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Católica apostólica romana

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Sim, eu tenho fé e às vezes me cansa um pouco ter que justificá-la. Eu tenho uma crença em um Deus onipotente e onipresente, em um Jesus de amor e em uma Nossa Senhora que me dá forças quando eu preciso. Eu não me considero burra ou alienada, é minha escolha e sou feliz com ela. Eu rezo o terço quando lembro, eu professo a oração do Santo Anjo quando sinto medo, eu confesso que rezo bem mais quando eu preciso do que quando as coisas estão bem. Eu agradeço o que eu tenho, eu peço saúde a minha família. Eu mal fui à missa este ano e acho que me fez falta, muita falta.


Eu não quero que você tenha a mesma fé, eu não posso nem quero decidir por você. Eu te amo do jeito que você é, com suas escolhas. Independente delas vou continuar rindo das suas piadas, vou continuar te ouvindo, vou continuar te respeitando. E nesse você eu incluo qualquer pessoa que se espanta com a fé que eu carrego. Esse você eu respeito, só peço o mesmo respeito de volta. Não quero mudar sua visão, mas também não quero explicar minha fé como se eu estivesse cometendo um crime. E olha que coincidência: quero praticar o respeito mútuo assim como quero praticar minha religião.

Mais do que ter uma fé acho que sou essa fé. Lembro-me dela desde que me entendo por gente, ela permeia muitas lembranças, então, posso dizer que ela está impressa em mim. Sou a fé da minha mãe acendendo velas pela casa, sou a fé rezando baixinho até pegar no sono, sou a fé da minha mãe chorando ao ver o papa no Brasil pela TV. Sou a minha fé aos 5 anos rezando para minha berruga cair do dedo. Sou a fé do meu pai chamando Nossa Senhora quando estive perto da morte, sou a fé da minha mãe me levando a benzedeiras para proferir orações, sou a fé do meu tio chorando feito criança numa Sexta-feira Santa por lembrar o sofrimento de Jesus, sou a fé rezando o terço para ter forças e continuar procurando emprego, sou a fé em ajudar um deficiente a descer as escadas do metrô e ouvir: Deus te abençoe. Amém.

Minha religião não me aliena, minha religião não me emburrece, a religião não me regula, a religião não me limita, a religião não me faz intolerante. Acredito que as pessoas são assim por conta própria, pela criação, por tantas influências, não é só a religião que as transforma. As pessoas são alienadas pela grande mídia, as pessoas são emburrecidas por programas de TV, as pessoas são reguladas pela moral e pela polícia, as pessoas são limitadas pelo medo da violência, as pessoas tornam-se intolerantes por péssimos exemplos. Isso ninguém condena ou não condena de forma tão ferrenha, como se fosse um estigma, uma anomalia.

Eu quero ser feliz com as escolhas que fiz, sem ser taxada.

Um Natal de renascimento, um Ano Novo sem preconceitos. Um 2012 mais tolerante.

Amém.
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Proposital

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Coisa que cutuca
Caótica, calada, crua
Coisa que cavuca
Confusa, cansada, gatuna
Coisa que gasta
Gritada, gorfada, grossa

Coisa que combina
Goethe, Camus, Kant
Coisa que encarna
Corroída, regredida, carcomida

Coisa que engole
Come, cala, cansa
Coisa que encrespa
Crava, pinica, crema
Coisa que me completa
Coça, cutuca, cobra

Gosto da coisa
Do incômodo, do grave e do corte
Gosto da coisa que grita o desgosto
Gosto da coisa que clama meu grito
Gosto da coisa
Do escuro, do cuspe e do gozo
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Sobre o amor

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Nunca fui muito ligada ao futebol. Perguntaram-me por que esses dias, na aula de inglês. Não soube responder. Nem em português eu sei responder. Caio sempre naquela que meu pai nunca foi fã de bola, nunca torceu com afinco, e eu não herdei isso.
Mas, sem importar os motivos, posso não gostar de futebol, mas respeito bastante quem gosta. Posso não entender de mata-mata, pontos da rodada, o que acontece se aquele time ganhar ou perder, mas eu entendo o amor de quem torce.
E o meu amor, talvez por sofrer bastante por um time perdedor, diz sempre que não gosta só do Palmeiras. Gosta de bola. E eu acabei de entender o que ele quis dizer quando passei a mão no telefone para contar para ele a notícia que tinha acabado de ler.
Depois do silêncio, ele disse:
- Vou torcer para o Corinthians hoje. O Corinthians tem que vencer.
Gostar de bola é reconhecer a importância de um grande craque, independente da camisa que ele vestiu. Gostar de bola é torcer pelo adversário numa final ao entender o que significa o grito de felicidade acumulada de um time que não apenas vence, mas explode em alegria, apesar da tristeza, por homenagear um mestre que se vai. Hoje, justo hoje.
Não lamento não gostar de futebol. Lamento não ser tão altruísta assim.
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Cortei os cabelos, de um jeito que precisava. Cortei os cabelos para me libertar do escudo que armei em volta de mim, da defesa certa quando a vergonha e a insegurança me jogavam atrás das cortinas. Rasguei minhas cortinas para mostrar meu rosto, para mostrar quem eu quero ser, minha cara emoldurada, o susto que ainda levo ao ver aquela moça diferente de relance no espelho. As pessoas na rua me olham diferente e sinto-me como as centenas de paulistanos que não me conheciam e para quem eu continuo uma anônima. Sou essa imagem daqui para a frente. Libertei-me da aparência de menina, da aparência que me acompanha desde que me entendo por gente. Cortei os fios longos e hoje tenho as costas nuas, hoje meu “Alea jacta est” está à mostra. Hoje sou mais eu, ou pelo menos sou eu tentando descobrir quem sou. Fiquei mais jovem e mais moderna, dizem. Não sei. Fiquei mais feliz. Não me escondo. Não consigo me esconder dos meus fios curtos e bagunçados. Não sou mais Sansão, não preciso mais da força do peso e do comprimento dos pelos. Os curtos me renasceram. Sou Dalila. A que corta, a que rompe, a que se reinventa, a que aparece. Sou livre e me sou anônima, precisei cortar para me redescobrir. Muito prazer.


