Sobre as grandezas

Um dos lugares que mais me marcou na infância foi a garagem do apartamento no qual morei até os 10 anos. Lá dei vazão às minhas fantasias, aprendi a andar de bicicleta, logo mais atropelei um velhinho com outra bicicleta, lá que uma amiga minha quebrou o braço. A garagem tinha uma área aberta atrás, um mundo a ser desbravado, e tudo virava motivo para explorações e histórias fantasiosas que tinham um exato dia para acabar. No outro, a brincadeira era outra.
Foi lá o cenário de mais uma das minhas festas escalafobéticas, a de 7 anos. Foi na garagem que meu irmão deixou a bicicleta assassina sem trancas e, assim, roubaram. Atrás da garagem descobri que tinha um muro que dava direto para o quintal de uma amiga meio vizinha, descoberta inacreditável aos 7 anos. Eu estava aprendendo a construir atalhos, à custa de muitos joelhos ralados.
Mesmo meus pais nunca tendo mudado de cidade, não tinha mais voltado à garagem. Isso foi acontecer só esses dias e foi aí então que eu descobri. Como as coisas grandiosas da nossa infância são pequenas, tão menores que nas nossas lembranças! Fiquei inconformada ao perceber que não, a garagem não tinha sido reformada. Ela sempre foi daquele tamanho. Como minha mãe conseguiu fazer uma festa de aniversário naquele espaço estreito? Como eu me divertia andando de bicicleta de um lado para o outro em uma garagem tão curta? A única coisa que entendi foi como eu atropelei o velhinho pintor aprendendo a andar de bicicleta.
Logo ao lado da garagem, tive outro choque. O primeiro lance de escadas do apartamento onde morávamos era inacreditavelmente pequeno! Na minha infância, aquelas escadas representavam o começo de um grande caminho, que levava ao terceiro andar, um lugar muito, muito alto. Lembro-me bem que limpar as escadas era um trabalho de Hércules. E agora estava tudo ali, reduzido a uma pequenez que nunca tinha feito parte de mim.
Com o passar do tempo, só as distâncias físicas acabam aumentando. A gente envelheceu pra voltar a pé da casa daquela amiga, trajeto que antes, serelepes, vencíamos em um salto. O morro que leva a casa de outra amiga é muito mais íngreme que na infância, ainda mais para mim, sedentária convicta. Quando foi que a gente acostumou a andar de carro e deixar de acompanhar o crescimento das azaleias do vizinho do fim da rua?
É claro que há 15 anos eu era menor, o que distorce as proporções das coisas. Mas não é só isso. De repente o pai não é mais tão jovem como a gente lembra, a mãe pede ajuda pra carregar peso, eles não tomavam tanto remédio assim, tomavam? De repente, as coisas grandes ficam pequenas, as importantes vão sendo encaixotadas e a gente vai se surpreendendo com o tamanho das escadas.

3 comentários:

{ Ellen Lacerda (Elinha) } at: 13 de janeiro de 2011 17:45 disse...

Menina, que texto lindo!
Vc tem força nas expressões pequenas, coloca a alma em simples detalhes!
Por isso que sigo vc, pois na sua simplicidade vc coloca as coisas eternas da vida!
Parabéns!
xero.

{ Vivianne Marques } at: 14 de janeiro de 2011 10:12 disse...

Tatiii!!! É exatamente assim que me sinto quando vou visitar minha avó! Uma ladeira que antes subia correndo, hoje tornou-se um martírio!
E o pé de jabuticabas?! Não consigo acreditar que ele era tão pequeno! Era considerado herói quem conseguia subir até o fim!
Mas, por favor, vamos cultivar os antigos sentimentos para que eles nunca nos pareçam pequenos!!!
Bjos

{ Scheyla Joanne Horst } at: 18 de janeiro de 2011 15:19 disse...

Muito bom, Tati. Lembrei de um muro da rua preferida para ir e voltar da escola. No começo, eu ouvia o córrego que passava do outro lado e imaginava quão grande e belo ele era. Quando cresci e passei a ver por cima do muro, era apenas uma valeta de aparência não tão interessante. Preferia antes.

 

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