade bate Elas me vencem Eu as roo E a vida toda rui junto.

Confesso

Que tenho momentos de maldade e que já desejei mal ao próximo (e principalmente à próxima, quando ela estava próxima demais do meu próximo). Que tenho surtos psicóticos, que já quis que certas pessoas... pfff desaparecessem. Que sou insegura e tenho ataques de choro frequentes. Confesso que quero ser paparicada, que sou ciumenta, possessiva e meio louca. Confesso que já culpei a TPM por momentos de imaturidade. Que sou mais vilã que mocinha. Que faço fofoca e depois tento me redimir pensando que nenhum comentário foi injusto, muito embora desnecessário. Que sou bem mais criança que adulta. Que magoo quem mais amo com a facilidade com que bebês choram. Que já tive vontade de jogar o celular janela afora. Que tive o mesmo desejo com pessoas. Que nem sempre tenho graça. Que não sei piscar sem abrir a boca, nem dobrar a língua, nem mexer a orelha sem as mãos. Que já fingi que não doeu. Que nunca virei uma estrelinha. Que o pé sua e já caí muito nas calçadas da vida. Que a mão sua e já man…

Educação

No parque, observei três meninos na fila da torneira, esperando para encher de água o baldinho. Molhar a areia para construir castelos, piscinas, um mundo todo de terra e água na palma das mãos. Os três na fila, as mães no banco, conversando sobre trabalho e esmaltes. Uma das mães, que não era mãe de nenhum dos três meninos, aproveitava o domingo de parque para corrigir provas dos alunos, enquanto as quatro crianças que ela trouxera a interrompiam constantemente, pedindo chocolate, pedindo refrigerante, pedindo pra mãe salvar da altura do brinquedo. A mãe e suas quatro crianças tomaram minha atenção por instantes, mas o aprendizado daquele domingo ensolarado estava mesmo na fila da torneira.
Enquanto os três meninos aguardavam pacientemente sua vez, uma senhora passou na frente deles, sem dó nem piedade, para encher uma garrafinha. Um dos garotos, com aquele ar sem ironia nem arrogância que toda criança de uns seis anos pode ter, perguntou; “Tia, a senhora não tinha que ‘tá’ lá trás?”…

Se contém

Paixão é cócega, das que arrepiam e explodem num riso descontrolado. A gargalhada acaba não sendo por gosto, nem por desgosto, e no fim a gente acaba rindo mesmo por ter perdido o prumo. E diante do cocegador a gente fica incerto se esconde o pé ou aperta o braço bem juntinho do corpo, pra não se perder na explosão incontida da gargalhada, ou então se se rende logo, pelo bem da risada. Mas ninguém se entrega fácil, muito menos foge de imediato. Cócega boa é aquela que vem sem aviso e cocegador bom é quem sabe fazer com jeito malandro, mesmo diante do apelo (metade rido metade chorado) do seu cocegado. Paixão é o exato momento em que ambos se olham e estudam o movimento alheio, mas sem ter certeza do que vai dar e como vai dar. Paixão é descontrolar.

Manual

Eu já dosei, refleti e analisei tudo. Meu erro está em não saber medir. As palavras ou as emoções. Daí tudo se esparrama, foge ao controle. E no final é cada um num canto, perguntando-se por que se estão os dois ali, sobra solidão. Perguntando-se se tudo o que é preciso está ali, falta um tanto. Quem sobra, quem sabe, quem sobe, quem até sibila, quem será que, no final, assovia uma canção? A nossa, qual é? São os sons que descrevem as histórias de amor com sintonia, são os sons, mas não só. Tem também as letras e as palavras, que juntas formam os textos. Todos dedicados a mim. E eu nem sei o que responder, os meus também são, todos dedicados a você? Não, é mais, sou eu. Inteira sua.

São Paulo

Tem sempre dois metrôs: um que vai, um que volta
Tem sempre duas escadas rolantes, a que sobe, a que desce
Tem sempre dois lados da avenida, um pra lá, outro pra cá
Tem sempre alguém descendo do trem, alguém entrando nele
Tem sempre alguém desembarcando na rodoviária e alguém indo embora
Tem sempre alguém ganhando, tem sempre alguém pedindo
Tem sempre alguém rindo, alguém chorando

Uma coisa é sempre igual:
Sempre, sempre, sempre chove.