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Minha prece em favor dos incompreendidos

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Estive pensando numa boa definição para insegurança. É quando sua autoestima é tão baixa, mas tão baixa, que você deixa os outros definirem o que você é, mais do que você mesmo. Aos inseguros não basta gritar bem alto quem são. Os outros gritam por eles, apontando o dedo em riste, cuspindo suas características mais vãs, justamente aquelas que não os definem bem.

Porque ninguém é uma coisa só. Embora a capacidade humana seja mestre em generalizar, para ficar mais fácil digerir as cenas, são as pessoas que mais se orgulham de sua capacidade analítica as que mais cometem erros. Porque essas têm a péssima tendência de atirar em cheio seus diagnósticos, sendo seu melhor alvo os inseguros azarados em lhes dar ouvidos. E o pior de lhes cravar a irremediável marca do que são, os pseudoanalistas ainda despejam suas opiniões como se as características fossem imutáveis. E mais, a origem de todo e qualquer desconforto.

Nada pior para os inseguros (pior ainda do que se perder o direito de se dizer quem é, em alto e bom som) é a sensação de que nada vai mudar. Seus erros mais torpes, as pisadas na bola mais feias e a imaturidade empregada desesperadamente em certas situações, tudo isso é mais forte. Porque, como disse um cara numa palestra que vi, a memória tem se tornado mais forte que a experiência. Infelizmente.

Sou ainda a mesma menina medrosa que minha mãe tentava chacoalhar com algumas doses de humilhação. Sou ainda a menina chorona que meu tio arrancou do banheiro e deu boas lições de moral. Sou a garota ciumenta, que não sabe lidar com as perdas das pessoas. Sou a mulher que, quem diria, foi taxada de rude por não se sentir à vontade em algumas rodas. Sou a doída, a corroída, a malvada, a maldosa, a vitimizada.

As definições são dadas pelas pessoas que preferem não ouvir, não sentir o que está no outro. Importa apenas a sua memória, que nem sempre traduz o todo. É muito fácil, aos apontadores de dedo em riste, definir quem o outro é e porque ele age desse ou daquele jeito. É um jeito fácil. E torto. Difícil é compreender. A mesma incompreensão de quem analisa em demasia é a que o faz desistir das coisas. Das lidas da própria vida. Das relações, das possíveis zonas de conflito. Quem mais gosta de apontar nos outros a fragilidade é quem tem mais dificuldade com seus dilemas, em enfrentar seus fantasmas (quando não são os mesmos que os assombram).

Por isso rezo essa prece em favor dos incompreendidos, inseguros, taxados. Desejo somente um grito forte e pesado. Dizendo quem são, voz firme, segura. E nesse canto tão bonito, tão alto, suas palavras serão ouvidas, entendidas, assimiladas. Esse mantra, capaz de despertar a ira de quem se acha tão cheio de razão, vai é mesmo amolecer os corações para a presença de um outro, desaparecer com a pretensão de se saber demais e dissolver a presunção de rotular o mundo.

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Advertência

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Sem caminhos

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Moro bem perto de um aeroporto, mas nunca viajei por meio dele. Minha mais recente viagem e primeira inaugurando minha passagem por ali faz uns 15 dias. Na volta, fiquei com medo de ser enganada pelo taxista e liguei para minha companheira de apartamento para saber as indicações de como voltar para casa pelo caminho mais curto. "Pega a avenida tal, a rua tal, depois a rua tal..."
Entrei no taxi, falei meu endereço e dei uma de malandra:
- O senhor vai pela avenida tal? E depois pega aquela rua?
- Não.
Como assim, fiquei me perguntando, com aquele medo de ser enganada mas sem muitos argumentos. Ele perguntou que caminho era aquele que eu estava apontando, um absurdo, onde já se viu pegar tal avenida, onde você aprendeu esse caminho? Tive vergonha de dizer que pedi arrego. Contei que tinha feito o caminho com outro taxista.
Então ele explodiu numa gargalhada. "É claro que ele te enganou". E riu mais.
- Deu mil voltas com você, ou você mesmo pediu esse caminho a ele?
Não, não seria tão idiota de pedir um caminho que nunca havia feito antes. Encurralei-me na mentira, estava me sentindo envergonhada, até diminuída, por ter sido enganada por uma história que sequer existiu. E o taxista lá, rindo, não por maldade, mas um tanto por ver a história se repetir por mil vezes na sua profissão.
Foi aí que eu tomei as dores da minha amiga (que deve ter sido, ela sim, enganada) e expressei a mágoa por ter sido, eu também, enganada no Rio, cidade de onde tinha acabado de desembarcar (dias antes o taxista carioca fez o caminho mais comprido, para que eu pagasse uma pequena fortuna a mais). Essas enganações todas foram me avermelhando, primeiro pouco, depois tão forte que explodiram, verbalizadas em cachorros soltos:
- Pois eu não tenho vergonha de nada, meu senhor. Quem me enganou foi ele (e aqui ele representa todos os taxistas desse meu Brasil). Se alguém tem que se sentir envergonhado, esse taxista é a única pessoa. Não preciso me envergonhar de ter sido enganada por um pilantra, que se vale da ingenuidade alheia para dobrar os caminhos. Isso é roubo, ou ninguém percebe? Se não existissem taxistas ladrões, corruptos, não existiriam pessoas enganadas, roubadas e ouvindo o que estou ouvindo agora.
O cara se calou. Eu acalmei depois de desabafar minha mágoa, lamentando o fato de ter sido assim, com um homem que talvez nem seja corrupto, mas que teve a recorrente mania de achar que a vítima tem culpa. Prometi não me calar mais. Cada vez que vemos algo errado acontecendo e nos calamos, morremos um pouquinho. E eu estou decidida a ficar inteira.
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Identidade

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Texto meu no Blog das 30 Pessoas.
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Eu te juro, Augusta

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A Augusta, desgraçada, raptou-me a bolsa

Os óculos de sol e os de enxergar bem

A Augusta, pilantra, roubou meus cartões do banco

Minha identidade, meus remédios, meus florais


A Augusta, safada, carregou meu MP3

Meu dinheiro, as chaves, os boletos

A Augusta, cachorra, me fez trocar a fechadura

Obrigou-me a prestar queixa

Fez da minha vida um caos

Justo eu que a amava tanto


Não contente, a Augusta, calhorda, furtou meu celular

E, insolente, fez uma ligação pro Peru

A Augusta, covarde, gastou todo meu crédito

A puta.


Ainda bem que Augusta me deixou

Um amor e dois amigos profetas

Pra me consolar

E emprestar o ombro,

Um dinheiro e o celular.


Mesmo assim, Augusta, bandida, ainda me pagas

Por não me deixar imune

Por me incluir nas estatísticas

Por todos os protocolos

Por ser tão cheia de gente, tão confusa

E tão cosmopolita.



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Corpo

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Quando a atropelaram, os carros

Em alta velocidade não pararam

Pedestres reviraram suas coisas

Foram-se uns trocados, o celular

Em vão pediram-lhe números de cor

Ligaram, mas ninguém atendeu

Os pais moram longe, o namorado sem sinal

As amigas ignoram desconhecidos

O corpo e o murmúrio ficaram estendidos

No chão, os olhos quase se fecharam


Foi aí que ela pensou:

Como é triste

Morrer

na cidade

grande

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Pedido da Filha do Papai Noel

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Pessoal, como muitos de vocês já sabem (e quem não sabe vai ficar sabendo agora hehe) meu pai é Papai Noel do Brasil (http://papainoeldobrasil.com.br/). Ele faz esse trabalho há 12 anos, com chegadas de helicóptero nas cidades do Sul do Brasil, além de resposta a todas as cartinhas enviadas para seu CEP próprio (89990-960 Sim, as cartas chegam todas em minha casa!). Já foram mais de 1 milhão de cartas respondidas, cerca de 150 mil por ano.

Depois de contar sobre sua paixão que inspira no TEDxPortoAlegre e de como seu trabalho transforma cidades no TEDxCuritiba, agora ele está concorrendo a uma vaga no TEDxESPM, que vai acontecer dia 29 de setembro aqui em São Paulo. Meu pai (Elio Lazzarotto) está concorrendo com outras 4 pessoas para palestrar nesse evento. Cada uma delas escreveu uma ideia que gostaria que fosse compartilhada. A do meu pai é pedir que as crianças enviem cartinhas contando o que os adultos podem fazer pra transformar a vida das crianças mais feliz! Depois ele vai fazer uma lista de sugestões de políticas públicas para os governantes.

Quem mais receber curtições será o palestrante. É só clicar em: http://www.espm.br/redes/tedx/facebook/canvas/speakerx/speaker-x-elio.aspx e votar (Like)!

Agradeço muito se vocês puderem votar e quem não tiver conta no Facebook é só repassar aos seus contatos.

Muuuuuito obrigada!
Beijos, Tati
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menino

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Corre o dia inteiro pra me ver e dorme. O chão capota sob seus pés, o sono o pisoteia e conversa com ele sonâmbulo. Descansa os pés sobre minhas pernas e reclama, reclama e boceja. A vida no hospital é difícil, mas dá bombons e adoça, é doce e amarga. Inventa desculpas para não dispensar mísero esforço e se atém à preguiça maldita, pálpebra maldita, preguiça. Passa 24 horas acordado com outros amigos que não vê há tempos e comigo, relaxa, relaxa e briga. Acha que minha carência é frescura e condena, condena e serpenteia pelas ruas com carrinho, malas e colchão. Meu grito sai tardio, sussurrado, arredio. Vem cá que eu te nino, vai.

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Água

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Da minha casa inundada nada lembro
Sou de um lugar onde água é rio, lento
Minha infância qualquer deságua, fatia
A mãe me grita da beirada, desanuvia

O sol seca minha poça de lágrimas, eternizo
Eu consolo a tempestade disforme, granizo
Nunca me afoguei, nem soube nadar, covarde
Sonhei com portos distantes e laranjas, é tarde

O suor das coisas, de todas as coisas, morde
Minha sina é não ter de lutar tanto, sorte
Mergulhei amores e temores em copos rasos, tardia
Agarrei minha correnteza intempestiva, adia
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Entrecortes

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- Mãe, ele tem cama?
- Ele quem?
- Jesus - perguntou o moleque, subindo a rua Loefgren.

O ruim de morar em São Paulo é isso. Você anda tão rápido que nem consegue ouvir as respostas. Aí as conversas ficam assim, pela metade. Mas o pior de tudo é ficar desse jeito, no vácuo. Eu também queria saber, moleque.
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Nunca fui boa com jogos. Jogos de tabuleiros, baralhos, pinos, controles. Fui sempre um zero a esquerda em tudo, excluindo aí o Alladin e o jogo da memória de quadros amarelos, por supuesto, os mais simples de se ganhar. Tive um período bom com cartas na mão. Poker e truco, embora muito se deva a pose e grito.

Nunca fui boa com estratégias, jogadas ensaiadas. Sou de jogar o copas em cima de gato, impensadamente, no afã do momento. Sou de jogar muita besteira em cima de muita besteira, quando o caldo já entornou. Sou de chorar o caldo entornado, sabendo antes que ele pode se esparramar, sou de chorar meu caroço.

Não sou boa com jogos porque talvez deteste admitir que perdi, embora o faça agora. Porque não sou mais a carta mais alta do baralho. Perdi porque faz tempo que não vem carta. Porque não consigo ganhar de virada. Perdi porque até admitindo que perdi eu perco. Perdi porque apostei e blefei. Pediram para mostrar as cartas. E eu ando sem nenhuma.

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Lá e aqui

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Porque eu publiquei , mas acho que tem bem cara daqui.
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Um sonho de liberdade

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Hermenegilda voltou. Não suporta ver estresse rangindo no peito, não suporta confusão rondando o espírito, não suporta explosão surtindo com efeito. Hermenegilda explodiu. Hermenegilda me surtou. A única pomada que serve para ela é branca. Hermenegilda me faz sentir uma surfista manca. Com uma mancha de pseudoprotetor solar, da largura de um dedo, num lado só da cara. Hermenegilda me faz ter saudade de esfregar o rosto com as mãos. Hermenegilda me fresqueia. Hermenegilda me faz tomar uns remédios terríveis, que me fazem sentir sede. Hermenegilda me faz sedenta por um atestado de 5 dias, para não me obrigar a encarar ninguém junto dela. Hermenegilda me irrita, Hermenegilda me pertence.
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A trança

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No trem, o celular tocou. O homem, com poucos fios na cabeça, todos já grisalhos, falava alto, bem alto. “Ô, pastor, pastor, quando posso pegar os livros?... Amanhã?... “Sem problema, sem problema.... Minha esposa pega. Deixa eu ver com ela que horas dá para passar aí”.