Meu caso com o Moacyr Scliar

Eu tinha encasquetado que o tema do meu TCC de faculdade seria sobre as crônicas do Cony, mas minha orientadora sugeriu que eu mantivesse o estudo das crônicas, porém, mudasse o autor. “Conhece o Scliar?”. Não, não conhecia. No mesmo dia parti para a hemeroteca e encontrei várias das suas crônicas publicadas na Folha de S. Paulo. Não demorou para que eu me visse envolvida entre suas linhas, lendo e relendo, fazendo do trabalho de conclusão de curso uma forma de me aprofundar na essência do escritor.
Achei válido ter umas palavras dele no meu trabalho. Consegui seu e-mail com a editora e enviei. Três perguntas. Tive receio de elas serem fracas, de que ele nunca respondesse. Meia hora. A resposta.
“Tatiana: obrigado pelo e-mail e pelo interesse em meu trabalho. Aqui vão as respostas, com abrs. do Moacyr”
Mal contive a emoção. Tempos depois, a elaboração do TCC arrancou-me mais dúvidas e lá fui eu enviar outras três ou quatro perguntas. Atenção idêntica, rapidez idem. Pouco depois de concl…

Definição

O amor é feito de duas pessoas em constante evolução.

Essa é a minha definição. A do Carpinejar é essa:


E a sua, qual é?

Comunicação

Quando você quer se comunicar com alguém, hoje, qual meio usa? Envia um e-mail, uma mensagem off pelo MSN, um scrap, uma DM pelo twitter, publica no mural do Facebook, escreve um SMS ou liga no celular? A menos que se trate de alguém totalmente avesso às tecnologias, a resposta é quase sempre instantânea.
Meu pai contou que, há 38 anos, em 1973, ele se mudou para o Rio de Janeiro e a família – pai, mãe e irmãos – ficaram no interior de Santa Catarina. Não tinham telefone e uma carta pelos Correios demorava mais de 20 dias, além de ser caro o envio. Para se comunicar, eles se escreviam cartas, intermediadas por caminhoneiros que transportavam feijão. A maioria das cartas era escrita pelos irmãos do meu pai, já que meus avós, agricultores, escreviam pouco. O transporte das notícias era relativamente rápido, em quatro dias uma carta escrita pela família do meu pai chegava ao supermercado carioca no qual ele e um irmão trabalhavam. Mas era um tempo prolongado demais caso a notícia fosse tr…

Sobre as grandezas

Um dos lugares que mais me marcou na infância foi a garagem do apartamento no qual morei até os 10 anos. Lá dei vazão às minhas fantasias, aprendi a andar de bicicleta, logo mais atropelei um velhinho com outra bicicleta, lá que uma amiga minha quebrou o braço. A garagem tinha uma área aberta atrás, um mundo a ser desbravado, e tudo virava motivo para explorações e histórias fantasiosas que tinham um exato dia para acabar. No outro, a brincadeira era outra.
Foi lá o cenário de mais uma das minhas festas escalafobéticas, a de 7 anos. Foi na garagem que meu irmão deixou a bicicleta assassina sem trancas e, assim, roubaram. Atrás da garagem descobri que tinha um muro que dava direto para o quintal de uma amiga meio vizinha, descoberta inacreditável aos 7 anos. Eu estava aprendendo a construir atalhos, à custa de muitos joelhos ralados.
Mesmo meus pais nunca tendo mudado de cidade, não tinha mais voltado à garagem. Isso foi acontecer só esses dias e foi aí então que eu descobri. Como as co…

O maior

Ele foi com medo, muito medo de errar. De fazer feio, de ser menor. Eu fiquei com o coração na mão durante todo o dia, lá, do outro lado do oceano. Acompanhei toda a repercussão e fiquei emocionada, orgulhosa. Quando voltei, ele disse: fala a verdade, você achava que eu não ia conseguir, né? Não, pai. Eu tinha medo que não vissem o quanto você é herói. Mas ainda bem que eles viram.

TEDxPORTOALEGRE - Elio Lazzarotto (Papai Noel do Brasil) from TEDxPortoAlegre on Vimeo.