No banco ao lado dele, ela, a esposa. Cara de índia, aquelas índias gordas e curandeiras, com duas tranças, finas, entrelaçadas desde o topo da cabeça. Cara de poucos amigos, cara de que sim, tinha problema. “Vou ao mercado com você, né?”, respondeu em tom de reprovação. A partir daí ele ficou naquela situação de tentar reverter o mau humor da pessoa que não quer fazer nada, sem poder matá-la, pelo contrário, com tom afável, ao mesmo em que segurava o pastor, homem obviamente muito ocupado, na linha. Minutos suados depois, uma solução. “Então nove horas ela bate palma aí na frente e pega tudo”. Ufa.

Nesse momento me peguei pensando nesses casais de muito tempo e, principalmente, nesses casais de muito tempo com uma mulher com cara de cu, com cara de que tudo não pode, com cara de que o hormônio já faz falta, de que a labuta do dia a dia já pesa nas costas há muito tempo. Pensei nos pobres coitados dos cônjuges que convivem com esses tocos de desamor e nos malabarismos diários que devem ser feitos para não se largar mão de vez. “O casamento é um eterno ceder”, costuma dizer minha mãe.

E de pensar, fechando os olhos por um instante, eles se surpreenderam abertos olhando uma mulher que ria. Ria com riso de quem se derrete feito manteiga no sol. Tudo porque o homem estava comendo (sim, comendo) sua trança direita. Mastigava-a com vontade, pincelava a trancinha na cara toda, para depois comê-la de novo, finalizando o movimento fingindo ser a ponta da trança seu bigode.

A mulher ria, ao mesmo tempo que puxava a trança de volta, sorriso nos lábios que contrastava com suas palavras de censura. “Para, homem”.

Poucas vezes minhas perguntas foram respondidas com tanta rapidez. O amor desarma. Desarma porque se faz de bobo, de bobo ao mesmo tempo que esperto, como criança que faz xixi na cama e chama a mãe de linda. Desarma como homem vivido comendo trancinha. Desarma porque é capaz de entrelaçar até fio bem embaraçado. Desarma porque diante de bobeira linda a gente baixa as armas. Obrigada, homem.

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Brinde

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Repara só. É só você aparecer empolgado com alguma notícia, como a mudança de casa que você tanto esperava, que aparece um punhado de gente com energia ruim. Fala mal do novo bairro, alerta sobre a violência, lamenta os preços (tão altos!) ou vem contando uma história de uma tia de uma cunhada de uma vizinha que perdeu toda a mudança por conta de uma transportadora fantasma.

Ando cada vez mais convencida que felicidade incomoda. Não precisa ser um plano concreto, basta você mencionar uma ideia mirabolante ou até mesmo uma banalidade divertida que acabou de passar pela sua cabeça que os agouradores de plantão ativam o mecanismo que despeja instantaneamente a água fria, anunciando os contras, os contras, os contras. No final você fica se sentindo o Curupira, com os pés virados pra trás. Travados de medo.

Eles não perdoam nem mesmo quando você conta uma história ruim. “Vocês viram o assassinato do governador? Três tiros na cabeça”, você se espanta. Eis que seu seca-pimenteira de carteirinha anuncia: “Isso não foi nada. Teve um diplomata na Indonésia que foi torturado diabolicamente, arrancaram todos os dedos com alicate de unha, queimaram toda a pele e depois penduraram o corpo na ponte para os cachorros comerem”. Juro por Deus que não entendo essa mania de querer liderar a ruindade até mesmo na arte de ser bem informado sobre tragédia.

Penso de verdade em criar uma campanha. Para cada pensamento negativo que você evitar em reação a uma palavra minha, ganha uma balinha. Não precisa torcer, não precisa achar lindo eu falar que minha geladeira nova está no lugar. Pensa em outra coisa, finge que não escuta, me manda tomar banho, vai tomar um banho, toma um comprimido (embora a mediocridade não tenha cura). Mas, por favor, sai pra lá pé de pato bangalô três vezes. E de quebra ainda adoce a boca, se quiser.

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Meu pai é autista e gosta de pólvora. Nunca recebi um afago, uma palavra de carinho ou a presença dele nas festinhas e feiras de ciências da escola. Sou filha de um autista e minha mãe me ensinou desde cedo que ele me ama e que esse é o jeito dele. Ou melhor, a disfunção de desenvolvimento dele. Ela também me ensinou que não posso chegar muito perto, principalmente quando ele está segurando armas de fogo. Geralmente os autistas são arredios a contatos e têm linguagem pouco desenvolvida, por isso não respondem a perguntas e se isolam quando as pessoas insistem em se aproximar. Papai atira. Até hoje contabilizamos, entre os seres atingidos pela sua pólvora, o teto da sala, a parede da garagem, um ursinho de pelúcia que cantava, três gatos e o braço do namorado da minha irmã, só porque ele errou a porta do banheiro e surpreendeu meu pai no quarto. Depois dos três gatos baleados, minha mãe desistiu de nos comprar um cachorro, mesmo com os apelos chorosos meus e da minha irmã. Se os gatos que já são meio autistas meu pai implicou, mamãe pensava, dou um cachorro e na primeira lambida as meninas verão o cadáver do cãozinho estendido na cozinha, em pleno café da manhã. Nunca acreditei que papai fizesse por mal. É o jeito dele de lidar com tudo, com esse ódio do mundo. E a mira dele nem é tão boa, foram oito gatos mirados pra morrerem somente três. Um dia ele deixou os rifles e pistolas de lado. Pensamos, curou-se. No outro dia comprou um canhão. Antes de abastecê-lo com pólvora, a mistura de carvão, enxofre, nitrato de potássio e a bala, foi contido pelos homens de branco e a camisa de força. Minha mãe deu um basta. Nunca suportou enxofre.


*Graças a Deus esse é um texto de ficção. Meu pai está longe de ser um autista e tem horror a armas de fogo. Esse é um exercício realizado para a oficina "Narrativas breves", com o escritor Marcelino Freire.

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Sépia

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A foto na parede era a única coisa que fazia o homem sisudo rir.
Coisa estranha homem sério daqueles com foto de hippie na parede.
Tinha dias que a secretária entrava e ele estava lá, contemplando.
Enquanto ele assinava os documentos ela ficava de um para outro, credo.
Como é que esse homem aqui já foi esse aí?
Cabelo comprido, bagunçado, bermuda desfiada.
Violão do lado. E será que ele sabe tocar violão?
Além do mais na foto o homem parecia não ter nada a perder.
Não era tranquilidade de executivo, era, Deus que me perdoe, vagabundagem.
O homem atrás da mesa tinha muito a perder, comandava o mundo, imagina.
Nunca perguntou. Perguntava muito pouco, aliás.
O homem era por demais carrancudo. Ria pouco, só na frente da foto.
Nem com os filhos ele ria. Nem no final do ano ele ria. Nem com balanço positivo ele ria.

A secretária nunca soube.
A foto foi achada num sebo, dentro de um livro
Ele nunca entrava em sebos. Homem rico, imagina.
Comprou o livro por causa da foto, perdida dentro.
Na foto não era ele. Mas ele queria que fosse.


*Exercício realizado para a oficina "Narrativas breves", com Marcelino Freire. Na foto, o colega de oficina Victor Faria, do Saber menos.


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Tatiana

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A primeira vez que li algo dela foi tarde, há dois anos só, e se chamava Olhos de ver. Já tinha ouvido falar da escritora muito antes, mas queria ter passado minha infância toda com ela.
Descobri que Tatiana Belinky, escritora de 92 anos nascida na Rússia mas radicada no Brasil há mais de 80 anos, estaria em uma festa de aniversário de uma editora de livros infantis aqui em São Paulo. No dia e horário marcados, desci do metrô ainda me perguntando o que eu ia fazer ao chegar lá, sem conhecer ninguém, só querendo saber da Belinky. Decidi não pegar ônibus e fiz o trajeto até o lugar a pé, só pra contemplar a beleza das ruas cheias de brechós e lojas de móveis antigos. Um primor.
Cheguei na festa, encontrei-me com outros escritores e ilustradores, mas Tatiana ainda não tinha dado o ar de sua graça. Eu era uma menina grande, a única que não era criança ou estava acompanhando uma, numa verdadeira festa de arromba. Tinha contação de histórias, pipoca, milho verde cozido no fogão a lenha, brincadeiras, amendoim, bala de coco, oficinas, teatro, refrigerante, suco, goma. E nada da Tatiana.
Perguntei a umas três pessoas da editora quando ela chegaria, ainda me remoendo por não ter levado a máquina fotográfica. De repente, um escritor de livros infantis que conversava com as crianças lá no palco anunciou no microfone que Tatiana Belinky já chegara. Enfiei-me na fila, tentei convencer dois possuidores de máquina fotográfica a registrar meu momento com ela. O primeiro estava de saída, o outro não podia passar a foto.
Não interessava muito. Eu estava diante dela, da senhora distinta com olhos de moleca, que deu sua corrente de ouro pelo bem de São Paulo durante a Revolução Constitucionalista, que chorou copiosamente quando os espanhóis se entregaram ao exército de Franco, que deixou um primo na Letônia apaixonado por ela, sendo os dois separados definitivamente mais tarde, durante a 2ª Guerra Mundial.
Tudo isso e eu ali, livro na mão, sem saber o que fazer. Abaixei-me do lado da cadeira de rodas e disse: Eu sou Tatiana também, o livro é pra mim. “Não diga!”, ela me respondeu. Com a mão fraquinha, a mente lúcida escreveu: “Para você, xará, um beijo da xará Tatiana Belinky”. Emocionada, falei baixinho no seu ouvido: “Tatiana, queria te agradecer por ter me ensinado a ter olhos de ver”. Ela gargalhou e alguém me chamou. Arthur, o primeiro possuidor da máquina que estava de saída, estava com a máquina apontada para nós. Disse: eu voltei pra fazer sua foto. Foi completo.
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Hoje eu escrevi no muro

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Se você fica pensando que queria ter tido uma turma legal, heterogênea, louca, pronta pra qualquer parada e com pessoas de coração grande, de abrigar o mundo inteiro, morra de inveja. Eu tenho essa turma, ela me enche de orgulho e agora temos um muro pra escrevermos todos juntos.

Torço para que o muro seja bem colorido, como sempre foi. O que for cinza a chuva vem e apaga.

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Nostalgia

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do tempo em que meu maior medo era a lua

que eu espiava medonha e escondidinha

debaixo do colo protetor e risonho do meu pai

na frente de uma janela sem cortinas


s.f. tristeza profunda pelo leite derramado,

pelo que já foi e não volta mais

estado melancólico da alma


do tempo em que bullying não tinha esse nome

e minha única inimiga se chamava kethiele

a mais desbocada e terrível criança que já existiu

vilã até no nome


o sufixo “algia” tem raízes gregas e significa dor, aflição

o que quer dizer o resto da palavra desconheço

e prefiro continuar desconhecendo


do tempo em que eu morava na avenida brasil

e achava que todo mundo, mesmo os que moravam bem longe,

moravam também na avenida brasil, que por ser brasil era grande

e podia abrigar o mundo inteiro


os dados epidemiológicos referentes à nostalgia são bem variados

pode acometer crianças, homens, mulheres e velhos

especialmente velhos, no corpo ou na alma


do tempo em que o tempo era moleque travesso

e o mais curto era o tempo do recreio e o mais longo, o tempo de um ano letivo

no meio tempo o objetivo era passar de ano

e a gente sabia qual era exatamente o próximo passo e que ele não era em falso


os sintomas mais frequentes da nostalgia são o pigarro da alma,

saudade do que já foi e do que ainda não veio

melancolia varrida, que varre, varre e não recolhe nunca


do tempo em que mudar de colégio era o que de pior poderia acontecer

mas a tarde era inteira nossa, com sessão da tarde, mate da tarde, pipoca da tarde,

até que tarde da noite, lá pelas 7, a mãe ligava, dizendo que era hora de voltar


o diagnóstico efetivo se dá por um exame aprofundado nas pupilas

donde se vê o reflexo de um porto vazio e uma casa irremediavelmente perdida

e um sonho do qual se acorda já em pé


do tempo em que meu orgulho era ter lido quase todos da série vagalume,

e todos os livros do mundo estavam no acervo da Biblioteca Municipal de São Lourenço do Oeste

e a Marisa, bibliotecária, tinha a chave de tudo, por saber exatamente onde cada livro estava


uma das poucas moléstias em que não há prevenção

ou se nasce com ela ou nasce sem ela

mas ao longo da vida pode ser desenvolvida ao ver um álbum amarelado


do tempo em que eu sabia ralar joelhos a bordo de uma bicicleta

e que os machucados saravam rápido, como raiva de mãe

e briga de irmão mais velho


os sintomas são aliviados se o paciente respirar fundo três vezes,

subir numa ameixeira vez em quando outra e cuspir ressentimento fora como se cospe caroço

tratamento, amigo, não tem

nostálgico é doente crônico, vivente do passado e meio que descrente no futuro

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Termômetro

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Minhas unhas da mão e eu vivemos uma batalha incansável
Tento afastá-las da boca, da tentação de consumi-las
Lixo, passo esmalte, faço as unhas
Como mocinha

Uma hora a ansiedade bate
Elas me vencem
Eu as roo
E a vida
toda
rui
junto.
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Confesso

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Que tenho momentos de maldade e que já desejei mal ao próximo (e principalmente à próxima, quando ela estava próxima demais do meu próximo). Que tenho surtos psicóticos, que já quis que certas pessoas... pfff desaparecessem. Que sou insegura e tenho ataques de choro frequentes. Confesso que quero ser paparicada, que sou ciumenta, possessiva e meio louca. Confesso que já culpei a TPM por momentos de imaturidade. Que sou mais vilã que mocinha. Que faço fofoca e depois tento me redimir pensando que nenhum comentário foi injusto, muito embora desnecessário. Que sou bem mais criança que adulta. Que magoo quem mais amo com a facilidade com que bebês choram. Que já tive vontade de jogar o celular janela afora. Que tive o mesmo desejo com pessoas. Que nem sempre tenho graça. Que não sei piscar sem abrir a boca, nem dobrar a língua, nem mexer a orelha sem as mãos. Que já fingi que não doeu. Que nunca virei uma estrelinha. Que o pé sua e já caí muito nas calçadas da vida. Que a mão sua e já manchei muito documento importante. Confesso também que em dias de calor eu, inteira, suo. E que é do meu querer ser, toda e todo dia, sua.


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Educação

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No parque, observei três meninos na fila da torneira, esperando para encher de água o baldinho. Molhar a areia para construir castelos, piscinas, um mundo todo de terra e água na palma das mãos. Os três na fila, as mães no banco, conversando sobre trabalho e esmaltes. Uma das mães, que não era mãe de nenhum dos três meninos, aproveitava o domingo de parque para corrigir provas dos alunos, enquanto as quatro crianças que ela trouxera a interrompiam constantemente, pedindo chocolate, pedindo refrigerante, pedindo pra mãe salvar da altura do brinquedo. A mãe e suas quatro crianças tomaram minha atenção por instantes, mas o aprendizado daquele domingo ensolarado estava mesmo na fila da torneira.
Enquanto os três meninos aguardavam pacientemente sua vez, uma senhora passou na frente deles, sem dó nem piedade, para encher uma garrafinha. Um dos garotos, com aquele ar sem ironia nem arrogância que toda criança de uns seis anos pode ter, perguntou; “Tia, a senhora não tinha que ‘tá’ lá trás?” Ela fez que nenhuma palavra foi dita. O garoto esperou a adulta saciar sua sede, eles encheram os baldes e voltaram contentes para a areia.
Do banco, só me restou torcer. Torcer para que o menino conserve sua sabedoria de pequeno, de saber quando as coisas estão erradas e de saber que isso deve ser dito em alta voz. Esperamos, menino, que mesmo ignorada, a voz da justiça um dia seja ouvida. E eu espero, “tia”, que seu encontro ocasional tenha servido ao menino. E que, se preciso for, mais “tias” encontrem meninos para que eles saibam, em todas as filas, em todas as esquinas, em cada dia, o que não deve ser feito.
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Se contém

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Paixão é cócega, das que arrepiam e explodem num riso descontrolado. A gargalhada acaba não sendo por gosto, nem por desgosto, e no fim a gente acaba rindo mesmo por ter perdido o prumo. E diante do cocegador a gente fica incerto se esconde o pé ou aperta o braço bem juntinho do corpo, pra não se perder na explosão incontida da gargalhada, ou então se se rende logo, pelo bem da risada. Mas ninguém se entrega fácil, muito menos foge de imediato. Cócega boa é aquela que vem sem aviso e cocegador bom é quem sabe fazer com jeito malandro, mesmo diante do apelo (metade rido metade chorado) do seu cocegado. Paixão é o exato momento em que ambos se olham e estudam o movimento alheio, mas sem ter certeza do que vai dar e como vai dar. Paixão é descontrolar.
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Manual

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Eu já dosei, refleti e analisei tudo. Meu erro está em não saber medir. As palavras ou as emoções. Daí tudo se esparrama, foge ao controle. E no final é cada um num canto, perguntando-se por que se estão os dois ali, sobra solidão. Perguntando-se se tudo o que é preciso está ali, falta um tanto. Quem sobra, quem sabe, quem sobe, quem até sibila, quem será que, no final, assovia uma canção? A nossa, qual é? São os sons que descrevem as histórias de amor com sintonia, são os sons, mas não só. Tem também as letras e as palavras, que juntas formam os textos. Todos dedicados a mim. E eu nem sei o que responder, os meus também são, todos dedicados a você? Não, é mais, sou eu. Inteira sua.
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São Paulo

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Tem sempre dois metrôs: um que vai, um que volta
Tem sempre duas escadas rolantes, a que sobe, a que desce
Tem sempre dois lados da avenida, um pra lá, outro pra cá
Tem sempre alguém descendo do trem, alguém entrando nele
Tem sempre alguém desembarcando na rodoviária e alguém indo embora
Tem sempre alguém ganhando, tem sempre alguém pedindo
Tem sempre alguém rindo, alguém chorando

Uma coisa é sempre igual:
Sempre, sempre, sempre chove.
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Meu caso com o Moacyr Scliar

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Eu tinha encasquetado que o tema do meu TCC de faculdade seria sobre as crônicas do Cony, mas minha orientadora sugeriu que eu mantivesse o estudo das crônicas, porém, mudasse o autor. “Conhece o Scliar?”. Não, não conhecia. No mesmo dia parti para a hemeroteca e encontrei várias das suas crônicas publicadas na Folha de S. Paulo. Não demorou para que eu me visse envolvida entre suas linhas, lendo e relendo, fazendo do trabalho de conclusão de curso uma forma de me aprofundar na essência do escritor.
Achei válido ter umas palavras dele no meu trabalho. Consegui seu e-mail com a editora e enviei. Três perguntas. Tive receio de elas serem fracas, de que ele nunca respondesse. Meia hora. A resposta.
“Tatiana: obrigado pelo e-mail e pelo interesse em meu trabalho. Aqui vão as respostas, com abrs. do Moacyr”
Mal contive a emoção. Tempos depois, a elaboração do TCC arrancou-me mais dúvidas e lá fui eu enviar outras três ou quatro perguntas. Atenção idêntica, rapidez idem. Pouco depois de concluir o trabalho, minha turma de Jornalismo produziu um jornal sobre a tradição gaúcha. Para a página 2, típica página de opinião, ninguém tinha idéia de quem pudesse escrever um artigo sobre o tema. Um professor sugeriu que nós convidássemos alguém famoso para escrever. Lembrei logo do Scliar. Enviei um e-mail cheio de formalidades perguntando se, caso não fosse muito incômodo, ele poderia escrever uma crônica sobre o assunto, mas não precisaria ser nada muito longo, só se desse mesmo, porque seria uma honra ter seu nome no nosso jornal e mais um monte de linhas. Deu uma hora e ele respondeu: “Tatiana, aí está a crônica, com abrs. do Moacyr”.
Eu nunca mais entrei em contato, mas a ideia de que eu era “assim assim” com o Moacyr Scliar correu. Até que, no ano seguinte, uma professora perguntou se eu não poderia mandar um e-mail convidando-o a dar uma palestra na faculdade. Eu tinha o e-mail, poderia passar a ela, mas ela imaginou que eu teria mais influência para fazer o convite. Enviei umas palavras e esperava uma resposta igualmente rápida, mas não estava tão convicta que um imortal quisesse viajar até Guarapuava para falar a alguns universitários. Minutos depois o telefone do meu trabalho tocou. “Tatiana? Tatiana, aqui é o Moacyr Scliar, tudo bem?” Gelei a barriga. Achei até que era alguém tirando sarro, mas não. Era ele mesmo. Participei de alguns acertos para o evento e esperei ansiosamente o dia. Imprimi meu trabalho e aguardei ansiosa em frente à porta do auditório até que ele chegasse. Minhas mãos tremiam.
Lembro-me até hoje da professora dizendo: “Scliar, tem alguém aqui que está ansiosa para te conhecer”. Nas minhas mãos trêmulas, além do meu trabalho, três livros esperando autógrafo. Em um deles, no meu preferido, ele escreveu: “Para Tatiana, uma glória para este escritor”. Meu trabalho era motivo de orgulho para ele, o que fui saber mais tarde, quando, em cima do palco, no meio da palestra, ele falou isso. Mas não era só essa surpresa que a noite me reservava. Depois da palestra, a professora organizadora do evento me puxou de canto e perguntou se eu queria jantar com o Scliar e outros professores. Era ela quem iria, mas teve uns imprevistos. Claro que eu queria ir, embora a ideia em si já me causasse arrepios.
Éramos eu, dois professores de Letras e o Scliar. Pensei que ficaria muda e estática todo o jantar, mas falei um bocado. Discutimos literatura, mas também formação, idealizações da faculdade e concretizações no mundo real. Scliar era de uma simplicidade espantosa. Na hora de ir embora, já cansado, ele me deu um abraço e falou: “Guria, boa sorte, é o que te desejo”.
No outro dia mandei um e-mail, agradecendo a palestra e o fato de termos nos conhecido. Pouco tempos depois, emocionada, li:
“Tatiana: obrigado pelo e-mail. Também foi um prazer para mim te encontrar. E a tese, que já estou lendo, é uma beleza! Teu trabalho é motivo de orgulho, para mim! Abrs. Moacyr”
Um tempo depois, curiosa que só, perguntei a ele se ele tinha terminado a leitura e o que tinha achado do texto como um todo. Foi o Scliar gentil, de sorriso largo e simpático, quem respondeu:
“Tatiana: claro que terminei! E gostei muito, não só da análise que você faz como também por seu estilo. Antevejo um grande futuro para você! Receba os parabens, o muito obrigado e o abr. do Moacyr”
Guardo todos os e-mails. Guardava ainda no celular um lembrete com o dia do aniversário dele. Mandava e-mail de parabéns todo ano. Quando soube que ele estava no hospital, acompanhei com o coração apertado e nesta manhã de domingo tudo amanheceu mais triste, mais vazio de palavras. Moacyr Scliar morreu nesta madrugada, na cidade que tanto amava. E eu sou uma das milhões de pessoas que passaram por ele e jamais esqueceram a atenção especial dedicada pelos seus grandes olhos azuis aos seus admiradores. Parece até o título de um livro que ele escreveu, “Eu vos abraço, milhões”. Li certa vez que o título veio de uma frase que ele gostava muito e sempre quis encaixar em alguma de suas obras. Scliar era assim, guardava suas ideias rabiscadas dentro em uma pasta de cartolina para um dia concretizá-las. Como diz um trecho de uma de suas crônicas, "Você está certo, meu jovem amigo. Não só as férias são curtas, a vida também”. A vida pode ter sido curta para executar todas as idéias rabiscadas da pasta de cartolina, mas poucos produziram tanto como você. E o nosso caso, o caso de uma admiradora com seu ídolo, não termina aqui, continuarei lendo e relendo suas letras nos livros, tantos, e nos recortes de jornais que guardo.
Não tem palavra para explicar tristeza de morte, eu prefiro me apegar ao que existiu em vida.
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Definição

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O amor é feito de duas pessoas em constante evolução.

Essa é a minha definição. A do Carpinejar é essa:


E a sua, qual é?
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Comunicação

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Quando você quer se comunicar com alguém, hoje, qual meio usa? Envia um e-mail, uma mensagem off pelo MSN, um scrap, uma DM pelo twitter, publica no mural do Facebook, escreve um SMS ou liga no celular? A menos que se trate de alguém totalmente avesso às tecnologias, a resposta é quase sempre instantânea.
Meu pai contou que, há 38 anos, em 1973, ele se mudou para o Rio de Janeiro e a família – pai, mãe e irmãos – ficaram no interior de Santa Catarina. Não tinham telefone e uma carta pelos Correios demorava mais de 20 dias, além de ser caro o envio. Para se comunicar, eles se escreviam cartas, intermediadas por caminhoneiros que transportavam feijão. A maioria das cartas era escrita pelos irmãos do meu pai, já que meus avós, agricultores, escreviam pouco. O transporte das notícias era relativamente rápido, em quatro dias uma carta escrita pela família do meu pai chegava ao supermercado carioca no qual ele e um irmão trabalhavam. Mas era um tempo prolongado demais caso a notícia fosse trágica e inesperada.
Quando meu avô paterno morreu, de câncer, em 1975, meu pai e meu tio, que também estava no Rio, acompanharam o sofrimento viajando de lá para cá. Ao todo, no ano em que meu avô faleceu, foram seis viagens. Na última, passaram uma semana na casa paterna e foi aí que meu avô se foi. Caso algum parente tivesse ido embora por acidente ou enfarto fulminante, os dois jamais chegariam a tempo para o enterro.
Às vezes eu brinco que meu pai me liga direto, por qualquer motivo. Uma vez a nossa cachorra teve filhote e eles ligaram no meu celular na hora para contar, no meio de uma aula. Uma amiga disse que o priminho dela nasceu e a família nem se lembrou de comunicá-la, soube apenas uma semana depois. Talvez meu pai seja mesmo apegado ao telefone. Talvez porque ele teria dado tudo para ter a facilidade de contato que ele tem hoje com os filhos para falar com os próprios pais.
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Sobre as grandezas

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Um dos lugares que mais me marcou na infância foi a garagem do apartamento no qual morei até os 10 anos. Lá dei vazão às minhas fantasias, aprendi a andar de bicicleta, logo mais atropelei um velhinho com outra bicicleta, lá que uma amiga minha quebrou o braço. A garagem tinha uma área aberta atrás, um mundo a ser desbravado, e tudo virava motivo para explorações e histórias fantasiosas que tinham um exato dia para acabar. No outro, a brincadeira era outra.
Foi lá o cenário de mais uma das minhas festas escalafobéticas, a de 7 anos. Foi na garagem que meu irmão deixou a bicicleta assassina sem trancas e, assim, roubaram. Atrás da garagem descobri que tinha um muro que dava direto para o quintal de uma amiga meio vizinha, descoberta inacreditável aos 7 anos. Eu estava aprendendo a construir atalhos, à custa de muitos joelhos ralados.
Mesmo meus pais nunca tendo mudado de cidade, não tinha mais voltado à garagem. Isso foi acontecer só esses dias e foi aí então que eu descobri. Como as coisas grandiosas da nossa infância são pequenas, tão menores que nas nossas lembranças! Fiquei inconformada ao perceber que não, a garagem não tinha sido reformada. Ela sempre foi daquele tamanho. Como minha mãe conseguiu fazer uma festa de aniversário naquele espaço estreito? Como eu me divertia andando de bicicleta de um lado para o outro em uma garagem tão curta? A única coisa que entendi foi como eu atropelei o velhinho pintor aprendendo a andar de bicicleta.
Logo ao lado da garagem, tive outro choque. O primeiro lance de escadas do apartamento onde morávamos era inacreditavelmente pequeno! Na minha infância, aquelas escadas representavam o começo de um grande caminho, que levava ao terceiro andar, um lugar muito, muito alto. Lembro-me bem que limpar as escadas era um trabalho de Hércules. E agora estava tudo ali, reduzido a uma pequenez que nunca tinha feito parte de mim.
Com o passar do tempo, só as distâncias físicas acabam aumentando. A gente envelheceu pra voltar a pé da casa daquela amiga, trajeto que antes, serelepes, vencíamos em um salto. O morro que leva a casa de outra amiga é muito mais íngreme que na infância, ainda mais para mim, sedentária convicta. Quando foi que a gente acostumou a andar de carro e deixar de acompanhar o crescimento das azaleias do vizinho do fim da rua?
É claro que há 15 anos eu era menor, o que distorce as proporções das coisas. Mas não é só isso. De repente o pai não é mais tão jovem como a gente lembra, a mãe pede ajuda pra carregar peso, eles não tomavam tanto remédio assim, tomavam? De repente, as coisas grandes ficam pequenas, as importantes vão sendo encaixotadas e a gente vai se surpreendendo com o tamanho das escadas.
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O maior

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Ele foi com medo, muito medo de errar. De fazer feio, de ser menor. Eu fiquei com o coração na mão durante todo o dia, lá, do outro lado do oceano. Acompanhei toda a repercussão e fiquei emocionada, orgulhosa. Quando voltei, ele disse: fala a verdade, você achava que eu não ia conseguir, né? Não, pai. Eu tinha medo que não vissem o quanto você é herói. Mas ainda bem que eles viram.

TEDxPORTOALEGRE - Elio Lazzarotto (Papai Noel do Brasil) from TEDxPortoAlegre on Vimeo.

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